da Redação DiárioZonaNorte === 

Depois de quase um século, a  Zona Cerealista deve  deixar a região central de São Paulo.  E não vai demorar. O processo já está em andamento e passou despercebido, por integrar o  edital que trata sobre a transferência do CEASA, hoje na Vila Leopoldina, para uma área próxima do Rodoanel Mário Covas.  De acordo com o edital, CEASA e Zona Cerealista, vão funcionar no mesmo território.

O começo === A Zona Cerealista compreende a Rua  Santa Rosa, Avenida Mercúrio, Rua da Alfândega e  Rua Benjamim de Oliveira e sua origem data da década de 1920, com o  “mercado aberto de trigo e outros alimentos como batata, cebola e arroz” . O local foi uma escolha natural, pois  os trens de carga, que transportavam o café entre Santos e Jundiaí traziam estes alimentos e paravam na Estação do Pari, dando a oportunidade dos carregadores negociarem de dentro dos vagões do trem, aos gritos. Com o crescimento da cidade e do volume de produtos – esses alimentos passaram a ser estocados nas redondezas da estação de trem,  o que deu origem aos famosos armazéns da Rua Santa Rosa e da Rua Paula Souza.

Estrada de Ferro Santos-Jundiaí === Os comerciantes aguardavam a chegada dos vagões da antiga Santos-Jundiaí, na Estação do Pari e faziam de 30 a 40 viagens por dia, com carroças puxadas por burros, até descarregar os alimentos nos armazéns.  Outros comerciantes, de menor poder aquisitivo, compravam esses alimentos em menor quantidade na Rua Santa Rosa e os revendiam em feiras nos outros bairros da cidade,  até por volta das 13 horas.  Depois disso, iam para a Zona Cerealista lotar os caminhões e carroças de novo – estes produtos iriam também para os empórios, armarinhos  e quitandas da cidade.

Hoje, a Zona Cerealista, em pleno centro histórico da capital e ao lado do Mercadão e da Avenida do Estado,  movimenta  1,5 milhão de toneladas de alimentos  por ano,  sofre com as constantes enchentes na área e congestiona o trânsito por conta do movimento de caminhões e pedestres.

Em 2016,  o Senac São Paulo e o Museu da Pessoa, lançaram o livro “Armazém do Brasil – Memórias do Comércio da  Zona Cerealista” , que faz uma radiografia da região. Não deixe de ler.  Você pode fazer download do livro aqui

O edital === O edital onde foi incluída a mudança da Zona Cerealista do centro de São Paulo, para a região do Rodoanel Mario Covas, foi lançado pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio do Conselho Diretor do Programa de Desestatização do Estado de São Paulo (CDPED) e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e  publicado  em 06 de outubro de 2017, no Diário Oficial do Estado (Chamamento Público 7-2017) e tem como foco central  colher estudos para a transferência das operações do Centro de Abastecimento Alimentar (Ceasa) do espaço que ocupa, na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

A cidade de São Paulo cresceu rapidamente e “engoliu” a área onde hoje funciona o CEASA, na Vila Leopoldina.  O  entreposto  movimenta 3,5 milhões de toneladas de alimentos por ano e está dentro do  centro expandido da capital,  tem uma estrutura arcaica e o  descomunal movimento  de caminhões causa transtornos  e prejuízos financeiros para a cidade.   Desde que o prefeito João Doria Junior assumiu a prefeitura, em janeiro de 2017,  colocou como uma das metas de seu governo, tirar a  CEAGESP da Vila Leopoldina e transformar a área em um polo de tecnologia.

