por Aguinaldo Gabarrão (*)

Na noite 25 de dezembro de 1977, na comuna Corsier-sur-Vevey, no distrito de Vevey, Suiça, Charles Spencer Chaplin, então com 88 anos, despedia-se do mundo, deixando como legado uma obra inigualável para o cinema. Descrever sua trajetória é, de certo modo, contar também um pouco da história da sétima arte.

O ator, diretor, roteirista, produtor e compositor conquistou o respeito do público e da crítica em dezenas de filmes de curta duração e, especialmente, nos onze longas metragens que determinaram seu status de gênio.

Nesta homenagem que o Portal DiárioZonaNorte faz ao grande ator e diretor, optou-se em contar fragmentos da vida de Charles Chaplin a partir de seus principais filmes,  na ordem cronológica de produção. Acontecimentos históricos também são mencionados para situar o leitor quanto as circunstâncias que influenciaram o artista na concepção de suas obras. Não é, portanto, uma biografia resumida.

CORRIDA DE AUTOMÓVEIS PARA MENINOS – 1914

Um diretor deseja filmar crianças que disputam uma corrida de carros e se vê às voltas com um homenzinho exibicionista, sempre na tentativa de aparecer mais do que os competidores.

Essa história simples registra a primeira aparição do personagem Vagabundo (The Tramp), conhecido no Brasil como Carlitos. O jovem Chaplin participava do seu segundo filme de curta metragem e não sabia como deveria se caracterizar. Ao chegar ao camarim, pensou em usar roupas que destoassem: calças bem largas, sapatos enormes, casaco apertado, um chapéu-coco, bengala e um pequeno bigode. Ele se inspirou no pierrô, personagem ingênuo e sentimental da Commedia dell’Arte (gênero de comédia italiana que surgiu no século XVI).

O Vagabundo nascia no mesmo ano em que a Primeira Guerra Mundial assolava o território europeu. Chaplin era integrante da companhia teatral do inglês Fred Karno, e estava pela segunda vez nos Estados Unidos. Seu talento chamou a atenção do empresário Mack Sennett, fundador dos Estúdios Keystone. Esse foi o passo decisivo para a entrada do ator no mundo do cinema e, por conseguinte, mantê-lo em solo americano, longe da guerra que perduraria por quatro e difíceis anos.

Paulatinamente aprimorado, o Vagabundo se tornaria o grande poeta da imagem no cinema mudo.

O GAROTO – 1921

Uma mãe desesperada resolve abandonar seu filho. O bebê vai parar nas mãos do Vagabundo.   Ele quer livrar-se da criança, mas acaba por adotá-la e cinco anos depois, a mãe tenta reencontrá-lo.

Após realizar 65 filmes de curta metragem, vários deles antológicos, como “Ombro, Armas!”, “Campeão de Boxe” “O Pastor de Almas”, “A Casa dos Penhores” e “Rua da Paz”, o cineasta aventura-se na realização de “O Garoto”, seu primeiro filme de longa metragem.

A história mescla comédia e drama, algo ousado e incomum no cinema daquela época. Torna-se um grande sucesso de público e crítica. A vida do personagem título, interpretado por Jackie Coogan, guarda semelhanças com a vida dificílima que Chaplin e seu irmão Sidney conheceram quando passaram por um asilo, ao sul de Londres, e depois numa escola para órfãos. Os pais de Chaplin eram artistas de music-hall. O pai alcoólatra separa-se da esposa e esta, com problemas psiquiátricos, fica um período sem ter condições de cuidar dos filhos.

A vida dura, a fome e a necessidade de lutar pela sobrevivência são elementos fortemente impressos neste filme. É um melodrama absolutamente cativante. Sua trama simples e ágil, com ótimas reviravoltas, demonstra o aperfeiçoamento técnico adquirido pelo cineasta até chegar ao topo em sua arte.

A essa altura, com 32 anos, Chaplin já possui seu próprio estúdio, havia fundado a produtora e distribuidora United Artists com a atriz e produtora Mary Pickford, o ator Douglas Fairbanks e o cineasta David Griffith, para garantir total liberdade na produção e distribuição de seus filmes, contra o poder crescente da indústria de Hollywood.

Nesse período os Estados Unidos, após o fim da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), assumia a liderança econômica e política no mundo.

EM BUSCA DO OURO – 1925

O vagabundo viaja para o Alaska com o objetivo de enriquecer. Preso numa cabana por causa de uma nevasca, é obrigado a conviver com um fugitivo e um garimpeiro de sucesso. Diversas peripécias acontecem até ele conhecer a mulher de seus sonhos e tentar conquistá-la.

