por Conceição Lourenço (*)

Dia desses não passei bem. De repente uma dorzinha me incomodando bem aqui embaixo, na região pélvica. Achei que ia passar, mas que nada. Durante a noite piorou. Nem dormi direito.

No dia seguinte, logo cedo, eu teria de acompanhar uma banca numa faculdade de Jornalismo. O tema do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) era sobre Comunidades Quilombolas e durante uns meses acompanhei os alunos, por conhecer um pouco do assunto.

Só que não estava bem. Me entupi de analgésicos e  fui para a faculdade, na Av. Paulista, no sacrifício, a dor aumentou bem. Saí de lá, e fui direto pro médico, na Vila Mariana. Meu médico (ginecologista),  estava de licença médica (havia enfartado) então passei pelo primeiro médico disponível no Pronto Socorro.

O ambulatório estava sem sistema e o médico, calmo, displicente, foi buscar minha ficha… e entrou na sala de volta com a papeleta na mão, e cantando: “Conceição, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar…”.

Dei uma risadinha amarela, pois estava com muita dor. Sentou na minha frente, leu, leu, olhou bem pra mim e me perguntou: “Conceição, o que está acontecendo com o Cauby? (Na época, Cauby estava bem vivo) Ele está estranho… parece uma mulher. Você não acha?”, eita, respondi: “Tá meio andrógino, né, doutor?”. Ele não se contentou: “Tá esquisito mesmo, aquele cabelo, mas como canta bem, hein?”.

E não parava de falar: “Quando eu era criança, meus pais ouviam muito ele. Eu quase fui cantor. Gostava também de Altemar Dutra… Meu pai também cantava muito bem…”. Me distraí e entrei na onda: “Sentimental eu sou, eu sou demais…”. Cantarolamos juntos e começamos a rir. E ele foi citando Nelson Gonçalves… falei que Nelson era gago como eu. Ele riu muito.

Quando dei por mim, a dor havia passado totalmente. Pode uma coisa dessas? Mas nos demos conta de onde estávamos e do que eu fui fazer lá. Entramos no assunto, me fez várias perguntas. Me examinou. E me receitou 2 remedinhos geniais que tomei por uns 5 anos.

A descontração salva. Meu vizinho de apartamento, rapaz novo, talvez uns 40 anos, teve um AVC e perdeu a fala. É muito triste. Está abatido, cabisbaixo e a gente se conversa por mímica. Sempre temos de nos falar, nossa garagem é casada.

Nem um “bom dia”, “boa tarde” ele consegue falar. Notei que os som voltou, mas ainda não articula palavras. Não é que dia desses, dia seguinte a uma bela exibição da Seleção Brasileira, nos encontramos no elevador e ele queria comentar o jogo.

Eu não entendia nada, me esforçava. Ele estava empolgado com o futebol e quando comentava os lances soltava uns palavrões: “pqp”, por exemplo. Só que o palavrão sai direitinho com todas as letras. Comecei a rir, emocionada, e perguntei a ele se ele percebia isso, perguntei também se ele já havia relatado o fato ao médico ( à fonoaudióloga). Ele também se emocionou, e balançou a cabeça que sim. A descontração salva, com certeza!

Durante um bom tempo continuei me tratando com o médico-cantor, Roberto Kanashiro


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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