por Aguinaldo Gabarrão (*)

Introdução –  < Leia a 1ª parte da resenha – clique: https://bit.ly/2zMyOKS > == Na noite 25 de dezembro de 1977, na comuna Corsier-sur-Vevey, no distrito de Vevey, Suiça, Charles Spencer Chaplin, então com 88 anos, despedia-se do mundo, deixando como legado uma obra inigualável para o cinema. Descrever sua trajetória é, de certo modo, contar também um pouco da história da sétima arte.

O ator, diretor, roteirista, produtor e compositor conquistou o respeito do público e da crítica em dezenas de filmes de curta duração e, especialmente, nos onze longas metragens que determinaram seu status de gênio.

Nesta homenagem que o Portal DiárioZonaNorte faz ao grande ator e diretor, optou-se em contar fragmentos da vida de Charles Chaplin a partir de seus principais filmes,  na ordem cronológica de produção. Acontecimentos históricos também são mencionados para situar o leitor quanto as circunstâncias que influenciaram o artista na concepção de suas obras. Não é, portanto, uma biografia resumida.

<<2ª e última parte>> ==  O ano de 1939 marcou o início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polônia pelo exército alemão.  Por sua vez a Inglaterra e a França, líderes do bloco aliado, declaram guerra aos alemães e seus pares.

A Alemanha, Itália e Japão assinam em 1940 o Pacto Tripartite e compõem a aliança das forças do eixo. Em pouco tempo, a guerra assume proporções mundiais com a adesão, em ambos os lados, de outros países. Nos dois primeiros anos do conflito, a diplomacia internacional acompanhará com apreensão cada vez maior, as sucessivas vitórias das potências do Eixo.

Os Estados Unidos mantinham apoio diplomático aos aliados, porém, sem envolver-se diretamente no conflito. Em maio de 1940, a França é invadida e dominada pelo exército alemão. Em outubro do mesmo ano Chaplin lança o ousado filme “O Grande Ditador”, sátira pesada e contundente à figura do tirânico chanceler alemão Adolf Hitler e do histrião italiano Benito Mussolini.

O GRANDE DITADOR – 1940

Um barbeiro judeu, após vários anos internado num hospital, retorna à sua comunidade e descobre que seu país é administrado pelo tirano Adenóide Hynkel e sua política antissemita. Inconformado, se une a um grupo e rebela-se contra essa situação.

Este é o primeiro filme falado de Chaplin e impressiona a sua atitude ao realizar essa produção, arriscando-se num momento político delicadíssimo. O comediante não poupa as figuras proeminentes do nazismo de Hitler e do fascismo de Benito Mussolini, também violentamente satirizado na história como Benzino Napaloni. A disputa de egos entre tiranos rende sequencias hilariantes. O emocionante discurso ao final da película é, até os dias atuais, uma declaração de amor à vida e à liberdade dos povos.

Apesar do sucesso, o filme foi boicotado em vários estados americanos, favoráveis à neutralidade do país na Segunda Grande Guerra. Na América do Sul alguns países proibiram a exibição do filme, por serem simpatizantes do nazi-fascismo ou possuírem ditaduras estabelecidas.

O Grande Ditador é o último filme em que a adorável figura do Vagabundo aparece, porém, sem a onipresença dos trabalhos anteriores. O mundo havia mudado e não havia mais espaço, nos anos sombrios que se seguiriam, para essa figura cavalheiresca, romântica e contraditoriamente humana. Outras personagens, adequadas aos novos tempos e a visão do diretor, assumiriam o protagonismo para revelar a crueza do pós-guerra.

Em 1942 o casamento de Chaplin com Paulette Goddard (que interpreta Hannah) chega ao fim. No ano seguinte ele conhece Oona O’Neill, uma jovem atriz de 17 anos. Casam-se contra a vontade do pai, o dramaturgo americano Eugene O’Neill.

MONSIEUR VERDOUX – 1947

O cavalheiro Verdoux é um bon vivant que perde seu emprego numa casa bancária, no período da grande depressão e, para sustentar a família, secretamente vive uma vida dupla, envolvendo-se com solteironas ou viúvas ricas para assassiná-las e ficar com seu dinheiro.

