por Conceição Lourenço (*)

Minha família é muito feminina. Mamãe tinha um irmão e uma irmã (tem): 2X1. Papai tinha 6 irmãs e um irmão: 6X2. Mamãe teve 3 filhas. Minha tia, irmã dela, uma filha. Meu tio não teve filhos. Por parte de pai, só vou falar da tia Alice 5X1. De maneira que minha família sempre foi cor-de-rosa.

Perdi meu pai aos 7 anos e aí virou aquela casa só de mulheres: A Casa das Quatro Mulheres. Mas tia Elza (irmã de minha mãe)  sempre estava por lá, com a filha, tornando a casa das 6 mulheres. O machismo imperava nos anos 60. Fomos aprendendo a nos “defender”. Trocávamos lâmpadas, chuveiro, tomadas, nos sustentávamos e pagávamos nossas contas. Aprendemos (aprendi) que podíamos fazer tudo que a gente quisesse e que precisasse fazer.

Eu sempre gostei de futebol. Era delicioso ver papai corintiano (corintiano, mas nascido na cidade de  Santos. Admirava o Santos Futebol Clube – não gostava do Pelé, preferia o Pepe – e apaixonado pelo Timão) com os amigos, em torno do rádio, ouvindo jogo e tomando cerveja. Lúdico, totalmente lúdico. Lá pelos meus 10 anos pirei total com o Corinthians, até porque Rivelinno fazia qualquer mulher gostar de futebol.

Três vezes por semana eu lia o jornal A Gazeta Esportiva e semanalmente a revista Placar. Estava sempre atualizada com futebol. Ouvia os jogos pelo meu radinho de pilha amarelo. Tudo ia bem, mas faltava ir ao estádio ver o Corinthians ao vivo, de perto. Corinthians de verdade.  Sonhava com este momento dia e noite. Mas como? Mulheres não frequentavam estádio ( hoje se chama arena), e ainda mais sozinha?? Eu tinha até medo.

 Foi quando minha irmã mais velha, secretária de uma engenharia, de maneira firme falou: “Marque o dia que eu levo você”. Eita, justo ela que não se envolvia em nada… Mirei o próximo domingo: Corinthians e Portuguesa. Ela me deu o dinheiro. Fui à galeria Prestes Maia e comprei dois ingressos pra Geral.

A ansiedade era total, mas não me lembro dos preparativos desse domingo de agosto de 1972. Só me lembro que em vez de colocar uma camisa do Corinthians  ( eu não tinha, minha mãe só me comprou uma no ano seguinte), vesti uma bata cor de rosa com florzinhas, da outra irmã,  kkkkk.

Tudo era muito difícil. Saímos da Vila Nova Cachoeirinha, até o centro da cidade e de lá voltar  pro Pacaembu em outro ônibus. Na verdade, eu não acreditava que  aquilo estava acontecendo. Ainda não acredito.  Nós duas não tivemos nenhum  problema no estádio… O jogo foi 1X1. Minha irmã deu uma mancada… comemorou os dois gols… kkkkkk, se fosse hoje?!.

Eu fora de mim de tanta emoção. Meus Deus! O primeiro estádio (arena ) a gente nunca esquece… Depois de adulta, sem querer, arrumei um namorado chefe de torcida. Aí, corri São Paulo, corri Brasil, corri mundo. Perdi o medo. Medo? Que medo? Nunca tive medo, sou da casa das 6 mulheres…


 

(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>

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