por Conceição Lourenço (*)

Gosto muito de música. Não tenho um ritmo preferido, gosto de música boa. Claro que me rendo pela nossa, a música brasileira, com todas suas misturas. Na minha opinião, temos uma particularidade: lindas letras com lindas e ricas poesias.

Acho que em outros países ninguém saberia escrever a singeleza de uma Carinhoso (Braguinha); ou Detalhes (Roberto); ou Anos Dourados (Chico), ou O Mundo é um Moinho (Cartola), aliás Cartola é realmente  Mestre Cartola. Temos letristas maravilhosos. Gente que só se dedica às letras. Tenho três preferidos: Aldir Blanc, Hermínio Bello de Carvalho e um terceiro que não merece ser citado kkkkk.

Mas quero falar do Hermínio. Ele é autor da letra do meu samba favorito dentre todos os sambas, Pressentimento (“Ai, ardido peito, quem irá entender os teus segredos? Quem irá pousar em teu destino? E depois morrer de teu amor? Ai, mas quem virá? Me pergunto a toda hora, e a resposta é o silêncio, que atravessa a madrugada. Vem meu novo amor, vou deixar a casa aberta, já escuto os teus passos), com melodia de Elton Medeiros.

Hermínio descobriu Clementina de Jesus. Hermínio ressuscitou Alaíde Costa. Hermínio tem currículo musical invejável e eu sou uma grande fã. Só o conhecia pela TV, até que nos anos 80 (eu recém formada), vi um anúncio no jornal de um curso de Programador de Rádio, aprender a escolher as músicas que vão tocar. Curso para Disc jockey, sim hoje se chama DJ (dijey). O curso era de uma semana, na Oficina Cultural Três Rios e etc, etc.

Me inscrevi, pois adoro música e os palestrantes eram dentre outros Zuza Homem de Mello e Hermínio Bello de Carvalho. Vamos lá, o curso foi legalzinho, mas no dia do Hermínio fui a rainha das perguntas, fã profissional.

No final da palestra fui falar com ele, as dúvidas não acabavam. Ele disse: “Você vai no lançamento do meu livro semana que vem, né?”. Uau, ele escrevera um livro sobre o maestro e compositor Villa-Lobos: O Canto do Pajé.

Passei a semana agitada, ansiosa para vê-lo novamente, comprar e ler o livro, afinal de música ele sabe tudo. O lançamento foi no Vou Vivendo, um bar da Vila Madalena, muito badalado, na época. Chamei uma amiga pra ir comigo, Regina. O evento começava às 21 horas. Pois as 21 horas estávamos lá.

O bar tinha dois andares. O lançamento era no mezanino. A Rê falou: “Concon, você está muito nervosa. Vamos tomar um vinho aqui no térreo. Depois a gente sobe”, assim foi… Ficamos bebendo, conversando e vendo muita gente famosa passando. Até que resolvi que estava pronta pra subir.

Aquela escadinha espiral era difícil, mas subimos, compramos o livro e ficamos na fila. Ele estava lá, lindo, com aquele cabelo branco fantástico, tomando uísque, de camisa de cetim verde-cana , distribuindo os autógrafos.  E eu, depois de 3 taças de vinho, diante do grande ídolo.

Chegou minha vez, tentei fazer ele se lembrar de mim, mas que nada. Já havia um papelzinho com meu nome no livro, fez a dedicatória. Ele sentado, eu de pé, me abaixei para beijá-lo. Minha bolsa que estava pendurada em meu ombro, caiu e varreu a mesa. A primeira coisa foi o copo de uísque cheio de gelo que caiu em cima dele. Molhou e manchou toda a camisa e todos os livros. Eu congelei, o dono do bar correu para enxugar tudo e gritava: é sorte, é sorte… Acho que nunca mais Hermínio Bello de  Carvalho vai querer me ver… mas eu continuo muito fã, muito fã!


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


Nota da Redação: As opiniões publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. Os comentários nele emitidos não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

aniversario bergamini

1 COMENTÁRIO

  1. Vc escreve muito bem! Detalhou com perfeição a cena da bolsa saindo do seu ombro e derrubando o copo de wisk e varrendo a mesa rss. É impossível não se sentir dentro da cena, nos seus relatos. Parabéns “Concon” vc é 10!

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