Vista aérea CEAGESP

Rodoanel Mario Covas === Como a área do entreposto é estadual, o processo para o “Novo Ceasa”  ficou  aos cuidados do  Governo do Estado, que colocou como pré-requisito que todas as localizações sugeridas fossem conectadas ao Rodoanel Mario Covas por acessos já existentes ou previstos, visando facilitar a chegada e a distribuição de produtos. Os estudos apresentam dados sobre como cada localização pode contribuir para melhorar o tráfego na cidade de São Paulo com a transferência gradativa do atual entreposto na Lapa e da Zona Cerealista. Nesta fase do processo, os estudos não têm custo para o Governo, mas os autores das ideias efetivamente utilizadas na elaboração do edital de concessão serão ressarcidos pelo futuro concessionário no limite de até R$ 2,5 milhões.

As propostas === O Governo do Estado de São Paulo recebeu e está analisando quatro sugestões de locais para a transferência da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) na capital. As propostas fazem parte de estudos mais amplos, apresentados por três consórcios e uma empresa, em resposta ao chamamento público aberto pelo Estado em outubro de 2017 e encerrado no dia 12 de março de 2018, para subsidiar a elaboração do edital de concessão para implantação, operação e manutenção do Novo Centro de Abastecimento Alimentar em São Paulo – o Novo Ceasa –, como passará a ser chamado.

“A compreensão de que o Ceasa da Lapa está inadequado, hoje, para aquele lugar é quase unânime. Temos cinquenta mil pessoas que frequentam o local todos os dias, são de doze a quinze mil veículos, você tem um gargalo de mobilidade muito grande, além da degradação da paisagem urbana e outras questões como sanitária”, explica o secretário adjunto de Agricultura e Abastecimento, Rubens Rizek. “Esse Ceasa é da década de sessenta, ali não era uma região totalmente urbanizada, ele foi concebido com as tecnologias de abastecimento, docas, transporte, armazenagem que tinha na época, que hoje está superado”.

De acordo com o diretor técnico-operacional da Ceagesp, Luiz Ramos, o entreposto recebe produtos de mais de 1,5 mil municípios brasileiros. “Abastecemos 60% da Grande São Paulo. Atualmente, o mercado comercializa frutas, legumes, verduras e peixes. É um local que não recebe, no momento, carne nem laticínios, como outros estabelecimentos do tipo no mundo. Isso talvez ocorra no novo local. Com isso, já haverá ampliação de movimento”, ressalta.

As sugestões recebidas foram:

1) Companhia Paulista de Desenvolvimento (CPD): terreno de 2 milhões de m² na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, na junção dos trechos Norte e Oeste do Rodoanel. A proposta é operar com área construída de 482 mil de m².

2) Ideal Partners: imóvel em Santana do Parnaíba com 4 milhões de m² e sugestão de operar com área construída de 1 milhão de m². O acesso é pelo Rodoanel Oeste e rodovias Castello Branco e Anhanguera.

3) FRAL: terreno na Lagoa de Carapicuíba, em Barueri, próximo a Osasco, também com acesso pelo Rodoanel Oeste, com 1,9 milhão de m² no total e área construída sugerida de 864 mil m².

4) NESP: área com 4 milhões de m² no km 26 da Rodovia dos Bandeirantes, com acesso pelo Rodoanel Oeste. A área construída não foi especificada.

O processo === Agora, as sugestões serão avaliadas pelo Governo do Estado de São Paulo junto com os estudos completos, que incluem ainda aspectos como construção, implantação, modelagem operacional, econômico-financeira e jurídica. Estudos de impacto ambiental, eventuais desapropriações e possibilidade de uso do modal ferroviário também devem ser considerados nas propostas.

“O Estado recebeu cinco propostas muito robustas, com cada uma tendo cinco cadernos. Um deles é o estudo técnico com a melhor alternativa locacional para o novo entreposto de São Paulo. O segundo vai dizer qual a melhor forma de construir esse entreposto com as melhores técnicas e tecnologias do mundo. O terceiro é a forma de operar, já que a ideia é que seja construído e operado pela iniciativa privada. O quarto estudo é o da viabilidade econômico-financeira e o quinto são estudos jurídicos de modelagem de concessão e parceria”, descreve Rubens Rizek.

