por Aguinaldo Gabarrão

 O G.E.C.A – Grupo de Estudos de Clowns Anônimos estreou em dezembro de 2016 o “Cabaré do Fim do Mundo”, espetáculo que utiliza a linguagem do clown, resultado de um ano de pesquisas do atual grupo de atores.

O núcleo e o espetáculo são dirigidos por Cida Almeida, atriz formada na ECA-USP e filósofa pela Universidade do Sul de Santa Catarina. A diretora é especialista na formação e preparação de atores através das máscaras teatrais com ênfase na linguagem do clown.

Nessa nova produção, Cida estimulou a dramaturgia colaborativa, na qual os próprios atores elaboram o texto durante o processo de pesquisa e ensaios. O enredo da peça se desenvolve a partir do momento em que os artistas contratados para se apresentarem no Cabaré do Fim do Mundo são presos e impedidos de comparecer. Há um clima de patrulhamento e caos ao redor do estabelecimento que recebeu um grande público. Diante dessa situação, os garçons resolvem aproveitar a oportunidade de realizarem eles mesmos o show, escondendo da platéia a real situação. Mas, aos poucos, o caos que se passa lá fora invade o ambiente do Cabaré e ameaça acabar com o espetáculo.

PREÂMBULO DO RISO == A primeira e agradável surpresa dessa montagem é constatar que a ambientação do espaço cênico é feita no local mais improvável: nos fundos de uma casa. A cenografia, assinada por Karine Lopes, aproveita as características do local e constrói por meio de tecidos, cortinas, mesinhas e cadeiras o típico ambiente de um cabaré. Lâmpadas incandescentes dão forma a candelabros estilizados e num pequeno palco um músico e o sonoplasta dão o tom alegre e festivo e convidam o público a participar dessa experiência lúdica.

Nesse ambiente aconchegante circulam os “clowns-garçons” antes do início da apresentação, registrando pedidos, servindo petiscos e bebidas solicitadas pelo público, que assume o papel de cliente do Cabaré. Essa interação é ótima para apresentar, antes do início do espetáculo algumas características comportamentais de cada clown, além da excelente oportunidade de improviso, que ajuda a criar o sentimento de empatia do público com os intérpretes.

O JOGO SE ESTABELECE == A partir do terceiro sinal os clowns interpretados por Calu Baroncelli, Leandro Cenci Mariana Taques, Patrick Castilho, Rafael Hercowitz, Rebeka Teixeira, Ricardo Pesce e Wilson Saraiva, assumem as rédeas do show e uma sequencia de esquetes ocupa o pequeno tablado e todo o espaço do Cabaré, contando desde a divertida criação do mundo até situações contemporâneas, como o impeachment, passando por uma divertida paródia de uma cena do filme Titanic, sob a sonoplastia de Jean Salustiano.

Aparentemente, as histórias parecem não ter relação direta entre si, porém a diretora Cida Almeida soube alinhavar as diferentes cenas e conduzi-las para dar sentido ao caos que progressivamente se instala no Cabaré. A metáfora não poderia ser mais clara ao escancarar determinados temas da política nacional e da sociedade, sem perder a graça que vem do ridículo dessas situações. Outro mérito foi usar o repertório de cada intérprete (cantam, dançam, tocam instrumentos) no desenvolvimento das personagens, dos conflitos e gags. Cada um dos atores sabe aproveitar o seu momento solo sem descuidar da regra básica para o sofisticado trabalho do clown: a cumplicidade com o público.

Em algumas passagens de uma cena para outra se percebe uma quebra no ritmo, sem ficar claro se houve a intenção deliberada da direção em causar um efeito de estranhamento para reflexão do público.

Cabe ainda destacar os figurinos elaborados pelos atores e que se harmonizam no conjunto. Outro elemento criativo é o desenho da iluminação proposta por Rebeka Teixeira e Wilson Saraiva, ao utilizarem em momentos específicos luminárias simples, fixadas nas bandejas e direcionadas pelos garçons, de forma a reforçar o clima de espanto e insanidade que gradativamente invade o ambiente.

O espetáculo Cabaré do Fim do Mundo teve sua temporada prorrogada até o final de abril. Confira o trabalho do grupo que faz da generosidade “clownesca” o combustível para o riso, nessa difícil tarefa de resistência artística em tempos de perplexidade.

SERVIÇO:

Cabaré do Fim do Mundo

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 60 minutos

Sábados: 20h (até final de abril)

Grupo de Estudos de Clowns Anônimos

Rua Sepetiba, 542, Lapa

Lotação: 30 lugares (reservas: cabaredofimdomundo@gmail.com / calubaroncelli@gmail.com / Calu Baroncelli – (11) 9 9397-5521

Valor: (A produção disponibiliza uma tabela com os custos de produção, deixando a critério do público o valor do ingresso a ser pago)

Teaser do espetáculo:

https://www.youtube.com/watch?v=YL_w9O54kpw

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

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