por Aguinaldo Gabarrão (*)

=== Um grupo de jovens conversa e pinta quadros. Perto dali, o professor, homem de meia idade, resolve promover uma brincadeira, rolando com o próprio corpo, de um pequeno monte. Ele utiliza duas muletas, porque não tem um braço e uma perna. É o renomado pintor vanguardista Wladislaw Strzeminski (1893-1952), numa de suas conhecidas aulas ao ar livre que compunham seu revolucionário programa artístico.

A simplicidade e delicadeza dessas imagens, dirigidas pelo diretor polonês Andrzej Wajda (1926-2016), contrastam poderosamente com a cena seguinte: o pintor, em seu quarto alugado que serve de ateliê, tenta lançar as primeiras pinceladas na tela branca; porém, é impedido por um gigantesco painel vermelho com o rosto do ditador Stálin, colocado na fachada do prédio e que prejudica a entrada da luz, escurecendo a tela do pintor. Ele reage, e, com a própria muleta, rasga um pedaço do painel. A reação da polícia é imediata e Wladislaw sofre o revide do regime polonês, agora alinhado com Moscou. É 1948.

A partir daí a competência do diretor Andrzej Wajda – morto antes de o filme estrear – revela toda a potência combativa de um dos maiores artistas do século XX, que não se dobrou às muitas formas arbitrárias e de dominação que um Estado totalitário pode infringir a um ser humano e, em especial, a um artista.

Biografias que se cruzam

Impressiona identificar pontos convergentes da trajetória do diretor com o artista retratado em seu filme. Assim como o pintor, Wajda também sofreu com regimes de exceção: perdeu o pai, oficial do exército polonês, morto em 1940 por ocasião da ocupação soviética. Foi perseguido na Polônia pelo governo ditatorial do general Wojciech Jaruzekski, o mesmo militar que tentaria destruir Lech Wałęsa e seu sindicato Solidariedade. Em 1981, o cineasta ganhou a Palma de Ouro em Cannes com o filme “O Homem de Ferro”, o que o ajudou a livrá-lo da cadeia, mas acabou sendo obrigado a viver e filmar no exterior, só retornando à pátria em 1989, com a queda do muro de Berlim e o consequente desmoronamento da União Soviética.

Por sua vez, o pintor Strzeminski sofreu censuras e proibições, teve várias obras destruídas, foi expulso da escola onde lecionava e teve seu registro como artista anulado. Todo esse estado de coisas, que levaria o filme para um tom sombrio e desesperador, nas mãos de Andrzej Wajda soam como um exercício para a liberdade de pensamento. A cada embate sofrido pelo pintor, sobressai a figura do homem à frente do seu tempo, na luta incessante pela sobrevivência humana e artística. Não é um herói, ele é feito de carne e osso, mas nenhum burocrata de partido consegue colocar-lhe peias.

A teoria da visão

Ousado e moderno, Strzeminski acreditava que “… os artistas podem influenciar os espectadores artísticos e sua percepção, ao construírem regras histórico-artísticas de visão e construção de imagens.” Diria ainda: “… cada significado, cada compreensão diferente do mundo em geral precisa de uma forma única e característica…”. Sua teoria da visão desenvolvida a partir da observação de fenômenos fisiológicos visuais era uma afronta ao pensamento do realismo socialista, estilo artístico oficial da antiga União Soviética, que estabeleceu sua estética para todos os segmentos artísticos com objetivo de divulgação e exaltação do comunismo de inspiração stalinista.

O roteiro escrito por Andrzej Mularczyk fixa os últimos anos de vida do pintor, especialmente quando ele está na companhia de sua filha, fruto do relacionamento com Katarzyna Kobro, arquiteta a quem conhecera em 1916, após ter sido ferido gravemente na guerra. No enredo, a relação distanciada com a filha apresenta outros aspectos, como a crescente influência da ideologia soviética na vida escolar, ao mostrar a menina decorando um poema em homenagem a Stálin, o que provoca no pai a certeza do quanto essas ideias estavam impregnadas na sociedade polonesa.

“Na arte e no amor você só dá o que tem”

O ator Boguslaw Linda interpreta Strzeminski com brilho incomum. Suas emoções contidas e interiorizadas preenchem a tela com força avassaladora. Ele já havia trabalhado com o diretor Wajda nos filmes “O Homem de Ferro” (1981) e “Danton – O Processo da Revolução” (1982).

O filme Afterimage (imagem residual) foi o último trabalho do diretor Andrzej Wajda, que recebeu em 2000 um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra. Em uma de suas últimas aparições públicas, declarou: “… Com este filme, queria alertar para o perigo de qualquer intervenção do Estado nos assuntos da arte”.

Seu filme vai muito além dessa mensagem e coroa com dignidade a trajetória de um diretor de cinema e teatro que soube lutar pelo direito de expressar seu pensamento de forma livre e independente.

Assista o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=pRKUxnE9_cw

FICHA TÉCNICA

Afterimage – Direção:  Andrzej Wajda / Roteiro: Andrzej Mularczyk

Elenco: Boguslaw Linda, Zofia Wichlacz, Bronisława Zamachowsk, Krzysztof Pieczynski, Aleksandra Justa, Szymon Bobrowski, Mariusz Bonaszewski

Fotografia: Paweł Edelman / Gênero: drama – Duração: 98 minutos

Classificação indicativa: 12 anos – País: Polônia – Ano de Produção: 2016

SERVIÇO

Onde:  Itaú Cinemas – Shopping Frei Caneca (Sala 07)

Rua Frei Caneca, 569 – Consolação

Sessões: 16h00 / 22h00

Capacidade: 99 lugares (2 cadeirantes + 1 obeso)

Clientes Itaú com cartão Itaucard (50% de desconto no seu ingresso). Clientes Itaú Personnalité (50% de desconto no seu ingresso e acompanhante).

 

Reserva Cultural – Avenida Paulista, 900 – Bela Vista – São Paulo

Sala 4: 15h40 / 17h40 / 19h40

Em todas as salas o filme é legendado. Confirme o horário.


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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