por Alarico Rezende (*)


Raízes do Brasil –  Estamos abrindo espaço quinzenal (aos sábados)  para contar um pouco a história da música caipira, um pouco da música brasileira, seus compositores e intérpretes, preservando e resgatando as nossas  raízes, fazendo juntos uma viagem cultural, aqui especialmente  e em colaboração para o DiárioZonaNorte.


Em maio de 1999, nos corredores da gravadora Tocantins,em São Paulo, ficamos conhecendo Dorinho, na época com 66 anos, que brilhou muito na música caipira ao lado de Nenete.

Bem-vestido num terno azul-marinho lá estava ele tratando do lançamento de um novo disco. Ele começou contando que é da região da Sorocabana, de Piraju (SP). Já seu parceiro Nenete era de Pirassununga. “Vim de lá para cá em 1953. Cantei 20 anos com o Nenete. Ele faleceu há dez anos. Estou cantando agora com minha senhora, a Iara, juntamente com Ponteli, que é o nosso acordeonista, que também é comunicador de rádio. Estamos aí lutando, preparando o lançamento de um disco aqui na Tocantins”, ressaltou Dorinho nos anos 1990.

Nenete e Dorinho formaram dupla quando se conheceram no segundo festival da Rádio Record, que era apresentado por Randal Juliano.

Na época, Dorinho tinha uma dupla chamada Dori e Dorinho. “Fui cantar no segundo concurso da Record. Naquela época existia Mário Zan, Zé Carreiro e Carreirinho, duo Brasil Moreno, Limeira e Zezinho. Limeira era o Nenete, mas ele já tinha parado e tinha outro no lugar dele. Então, o Nenete queria formar outra dupla. Ele me conheceu cantando com esse parceiro”, recordou.

O primeiro disco de 78 rotações com Nenete foi gravado em 1955, na RCA Victor, que tinha, de um lado, a faixa O Milagre das Rosas. “A letra é do Nenete e a música é minha. Só que está no nome do padre Ciro Torino, para poder receber os direitos para a Igreja. Do outro lado, gravamos o cururu Toca Sino, de autoria de Jorge Petrilo, já falecido.”

Pela RCA Nenete e Dorinho gravaram 30 discos de 78 rotações. No final de 1957, também pela RCA, gravaram o primeiro long-play. Fizeram 18 LPs e depois foram contratados pela Continental, onde gravaram três LPs. Posteriormente, gravaram um disco pela Copacabana, o produtor era o seu parceiro Nenete.

“Nós cantamos na Rádio Tupi” ===  Dorinho contou que só na Rádio Tupi, de São Paulo, cantaram ao vivo quase oito anos. “Quase oito anos no programa “Rancho da Serra”, Nenete, Dorinho e Nardeli, três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, às sete da noite,  a gente cantou na Rádio Tupi, ali no Sumaré, que era apresentado pelo Nascim Filho. Depois teve uma época que o Geraldo Meirelles apresentou, o Saracura também apresentou. Mas nesse programa de segunda, quarta e sexta foi o Nascim Filho”, explicou em detalhes, acrescentando que era “tudo ao vivo. Só tinha uma abertura, o restante era ao vivo.”

“De três a quatro dias para gravar” ===  Ele contou também que as gravações em estúdio eram feitas ao vivo. Só tinham dois canais de gravação, um para voz, outro para a instrumentação. “Tinha dois microfones para a gente. E os músicos também ficavam no mesmo estúdio com a gente. Fosse meia-dúzia ou oito. Tinha um microfone para cada músico, mas só dois canais de gravação.” Ainda segundo Dorinho, se alguém errasse, tinha de começar tudo de novo. “A gente cantava demais. Tinha música que na primeira, segunda, terceira vez conseguia. Mas tinha música que às vezes dava nó, quando não era a gente que errava, era o pessoal do acompanhamento que errava. Então, quando cantava menos, repetia dez vezes a mesma música. Levava de três a quatro dias para gravar.”

Do tempo de circo, ele recordou bem do Lambari. “Todos os circos tinham palco e levavam drama também. Naquela época aniversário de cidade, exposição, essas coisas não existiam ainda.”

Dorinho frequentou o Café dos Artistas, no Largo do Paiçandu, de segunda a quarta-feira. “Na época, eu morava aqui na Rua Vitória. Quem ia lá era Mazzaropi, Luizinho e Limeira, quando eles tinham tempo, o Raul Torres ainda era vivo na época, Anacleto Rosa Junior, que era compositor, Athos Campos, que foi muito meu amigo, até gravei coisas dele, Vieira e Vieirinha, Sulino e Marrueiro. Era mais de segunda a quarta. Depois de quarta a turma já começava a debandar, começava a viajar. Na segunda, o pessoal estava de volta. Os circos sempre davam duas sessões. Para não dar sessões só se ele estivesse meio desprestigiado na praça, o que era muito difícil ocorrer”, relembrou com saudade.

O disco de Dorinho, lançado na época pelo selo Tocantins, com Um Trio de Ouro (Dorinho, Iara e Ponteli). “De regravações de Nenete e Dorinho o disco tem oito músicas. O acompanhamento é de acordeão, bateria, contrabaixo e violão”, contou ele na entrevista.

Dorinho comentou a mudança da música caipira, de seu tempo aos dias de hoje. “A molecada deu uma reviravolta e atrapalhou um pouco, mas as raízes nunca morrem.” Ele até falou da diferença de caipira e sertaneja: “A música caipira na realidade é moda de viola, paródias, Vieira e Vierinha, Tonico e Tonico. Agora quando se trata de guarânia, toada, moda campeira é música sertaneja, não é caipira. Tem de haver uma separação aí. No tempo de Alvarenga e Ranchinho, que faziam muitas paródias, o pessoal dizia: Vamos assistir os caipiras e isso pegou. Mas sertanejo é o certo, tirando moda de viola e paródias, tudo é sertanejo”, explicou.


“Cada um come um pouquinho” == Dorinho não foi lá nada otimista ao falar de direito autoral no Brasil. Ele se queixou, dizendo que “cada um come um pouquinho” e “quando chega nos autores sobra muito pouco. Eles levam tudo”, alfinetou o ex-parceiro de Nenete, que dá sequência à carreira com um trio, formado por ele, sua mulher e o sanfoneiro Ponteli.

Bem, meus amigos, ficamos por aqui, grande abraço. Acompanhe-nos aqui no Diário Zona Norte e nas edições do Brasil Raiz e na sintonia da Rádio Brasil Raiz!

Clique abaixo na imagem para ouvir alguns dos principais sucessos do dupla Nenete & Dorinho:


(*) Alarico Rezende —  jornalista-compositor-intérprete, edita mensalmente o jornal cultural Brasil Raiz e toca com dedicação a Rádio Brasil Raiz na web: www.brasilraiz.com.br e www.radiobrasilraiz.com.br

Leia mais sobre Alarico Rezende na matéria do DiárioZonaNorte: “Alarico Rezende, o caipira que veio montar sua rádio sertaneja na Capital” (13/08/2017) — é só clicar aqui

           N.R.: os artigos serão publicados quinzenalmente, aos sábados.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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