por Aguinaldo Gabarrão (*)

Quando Lewis Carroll  (1832-1898) atendeu ao pedido da pequena Alice e decidiu escrever Alice no país das maravilhas, jamais pôde conceber o sucesso e a consagração de seu livro desde a sua publicação em 1865. O livro ganhou releituras psicanalíticas no século XX e chegou ao cinema, sendo a versão de Walt Disney a mais conhecida e, no século XXI, sua querida protagonista torna-se uma jovem no olhar inventivo do cineasta Tim Burton. Aparentemente dirigido ao público infantil, Lewis aproveitou-se do universo simbólico e surreal para criar uma galeria de personagens estranhos e absolutamente fascinantes. E essa foi a base de pesquisa para o espetáculo ALICE ¼, a primeira montagem do coletivo CENA 5, que reestreou em temporada na Sala Multiuso do Teatro Arthur Azevedo.

Na dramaturgia não linear desenvolvida pelo coletivo, Alice é uma figura andrógina, mora num quarto de prostíbulo onde vende favores sexuais e o seu “elixir” para viciados. Numa madrugada é morta e um investigador busca o assassino confrontando os depoimentos dos três principais suspeitos: o virgem, o moralista e a noiva. O final é inusitado.

“Relaxa coelho” ==  Um dos atrativos dessa montagem é transferir ao público a forma como a história será contada naquela sessão. À frente da platéia ficam placas numeradas de 1 a 5, que representam as diversas cenas em que a peça está dividida. O elenco durante a encenação convida os espectadores a escolherem a cena por meio de sorteio e acompanhar as investigações onde cada suspeito esteve no quarto de Alice na fatídica madrugada. Assim, a cada apresentação, a história tem um andamento diferente.

O ambiente de boate brega e decadente está bem demarcado na cenografia. Um cubo estrutural de LED contínuo na parte superior e na base, além do piso branco que lembra um tabuleiro, espaço principal onde ocorre boa parte do espetáculo. A sensação é de uma caixa que retêm a atmosfera do mundo pessoal de Alice.

“Vou te levar ao país das maravilhas” ==  As coxias (lugar fora da cena) não têm delimitação física, os atores estabelecem esse espaço de acordo com a movimentação e a relação entre as personagens.  Nas laterais próximas ao público, dois praticáveis são usados para os depoimentos. Posicionado numa extremidade um músico utiliza o teclado e executa a trilha sonora ao vivo. A luz recortada e difusa realça o estilo visual de filme noir e destaca momentos de tensão a ponto de lembrar cenas de filmes do cineasta Quentin Tarantino, outra referência nas pesquisas dramatúrgicas do coletivo.

A maquiagem por sua vez, marca o viés não realista: reforça com cores fortes o olhar dos atores e, por conseguinte, amplia o impacto do que se passa interiormente com cada personagem.

“Caiu no buraco e podia ser quem quisesse” == A direção de Gira de Oliveira constrói cada cena até o ponto de tensão e dramaticidade para em seguida provocar rupturas, intencionalmente, por meio de recursos como interrupção de cenas que sugerem ao público que tudo não passa de uma peça de teatro, além de músicas bregas muito bem coreografadas. Ao amenizar o tom forte de algumas cenas, não deixa de apontar com deboche o ridículo da perseguição sofrida pela protagonista, numa clara alusão à sexualidade reprimida daqueles que perseguem no outro o que não aceitam em si mesmos.

Mas o mesmo cuidado não se percebe em alguns momentos onde o excessivo gestual cotidiano dos atores polui cenas e interfere no desenho não realista que se apresenta durante a encenação. E esse aspecto, vez ou outra, gera desigualdade na interpretação do elenco.

Quem é Alice? == Cabe ressaltar as boas composições físicas e psicológicas elaboradas pelos atores e, em especial da excêntrica e catalisadora Alice. O intérprete consegue o tom adequado para extrair o riso de situações trágicas e imprime uma aura de mistério em torno dessa figura, espécie de esfinge a perguntar: decifrem os meus segredos.

O espetáculo Alice ¼ propõe a discussão sobre as misérias de um Brasil que mata seres humanos por não se enquadrarem sexualmente ao que é considerado padrão de normalidade. É um espetáculo contundente e tragicamente divertido. É teatro como tem que ser: espelho do seu tempo.

Assista ao teaser do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=Q98Wv9kHuyo&feature=youtu.be

Ficha Técnica:

Elenco: André do Amaral (O Virgem), Lídia Oliveira (A Noiva), Márcio Borges (O Investigador), Paolo Suhadolnik (Alice) e Thiago Gomes (O Moralista).

Dramaturgia: o coletivo

Preparação Musical e Músico de Cena: Alexandre Guilherme.

Cenários, Figurinos e Maquiagem: Cena 5

Desenho da luz: Fabio Caniatto e Gira de Oliveira

Direção Geral: Gira de Oliveira.

 SERVIÇO: 

ALICE ¼

Onde: Teatro Arthur Azevedo – SALA MULTIUSO

Av. Paes de Barros, 955 – Mooca, São Paulo – SP – Telefone: (11) 2605-8007

Quando: temporada: 14 de julho a 27 de Agosto

Horários: Sextas e Sábados (21h) e Domingos (19h)

Duração: 75 minutos

Classificação indicativa: 12 anos

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) / R$ 10,00 (meia)

A bilheteria não aceita cartões de débito e crédito. Somente em dinheiro.

Estacionamento: gratuito no próprio teatro, sujeito a lotação.


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 


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