Um investimento para adaptar o atual Ceasa para as necessidades atuais de abastecimento de alimentos perecíveis para a Região Metropolitana de São Paulo é algo na ordem que já justifica que esse investimento já seja feito em outra região.

“A ideia do governador Geraldo Alckmin é resolver no mínimo dois problemas de São Paulo. Com esse projeto pretendemos levar o atual Ceasa e também resolver a questão da distribuição da Zona Cerealista do centro de São Paulo, que também está inadequada, prejudica o trânsito, gera graves prejuízos e transtornos para a população”, descreve o secretário Rizek. “O edital está bem claro em relação a isso, para dimensionar um novo entreposto que comporte o atual Ceasa e também a zona cerealista, permitindo uma reurbanização dessas duas áreas”, conclui.

“O Governo Estadual tem 60 dias para definir o melhor modelo e em torno de mais 60 dias para fazer a preparação de todos os documentos, as aprovações competentes e a publicação do edital”, destaca a subsecretária de Parcerias e Inovação, Karla Bertocco.

O Estado não é obrigado a adotar as soluções propostas, inclusive quanto à sugestão de nova localização do entreposto. Não é obrigatório que os locais sugeridos sejam de propriedade dos consórcios. Podem ser terrenos públicos ou particulares; havendo decisão do Estado por um deles, será feito o decreto de utilidade pública para posterior desapropriação. O custo da desapropriação será desembolsado pelo futuro concessionário, já no âmbito do contrato de concessão.

Histórico e parceria === O Ceasa foi construído pelo Governo do Estado de São Paulo na década de 1960, quando a Lapa ainda era considerado um bairro mais afastado da cidade. Nos anos 1990, o espaço passou à administração da União, sob o atual nome de Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). Desde que foi criado, o Ceasa/Ceagesp foi rapidamente engolido pelo crescimento da cidade, ao mesmo tempo em que via crescer seu volume de negócios. Atualmente, passam pelo local pelo menos sete milhões de toneladas de alimentos por ano, o que denota a escala regional/estadual desses serviços.

A competência pela gestão da logística de abastecimento e distribuição de alimentos é das três esferas do poder público, tanto que o projeto Novo Ceasa acontece em parceria entre União, Estado e Município de São Paulo. Dada a característica metropolitana do abastecimento, coube ao Estado, no âmbito do acordo de cooperação celebrado com União e Prefeitura, a realização dos estudos e preparação da licitação, enquanto o município coordena um Grupo de Trabalho visando estudar alternativas de ocupação do atual terreno do Ceagesp, para quando ele for gradualmente transferido para o novo local.

 

sicredi_institucional

3 COMENTÁRIOS

  1. O que a zona cerealista tem a ver com ceagesp? A ZC é um local turístico da capital, além de abastecer seus moradores. geraldo e doria querem transformar SP em um aglomerado de concreto sem vida. E quanto vão levar nessas transações?

  2. Concordo com o Dorival. Portanto, não se justifica a possível transferência da ZC. O que deveriam fazer ou tentar uma readequação daquele local. As vezes que visito as ruas daquela região dá para perceber que parece que encontra-se abandonado. Ruas bem sujas, calçadas idem, algumas inclusive sem o calçamento.
    E qual o beneficio, para a população em geral, distanciar a ZC para algum daqueles locais comentados na reportagem? Aonde encontra-se até o momento, existe uma variedade de linhas de ônibus. Além de algumas estações de metrô presentes também na região. Existe alguma linha de metrô num daqueles novos locais?
    Existem quantas linhas de ônibus? Quanto ao novo local para o Ceasa, posso até compreender. ( apesar de existir uma 5ª proposta aonde sugerem a manutenção do Ceasa no mesmo local, mas para isso necessitando de várias reformas ) Mas já para a ZC não creio que exista necessidade para a sua transferência. E aquela famosa frase, caso isso venha ocorrer: e depois? O que irá acontecer com aquela região? Como afirmou o Dorival, transformar SP em um aglomerado de concreto sem vida?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora