por Aguinaldo Gabarrão (*)

O cineasta mexicano Guillermo del Toro, tornou-se mundialmente conhecido ao dirigir o ótimo “O Labirinto do Fauno” em 2006, embora sua produção já revelasse as qualidades de diretor e produtor em Cronos (1993). Em ambos os filmes, a fantasia e a realidade mesclam-se e confundem-se, criando um mundo particular e mágico para suas personagens deslocadas do meio social em que vivem. Com “A forma da Água” del Toro renova essa fórmula, elevando-a a patamares de poesia.

O roteiro escrito por Vanessa Taylor e Guillermo Del Toro situa-se na década de 60 e conta a vida metódica de Elisa, uma simples funcionária da limpeza num grande laboratório de experimentos secretos. Ela tem contato com uma estranha criatura que causará uma mudança completa em sua vida.

“O tempo é um rio fluindo” ===  As referências ao elemento água estão fortemente presentes na história, não apenas por ser o habitat natural da criatura, mas porque se relaciona ao inconsciente da protagonista Elisa, fio condutor da trama. Suas reações melancólicas ao longo da história transmitem a sensação de não pertencimento àquele ambiente e vida.

Ela, sendo muda, se comunica com o mundo por meio de gestos e é exatamente essa limitação que serve para aproximá-la daquele anfíbio com características humanas. Ambos são diferentes, estão deslocados no meio em que estão e são feios para os padrões canhestros do mundo. E essas aparentes distinções são elementos de atração mútua.

A diferença que incomoda ===  Há outras sequencias que exploram um pouco mais a questão das diferenças e preconceitos, ao apresentar um casal de negros, obrigados a retirar-se de um bar, pela intolerância de um funcionário, que também demonstra sua repulsa ao descobrir que seu cliente mais assíduo é gay.

É a mão do diretor no roteiro, que também em sua infância sofreu bullying por ser magro, loiro e muito branco, diferentemente de seus demais colegas de escola.  Não bastasse isso, também sofreu crueldades da avó, católica fanática que vivia exorcizando-o.

O grande homenageado: o cinema ===  Outra qualidade da cuidadosa produção está no uso da metalinguagem (usar a própria linguagem para falar de si mesma) com referências a sétima arte. A protagonista e seu amigo Giles, moram num prédio onde há um enorme cinema decadente, clara alusão ao glamour da época de ouro, do qual pouco restou a partir da ascensão da televisão e da migração do público feminino para o mercado de trabalho, provocando queda na arrecadação das sessões de matinê mundo afora.

Essa situação fica ainda mais evidenciada ao apresentar cenas em que a televisão, absolutamente integrada ao cotidiano das pessoas, exibe seriados e filmes, onde temos a oportunidade de rever momentos antológicos com a “pequena notável” Carmen Miranda e da atriz Shirley Temple, ecos de um passado cinematográfico que não volta mais.

A cor predominante: o verde === A fotografia de Dan Laustsen segue à risca a concepção estética do diretor, pontuando na iluminação e na palheta de cores o predomínio das tonalidades do verde, referência a natureza, associada à renovação de Elisa e a plenitude que atingirá sua vida.

A cenografia igualmente dialoga com a atmosfera ora realista e, muitas vezes, fantástica e aterrorizante do laboratório de experiências, remontando aos velhos filmes com seus cenários lúgubres.

Três atores em sintonia fina === A composição de Elise coube a atriz Sally Hawkins (Blue Jasmine). A atriz constrói o universo particular da personagem, por meio de sutil expressão corporal, mas reveladora das motivações mais íntimas da jovem funcionária. Por sua atuação Sally foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz.

Sua parceira de cena, Octavia Spencer, é a impagável Zelda, que arranca gargalhadas do público em diversos momentos. Fecha o trio Richard Jenkins, que interpreta Giles, ilustrador e contumaz devorador de tortas doces.

O filme “A Forma da Água” é a defesa da diversidade em suas expressões mais variadas, talvez uma maneira de dizer que esse nosso velho mundo possa se tornar um lugar melhor sendo menos uniforme e padronizado.


Assista ao trailer do filme:   https://bit.ly/2E9DAp3


FICHA TÉCNICA

A forma da Água (Título original – The Shape of Water) – Fox Filmes do Brasil

Direção: Guillermo del Toro / Roteiro: Vanessa Taylor e Guillermo del Toro / Fotografia: Dan Laustsen / Elenco:  Sally Hawkins, Octavia Spencer, Richard Jenkins e Michael Shannon

Gênero: drama / Duração: 123 minutos

Classificação indicativa: 16 anos / País: EUA / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 01 de Fevereiro de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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