por Conceição Lourenço (*)

Final dos anos 80, sábado à noite, eu e meu namorado estávamos na fila pra última sessão do Belas Artes. Fila longa na rua da Consolação. Passou um casal, em sentido contrário. A mulher estava meio cambaleando, e notei que ela era bem mais velha que ele. Fiquei curiosa e olhei pra trás.

Ela caminhou mais um pouco e se apoiou no muro. Começou a abaixar e se sentou no chão. O cara ficou de pé olhando. Fui lá saber se precisavam de algo. Cheguei tarde, ela ameaçou falar e ficou débil, quase sem sentidos. Perguntei se eram namorados, ele se apressou em dizer que não. Que haviam se conhecido há uma hora num bar na Paulista. Peguei a bolsa dela.

Nisso chegaram umas pessoas, um rapaz disse que era pastor (Universal do Reino de Deus, era logo ali, onde nos anos 60 era o Teatro Paramount, da Record), e que o ideal era levá-la para a igreja. Os jovens se mobilizaram, a pegaram no colo.

Adeus cinema, chamei o meu namorado, e fomos pra igreja também. Ela foi piorando o nível consciência.  Lá começaram as orações, ela começou a acordar (estava deitada no chão) e pastor em cima dela, no ritual de expulsar demônio (eu respeito, mas…).

Ele colocava as mãos em volta do pescoço dela e a voz dela ficava feia, rouca. E ele alardeava: “Vejam é a voz dele ( do demônio)”, enfim…

Abri a bolsa dela. E tinha muito dinheiro. Dólares amarrado no elástico, passaporte, brasileira, mas voltou pro Brasil naquela manhã, e muito remédio. Pensei: bar+remédio. “Pastor, vou levá-la para o Pronto Socorro da Santa Casa (bem pertinho)”, ele não gostou, gostou menos ainda quando eu disse: “ O senhor vai junto”. Vai da mulher morrer, maior confusão pro meu lado. Todo mundo pro Chevette: Deitei o banco do passageiro e a coloquei, meu companheiro no volante, e atrás: eu, o pastor e o “namoradinho”, apertadinhos.

Santa Casa, 10 da noite, sábado. Como ela estava desmaiada, atendimento super rápido….blá blá, blá a médica me chamou com cara feia e: “Pode levar sua amiga embora, estava entrando em coma alcoólica, mais um pouco, não sei não, apliquei glicose e está tudo bem. “Vocês” precisam beber menos”.

Fui no box, falei pra ela que estava com a bolsa, que não mexi em nada. Ela me agarrou e chorava muito, muito. Chamei o namoradinho, agradeci e dei alta pro pastor, ela prometeu voltar à igreja. Me ofereci para levá-la em casa.  O namoradinho foi embora com o pastor.

Fomos pra casa dela, na praça Buenos Aires. UAU! A doença dela era CULPA. Uma mulher profissionalmente muito bem sucedida. Enfermeira-padrão da oncologia do hospital particular mais badalado da cidade.  E, na semana anterior, recebeu a notícia que o pai estava com câncer-terminal em Portugal, correu, mas só chegou pro velório… Chorou novamente por não poder ter ajudado o pai.

Ela ficou muito grata a nós, lembro-me perfeitamente do nome e sobrenome, e apelido dela, e espero que esteja feliz naquele apartamentão bacana pra caramba…


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>


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