por Aguinaldo Gabarrão (*)

       Desenho/caricatura:Baptistão

Um senhor paulistano chamado João Rubinato (1910-1982), emprestou o nome e sobrenome de outras personalidades de seu tempo e criou a persona Adoniran Barbosa. Com o passar dos anos, ele acrescentou ao seu visual, um chapeuzinho e uma gravata borboleta. A voz rouca, por conta do castigo sofrido com o vício do cigarro, completava essa figura paulistana.

Hoje, após 25 anos de sua morte, sua história e obra são revisitadas no documentário Adoniran – Meu nome é João Rubinato.

“Fui encanador… tanta coisa… mas eu queria fazer samba!” ===  O documentário dirigido e roteirizado por  Pedro Serrano, é resultado do curta “Dá Licença de Contar”, baseado nas músicas de Adoniran Barbosa e ganhador, entre outros, de dois prêmios em 2015 na 43ª edição do Festival de Gramado: Melhor Curta Metragem (prêmio da crítica) e Prêmio Canal Brasil de Curtas.

Embalado por esse resultado, Serrano realizou um filme alicerçado em deliciosas entrevistas com amigos, familiares, profissionais que conviveram com o sambista, e de conversas de Adoniram concedidas em programas de televisão. Fica claro que sua trajetória foi de muita luta e nenhum glamour.

Muitos talentos ===  O roteiro de Pedro Serrano, traz um mosaico abrangente dos muitos “Rubinatos” e “Adonirans”: o operário e artista; o ator de radio novela, de cinema e televisão; o cantor e comediante de rádio.

O sambista e letrista, forjado na dicotomia entre a necessidade de sobrevivência física e, artística, transformaria suas múltiplas vivências na matéria prima de suas composições.

Outro aspecto interessante do roteiro é apresentar as mudanças espaciais da cidade, relacionadas aos locais onde o sambista compôs suas músicas e conviveu com amigos. Mais do que mero registro nostálgico da cidade que não existe mais, é a reafirmação irônica da própria frase de Adoniran, quando perguntado sobre o que achava da cidade de São Paulo: “… um inferno que anda”.

Alegre e melancólico ===  A montagem de Christian Grinstein, Gabriel Peixoto e do próprio diretor, é adequada ao desconstruir a ideia de um Adoniran exclusivamente “figuraça”, irreverente e, por vezes, irônico.

Paulatinamente, os depoimentos dão pistas de um artista que usava do humor para esconder a sua própria tristeza, e ganham contornos dramáticos na medida em que seu trabalho não era mais requisitado. “Não tocam as minhas músicas. Cometi algum crime?”, teria dito num desabafo.

O cômico e o trágico ===  Na contracapa do seu primeiro LP (Long Play – disco de vinil) de 1974, o sociólogo e professor da USP Antonio Candido (1918 – 2017) escreveu sobre o artista: (…) Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as Cantinas do Bexiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará, misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também “intacta, boiando no ar.”

Cronista de seu tempo, Adoniran conseguiu com rara sensibilidade converter situações prosaicas e, muitas vezes trágicas, em canções bem humoradas e recheadas de um palavreado típico e melódico do povo simples, elevado, em seus sambas, à categoria de protagonistas.

O documentário Adoniran – Meu nome é João Rubinato faz justiça também ao Grupo Demônios da Garoa, parceiro na releitura de diversas composições de Barbosa, ao colocar boas doses de malandragem, boemia e humor a músicas como “Iracema”, “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto” e “Trem das Onze”, sem perder o tom trágico que o olhar de Adoniran capturou para a posteridade.

Site do Festival: clique aqui

FICHA TÉCNICA

ADONIRAN – MEU NOME É JOÃO RUBINATO / Distribuição: Pandora Filmes – Divulgação: Sinny Assessoria/SP

Direção e Roteiro: Pedro Serrano / Produção: Cao Quintas, Cassio Pardini, Pedro Serrano, Frederico Lapenda / Pesquisa: Pedro Serrano e Christian Grinstein / Fotografia: David Rossetto e Pedro Serrano / Montagem: Christian Grinstein, Gabriel Peixoto, Pedro Serrano / Desenho de Som: Danilo Chen / Música Original: Arthur Decloedt / Trilha Sonora: Rafael Benvenuti / Produção Executiva: Jacqueline Manzini / Produtora: Latina Estúdio / Co-produção: Canal Brasil


  • Gênero: Documentário / Duração: 1 hora e 32 minutos
  • Classificação indicativa: livre / País: Brasil / Ano de Produção: 2018
  • Lançamento: 23º “É Tudo Verdade” – Festival Internacional de Documentários
  • Datas de exibição durante o Festival:
  • CCSP (Centro Cultural São Paulo) – dia 19/04 – 17h
  • Sesc 24 de Maio – dia 22/04  – 11h

SINOPSE ===  A vida e a obra de Adoniran Barbosa (1910-1982), o maior nome do samba paulista, autor de sucessos como “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca”. Por meio do acervo pessoal do artista, imagens de arquivo raras e depoimentos de amigos e familiares, descobrimos um personagem multifacetado, que retratou a sua São Paulo em canções e personagens de rádio. Tendo a cidade como coadjuvante, o documentário traça um paralelo entre a metrópole de hoje e aquela vivida por Adoniran. Numa jornada por seu universo criativo, cheio de controvérsias alimentadas por ele mesmo, revela-se, por trás da figura pitoresca e de fala engraçada, um artista profundamente sensível às mazelas do povo.


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


 

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