por Aguinaldo Gabarrão (*)  ======

===Não é de hoje que roteiristas e diretores se apropriam de histórias reais e as transformam em bons filmes. Um desses artistas é Clint Eastwood. Nesses últimos anos, o cineasta dirigiu Invictus (2009), sobre a necessidade de Nelson Mandela unir brancos e negros numa África do Sul dividida pelo preconceito; Sniper Americano (2014), que conta a história do atirador de elite da marinha dos EUA e Sully – O Herói Americano (2016), que reproduz o pouso forçado de um avião no rio Hudson sob comando de um experiente capitão.

Nesses filmes, Eastwood (ganhador de 2 Oscar de Melhor Diretor) é criticado por seu fervor patriótico, ao reforçar a posição de supremacia americana no mundo; em outras histórias por ser lacrimoso demais ou ainda ter uma visão de mundo de “Dirty Harry” (o policial acima da lei, por ele interpretado nos anos 70).

Sim, pode ser tudo isso, mas ele tem méritos em converter essas histórias contemporâneas e bem conhecidas, em filmes convincentes e com qualidade acima da média.

Pessoas comuns ===  O filme 15h17 – Trem para Paris, conta a história verdadeira da tentativa de ataque terrorista num trem com 554 passageiros em 21 de agosto de 2015, onde três americanos tornam-se figuras centrais daquele atentado.

O “pulo do gato” do diretor foi convidar para protagonizar o filme os verdadeiros participantes que lutaram contra o marroquino naquele fatídico momento. Inicialmente descrentes dessa possibilidade de atuar, foram convencidos pelo diretor a participarem, interpretando a eles mesmos na história: Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos.

A sensibilidade do diretor === O desafio de dirigir os verdadeiros protagonistas foi inventivamente resolvido por Eastwood, deixando-os absolutamente à vontade no set de filmagem, sem qualquer tipo de imposição em relação a técnicas ou formas de interpretação.

Cada um deles interpretou a si mesmo. Embora, isso possa parecer fácil, há uma tendência de se cair numa imitação barata, de efeito verossímil nada confiável. E no set, o diretor soube trazer a espontaneidade dos três jovens e calibrá-las com a interpretação dos demais atores para que não destoassem dos três protagonistas que vivenciaram os fatos.

O resultado é muito bom.  Tem-se a impressão de que a câmera não registra uma história ficcional, mas assume a dimensão de um documentário.

“Aconselhamo-nos com Deus!” ===  O roteiro foi baseado no livro The 15:17 to Paris: The true Story of Terrorist, A Train and Three American Heroes, escrito pelos três norte-americanos, com a ajuda do jornalista Jeffrey E. Stern.

Como o atentado terrorista é um ato que se passa numa dimensão temporal curta, a roteirista Dorothy Blyskal e o diretor, optaram em contar fragmentos relevantes da infância e adolescência de Spencer, Anthony e Skarlatos e que conduzissem o público ao entendimento do ato por eles praticado no trem.

O roteiro pontua a vida pessoal e escolar de cada um deles e suas famílias. São nítidas as alfinetadas a determinados comportamentos da sociedade americana, considerados normais: o uso de armas de brinquedo que imitam à perfeição os armamentos reais; as brincadeiras e jogos de Paintball.

Curiosamente, no quarto do garoto Spencer há um pôster do filme “Nascido para Matar” de Stanley Kubrick, que trata da forma como se molda a personalidade de um soldado para a guerra.

O ensino recebido pelas crianças numa escola cristã, igualmente é alvo de críticas: repleta de símbolos religiosos, o ambiente escolar é castrador, pouco afeito ao acolhimento real das problemáticas de seus alunos. Na visão burocrática de alguns daqueles profissionais de ensino, as três crianças são pequenos delinquentes, cujos destinos certamente não oferecem algo promissor para a sociedade.

Um propósito para cada existência ===  Ao escolher uma história real e de grande impacto, protagonizada por três jovens de vidas banais, Clint Eastwood, demonstra que independente da nossa formação e repertório, por vezes aparentemente limitados, os acontecimentos que se relacionam na vida reafirmam, a qualquer momento, a nossa importância e sentido na existência do outro.

E nos provoca a pensar na importância dos nossos talentos, por vezes, menosprezados por uns, mas que representa em variados sentidos, a diferença entre a vida e a morte para outros.


FICHA TÉCNICA

15h17 – Trem Para Paris (Título original: The 15:17 to Paris) – Warner Pictures

Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Dorothy Blyskal / Fotografia: Tom Stern / Trilha Sonora: Christian Jacob, Thomas Newman

Elenco: Spencer Stone, Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Jenna Fischer, Judy Greer, P. J. Byrne, Tony Hale, Thomas Lennon

Gênero: Drama e Suspense / Duração: 1h 36 minutos

Classificação indicativa: 14 anos / País: EUA / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 8 de março de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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