por Conceição Lourenço (*)

Há tempos não vejo essa amiga, mas sei que ela está bem e que sempre se lembra de mim. Era começo dos anos 1980 trabalhávamos juntas e ela era o que se chamaria hoje baladeira. Nossa jornada de trabalho era das 9 às 18 horas. Toda noite  ia pra Faculdade, exausta, sabendo que no dia seguinte ela me contaria histórias animadas da noite  pela São Paulo.

A vida dela era animada porque além de linda, fantásticos e enormes olhos verdes, era saudável no auge dos 20 anos.  Eu tinha até uma invejinha dos agitos que narrava.

Naquela manhã, ela não apareceu radiante pra dar bom dia, no meu departamento. Lá pelas 11 da manhã fiquei sabendo que ela passara mal na noite anterior e estava internada.

Logo vieram mais informações: ela estava na mesa de operação fazendo uma cirurgia, uma cirurgia do coração, não acreditei. Ninguém acreditou. Parou todo nosso trabalho no 6º andar.  Mal consegui trabalhar, eu atendia o público.

Foi assim (ela me contando, duas semanas depois): “Fui a pra um barzinho com minhas amigas, e o menino da outra mesa era muito lindo. Foi que foi que fomos lá pra fora e… decidimos ir pra um motel.

Lembro-me de poucas coisas depois. Só sei que cheguei no hospital enrolada num lençol”. Ela sabe que deve ter ficado estranha, respiração, sei lá. A sorte dela foi que o moço era médico e percebeu que não estava tudo bem.

Ligou pro hospital onde trabalhava na Aclimação e blá blá blá… Ele a salvou. Ela colocou uma válvula, não darei detalhes da cirurgia, só sei que ela nasceu de novo.

Em alguns dias a mãe dela liberou a visita. Lá fui eu, assustada. A família montou o quarto dela em casa, bem aparelhadinho. A voz dela era fraquinha, bem baixa. Estava exageradamente pálida. Vários balões em forma de coração pairavam no ar.

Estava bem humorada, dentro do possível. Só  mostrou um pouco de desânimo quando falou que o mocinho (cardiologista-baladeiro) a visitou só uma vez no hospital e nunca mais…

Achei lindo os balões voando no quarto e cantarolei a música da Elba Ramalho: “Oi, bum, bum, bate coração, oi bum coração pode bater”, ela achou graça começou a rir e engasgou. Ai, Jesus.

A vida dela mudou. Mudou o comportamento, a maneira de se vestir etc. Passou fazer aniversário no dia da cirurgia. Cirurgia que logo fez um ano e ganhou uma festa infantil digna de uma princesa. Ela queria muitas crianças. Levei as minhas: Fabrício, Andrea e Felipe.

Tenho muitas fotos desta festa. Só não mostro, pois preciso da autorização dela. Sei também que ela não se casou, não teve filhos, mas é voluntária em um hospital.

Sei também que nosso coração é traiçoeiro e caprichoso. Assim como se apaixona sem nos consultar, sem nos dar satisfação, gosta de ser bem tratado, cuidado etc. Que os nossos batam felizes em 2018.


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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