por Aguinado Gabarrão (*)

“Tive mais de cem fracassos. E, para mim, não tem a mínima importância. Para um artista, o fracasso e o sucesso são iguais. Os dois são impostores.”

Essa frase, dita pelo diretor e ator Antônio Abujamra, ilustra muito bem o espírito combativo e irrequieto que norteou sua existência, deixando sua marca na TV, cinema e principalmente no teatro brasileiro. Ele morreu aos 82 anos no dia 28 de abril de 2015, em sua residência, enquanto dormia.

Falar de maneira completa sobre a produção artística de “Abu” não é objetivo desta matéria, mas apenas apresentar um recorte específico de alguns períodos de sua bem sucedida carreira, a despeito dos “… mais de cem fracassos” alardeados por ele em diversas entrevistas.

Nos últimos 14 anos ele apresentou o programa “Provocações” na TV Cultura, no qual entrevistava desde anônimos até as chamadas “estrelas”, algumas delas eclipsadas pelas perguntas desconcertantes e algumas vezes ferinas, disparadas de maneira meiga pelo provocador.

Apesar da sólida carreira construída no teatro e na TV, ele se tornaria conhecido do grande público ao interpretar o bruxo Ravengar na novela “Que rei sou eu”, de 1989.  A respeito da repercussão desse trabalho, diria mais tarde: “… Foi um sucesso extravagante! Até hoje o Ravengar passeia pelas ruas. Não tem explicação.”

Essa conclusão bem humorada vinha por conta da popularidade que a televisão trouxera e que, por vezes, rendia situações curiosas como a que ocorreu nos anos 90, quando Abujamra levou para algumas casas de cultura da periferia de São Paulo o seu espetáculo solo “O Contrabaixo”. Num desses locais havia um cartaz de divulgação, com a seguinte chamada, escrita à mão: “O Contrabaixo – peça com o Ravengar!”. A reação do ator veio num comentário lacônico: – “puta que pariu!”.

“Nada é fácil ao fazer teatro”

Nascido em 15 de setembro de 1932, na cidade de Ourinhos, interior do estado de São Paulo, Abujamra estuda jornalismo e filosofia na PUC do Rio Grande do Sul. E, em fins dos anos 50, viaja para a Europa como bolsista para um curso de língua e literatura espanholas, em Madri. Realiza estágios em Berlim no Berliner Ensemble, do surpreendente diretor e dramaturgo teatral Bertold Brecht (1898-1956), e em Paris, com os diretores Jean Villar (1912-1971) e Roger Planchon (1931-2009). Em Marselha, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que ocupava função diplomática e o acolhera em sua residência.

Esse encontro com o poeta e sua obra também marcaria profundamente o trabalho artístico de Abujamra, que considerava a poesia de João Cabral concisa, seca, cerebral e de construção altamente elaborada, o que norteou, juntamente com as teorias de Brecht, a linha de trabalho na orientação de seus atores para o mesmo exercício de concisão, economia de gestos e profunda observação de si mesmo e do “movimento do mundo”, como gostava de dizer a todos que trabalhavam sob sua batuta.

 “A tranquilidade é trágica: nunca esteja tranquilo… Nunca!”

Em 1961, “Abu” retorna ao Brasil; às experiências na Europa, associa seu espírito observador, que ajuda a forjar o estilo absolutamente inovador e autoral na direção de 22 espetáculos somente na década de 60. Funda em 1963 o grupo Decisão, juntamente com Antônio Ghigonetto, Wolney de Assis, Berta Zemel, Emilio di Biasi e Lauro César Muniz. O repertório de conteúdo político e discussão da realidade social eram apresentados em bairros periféricos da cidade de São Paulo, de acordo com os postulados do teatro de Brecht, de profundo sentido revolucionário, que o jovem diretor ajudou a introduzir no Brasil.

Igualmente na dramaturgia, a contribuição de Abujamra se revela na habilidade de reelaborar o texto para a encenação e também no uso da intertextualidade (inserção de trechos de outras obras, poéticas ou não, mas que dialogam com o texto original da peça de teatro), possibilitando a ampliação do horizonte de leitura, uma vez que dois textos distintos são colocados em oposição e geram, a partir disso, uma nova interpretação. Essa técnica Abujamra provavelmente absorveu quando estagiou com Roger Planchon em Paris.

Outro aspecto importante em sua trajetória foi a capacidade aglutinadora, aliada ao seu jeito “morde e assopra”, ao trazer para o palco, sob sua direção, atores de variadas escolas de interpretação ao longo de sua extensa carreira.

Um desses exemplos foi sua adaptação e direção do espetáculo “O Inspetor Geral”, grandiosa produção de 1994 que abriu uma nova fase para o Teatro Popular do SESI, e reuniu a velha guarda do Teatro Oficina, o talento do cenógrafo Túlio Costa, do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), o visagismo do pós-moderno Domingos Fuschini e tantos outros jovens artistas integrados na proposta cênica de Abujamra, conforme lembra a crítica e ensaísta Maria Lucia Pereira (1949-2001).

“Eu faço porque viver deve ser fazer, né?                                                                    

Os prêmios em reconhecimento a sua importante contribuição para as artes viriam ao longo das décadas, dos quais se destacam: dois prêmios Molière na categoria direção, por Roda Cor de Roda e Um Certo Hamlet; melhor ator no monólogo O Contrabaixo; prêmio Shell de melhor direção do espetáculo O Casamento; troféu Kikito no Festival de Gramado de melhor ator pelo filme “Festa”, de Ugo Giorgetti; Troféu APCA de melhor ator de TV pelo papel de “Ravengar”, na telenovela Que Rei Sou Eu? e Prêmio Lifetime Achievement, como diretor, no XI Festival Internacional de Teatro Hispânico em Miami.

“Eu quero ser o rei da incoerência!”

O crítico Mcksen Luiz assim o define ao comentar a montagem de “Um Certo Hamlet: “(…) Antônio Abujamra faz questão de chocar, de provocar reações pelo exagero. Não tem qualquer pudor em ser vulgar até o limite da banalidade. O deboche é alçado como linguagem, o que em mãos menos experientes poderia redundar apenas em gratuidade e agressão (…)”.

“A vida é sua, estrague-a como quiser”.

Talvez esta frase seja a mais importante dita e repetida ao longo dos anos por Antônio Abujamra àqueles que tiveram contato com o velho mestre. É a liberdade da escolha de fazer ou sonhar. E sonho era uma palavra que ele abominava.

Em que pese a imagem veiculada de provocador, cáustico e frasista implacável, sua generosidade é reconhecida por muitos dos profissionais que tiveram o privilégio de trabalhar com o “bruxo”. Abujamra orientou e formou muitas cabeças que hoje fazem “sucesso” ou “fracassam” com dignidade nos mais variados segmentos artísticos e que reconhecem publicamente sua importância como artista e ser humano.

E, se ele pudesse ler essa matéria, talvez dissesse ao final, entre um levantar de sobrancelha e um gesto melodramático: – “Me deixa! Vai estudar Shakespeare!!!”

Assista ao vídeo de Antônio Abujamra interpretando o texto “Se os tubarões fossem homens”, de Bertold Brecht. Clique: http://bit.ly/2qgHpor

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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