A história, inspirada na vida real do serial killer Landru, foi roteirizada por Orson Welles, segundo depoimento dele no livro “My lunches with Orson” (Meus almoços com Orson). Porém, nos créditos, seu nome configura apenas como o autor da ideia. Ele não pouparia críticas a Chaplin, “… um tolo e arrogante”, que não cumpriu a promessa de lhe dar o devido crédito no filme. De qualquer forma, Chaplin assume o controle de tudo.

A direita americana torce o nariz para o filme, uma metáfora da voracidade do sistema capitalista que em nome do lucro, destrói tudo à sua volta. O filme é proibido em diversos estados americanos e a perseguição do comitê de atividades antiamericanas, embalado pela Guerra Fria, amplia campanhas na imprensa contra Chaplin, além do ostensivo monitoramento do FBI, então dirigido por J. Edgard Hoover.

O cinema de Hollywood não foge a esse estigma e os grandes Estúdios criam a lista negra para identificar artistas ligados ao comunismo e impedi-los de continuar trabalhando ou serem contratados no mercado. Muitos desses profissionais tiveram suas carreiras arruinadas.

LUZES DA RIBALTA – 1952

Dançarina sofre de depressão e tenta o suicídio, mas é salva por um ex-comediante que, a partir daí, procura ajudá-la a recuperar sua autoestima. A jovem, agradecida pela figura carismática do velho palhaço decadente, irá ajudá-lo também a reencontrar o seu caminho.

Para essa produção tão particular, ele convida outro gigante do cinema mudo: o comediante, ator e diretor Buster Keaton (1895 – 1966), e ambos contracenam no ambiente mais sagrado de um artista antes de entrar em cena: o camarim. É a primeira e última vez que os dois gênios se encontram na telona.

Chaplin completa 63 anos e este é seu filme mais autobiográfico, espécie de testamento artístico. Ele interpreta Calvero, ex-comediante e palhaço, esquecido pelas novas gerações.

Assim como Calvero, o grande mímico e seu Vagabundo também já não são mais uma unanimidade, principalmente nos Estados Unidos. Chaplin sente os ventos da mudança e o peso de sucessivas perseguições que sofre de políticos, do FBI e da imprensa marrom. Apesar da sua vida pessoal repleta de escândalos e casamentos mal sucedidos, ele finalmente encontrava paz e segurança ao lado de Onna O’neil.

O lançamento do filme será na Europa e Chaplin parte com sua família para o velho continente. Porém, monitorado por Edgar Hoover, o todo poderoso do FBI, o ator recebe um telegrama no navio em que está viajando, avisando-o de que seu visto americano havia sido cassado (Chaplin era inglês e nunca quis naturalizar-se) e não poderia mais voltar aos EUA. Esse fato marcará profundamente o velho comediante. Ele pede a Onna que retorne ao país para vender as propriedades e sua participação societária na United Artists.

Nesse mesmo período, o senador Joseph McCarthy, promovia o lamentável espetáculo de perseguições contra cidadãos americanos, considerados subversivos ou traidores. É o período do Marcathismo, que perdurará de 1950 a 1957.

UM REI EM NOVA YORK – 1957

O rei tirano de uma republiqueta foge para Nova York e, após ser traído, se vê sem um centavo no bolso. Isso o obriga a buscar a sobrevivência e relacionar-se com a imprensa e grandes empresas, interessadas em veicular a imagem de seus produtos ao glamour de sua realeza. Ele conhece um menino, filho de pais comunistas, o que lhe trará muitos dissabores.

Este será o primeiro filme de Chaplin realizado na Europa e escancara a mágoa do artista em relação a sua expulsão dos Estados Unidos. O filme é um desfilar de ironias ácidas, absolutamente inteligentes e direcionadas ao establishment americano. Nada escapa ao espírito crítico do comediante: a imprensa; a televisão; a comissão de atividades antiamericanas; a justiça e o próprio cinema são metralhados em piadas e situações que lembram os percalços do cineasta na América.

Logo nas cenas iniciais lê-se a seguinte legenda: “Um dos menores incômodos da vida moderna é uma revolução”. Paradoxalmente, “Um Rei em Nova York”, foi proibido nos Estados Unidos, berço da democracia…

Chaplin e sua família fixam residência na Suíça, na comuna Corsier-sur-Vevey, no distrito de Vevey. Ali, viverá com Onna e os oito filhos que tiveram ao longo de quase 35 anos de casamento.

A CONDESSA DE HONG KONG – 1967

Uma condessa destituída dos seus bens resolve fugir para os Estados Unidos. Embarca clandestinamente num navio e conhece um rico diplomata americano. Reticente no início, o empresário passa a ajudá-la em seu propósito, enquanto administra a sua crise conjugal.

Este foi o único filme colorido dirigido por Chaplin e seria sua despedida do cinema. Ele faz uma pequena participação, no papel de um mordomo. O cineasta estava com 77 anos e sua saúde declinava rapidamente. O filme não foi bem recebido pelo público e parte da crítica considerou “A Condessa de Hong Kong” como sendo o pior trabalho de sua filmografia: anacrônico e sem graça. É uma consideração injusta.

O cineasta realiza uma releitura do formato que o consagrou no cinema mudo. E aposta suas fichas, acertadamente, na figura da atriz Sofia Loren. A intérprete foi capaz de compreender e doar-se à proposta do diretor, ao incorporar em sua interpretação vários elementos do Vagabundo, personagem síntese de Chaplin: a disposição corporal; o humor do clown; o timing para a gag.

O mesmo não se pode dizer de Marlon Brando, que neste filme, é uma sombra do talento que o consagrou. Além disso, ele entraria em choque com Chaplin na linha de interpretação de seu personagem. Anos mais tarde, Brando comentaria a respeito do diretor: “Chaplin era perverso. Sádico. Vi-o torturar o seu filho Sydney, humilhá-lo, insultá-lo”.

Na Europa, Chaplin é homenageado. Reduz suas aparições públicas. Compõe músicas para alguns de seus filmes mudos.

Em 1972, após 20 anos do exílio forçado ao qual fora submetido, Hollywood faz um mea-culpa e presta homenagem ao artista, por sua contribuição as artes e ciências cinematográficas do mundo. Aos 83 anos, Chaplin é o convidado principal na entrega do Oscar. Ele recebe uma estatueta, pelo conjunto de sua obra. O ator Jack Lemmon (1925 – 2001) entrega a ele um chapéu coco e uma bengala, adereços de seu principal personagem, o Vagabundo. O cineasta, emocionado, agradece dizendo: “As palavras parecem fúteis e fracas. Posso apenas dizer: obrigado pela honra deste convite. Vocês são maravilhosos e doces… obrigado!”.

Após sua morte, em 25 de dezembro de 1977, a viúva Oona O’Neill, cuida do seu espólio até 1991, data em que vem a falecer, vítima de um câncer no pâncreas. Seu corpo está enterrado ao lado do marido.

A mansão do casal na Suiça, hoje transformada em museu, guarda a história e legado de um artista perfeccionista e único, o grande alquimista do cinema que soube transformar a tristeza da vida em comédia, e elevá-la à categoria de obra de arte.

Na atualidade, os filmes de Chaplin, revisitados, ainda provocam risos, emocionam e reverberam em nosso mundo contemporâneo, fazendo-nos refletir sobre as nossas próprias misérias.

Nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, sintetiza com maestria o genial comediante e seu Vagabundo: “… ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança”.


No Brasil, a Versátil Home Vídeo oferece em 20 DVDs o box especial “CHAPLIN – A OBRA COMPLETA” – mais encarte especial de 16 páginas – que reúne, pela primeira vez no mercado, as versões restauradas de todos os filmes do maior gênio da comédia (13 longas-metragens e 65 curtas – quase 50 horas de conteúdo!), além de muitos extras especiais, como documentários em que Bertolucci, Chabrol e outros cineastas renomados falam de Chaplin. Edição Limitada, obrigatória para os fãs de Chaplin, em um preço extremamente compensador pelo que apresenta. Mais detalhes:  https://www.dvdversatil.com.br/chaplin/ . No YouTube pode ser assistida uma apresentação e demonstração com detalhes do box:  https://www.youtube.com/watch?v=g9pWal5S2kE


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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