É o filme favorito do cineasta e comprova seu domínio da câmera, da montagem e sua capacidade de cativar o público. Várias cenas são referências dessa excelência artística: a sequencia em que o vagabundo come seus próprios sapatos; a dança dos pãezinhos; e quando, no delírio da fome, o companheiro o vê transformar-se numa galinha e quer devorá-lo.

Um ano depois a Warner Brothers lança o primeiro sistema sonoro eficaz para o cinema. Em pouco tempo, todos os grandes estúdios se rendem à nova tecnologia. O que para uns seria inovação, para outros determinaria o fim de suas carreiras artísticas.

O CIRCO – 1928

Um ladrão em fuga esconde uma carteira no bolso do Vagabundo. Mais tarde tenta recuperá-la e o Vagabundo, para livrar-se dele e da polícia, entra num circo. Confundido com um integrante da trupe, é ovacionado pelo público e contratado pelo dono, que explora seu talento pagando-lhe uma miséria.

Chaplin critica os detentores dos meios de produção nas artes, representado pelo dono do circo, que ganha muito dinheiro e paga uma miséria ao Vagabundo. Curiosa metáfora da indústria do entretenimento, particularmente o cinema, que desde o início dos anos vinte, havia criado o “star system” (sistema de estrelas), calcado em contratos exclusivos e domínio quase absoluto sobre a vida profissional e particular dos artistas.

No ano seguinte, a Grande Depressão, caracterizada por um forte processo de recessão econômica, provocaria desemprego, quebra de empresas em muitos países e profundas mudanças no mundo.

LUZES DA CIDADE – 1931

O Vagabundo conhece uma jovem florista cega nas ruas da cidade. Ele se condói de sua situação e tenta ajudá-la de diversas formas, porém se envolve em situações atrapalhadas que geram mais complicações.

Esta produção é, provavelmente, aquela em que Chaplin consegue a perfeição no equilíbrio entre seu talento cômico e dramático. O final é um dos mais belos de toda a filmografia do cineasta.

O filme é mudo. O cineasta resiste em realizar um filme sonoro. Sabe que a tecnologia do som, cada vez mais usada em filmes, representa o oposto à arte da mímica e da pantomima, base de construção do antológico Vagabundo. Apesar disso, sua criação ainda apareceria em Tempos Modernos e no filme O Grande Ditador.

O cinema mudo estava em extinção. O mundo continuava a sofrer os efeitos da forte recessão americana. E, no ano seguinte, Franklin Roosevelt, eleito presidente dos Estados Unidos, coloca em prática sua política do New Deal (novo acordo), para reverter lentamente o cenário econômico e social desastroso.

TEMPOS MODERNOS – 1936

O Vagabundo trabalha numa fábrica. Mas, o sistema de produção extenuante o leva a uma crise nervosa e a sucessivas prisões. Ele conhece uma jovem órfã e tenta viver em harmonia com ela num mundo cada vez mais mecanizado.

Esse filme tem o mérito de discutir claramente as relações cruéis entre trabalho e capital; a desumanização das pessoas; o sistema industrial da produção em série, que transforma seres humanos em peças de uma engrenagem, sem nome ou história, a serviço do grande capital.

Há sequencias antológicas: o homem engolido pela máquina e que se torna parte dela; o Vagabundo que corre para devolver uma bandeira vermelha que caiu de um caminhão e ajunta, ao redor de si, uma enorme manifestação de operários.

Chaplin também se vinga daqueles que o criticam por ainda produzir filmes mudos. Caracterizado como Vagabundo, ele fala pela primeira vez no cinema: canta uma música, mas as palavras são propositalmente incompreensíveis. Naquele momento ele se rendia ao som, mas do seu jeito.

A essa altura, o cineasta era taxado de esquerdista, comunista e inimigo do american way of life (estilo americano de vida). Sua vida passa a ser monitorada e os escândalos amorosos e casamentos desfeitos com adolescentes (Mildred Harris e Lita Grey) tornam-se um prato cheio para a imprensa americana.

Em 1936, casa-se com a atriz Paulette Goddard, que protagoniza a personagem Ellen Peterson, de Tempos Modernos. Ela é sua terceira esposa.

No cenário político, Adolf Hitler, Líder e Chanceler da Alemanha, consolida sua ditadura e prepara-se para lançar seu país na mais cruel de todas as guerras.

Nas mãos de Chaplin, o líder nazista será o ridículo Adenóide Hynkel, ditador egocêntrico e desequilibrado, no excelente filme O Grande Ditador.

(Atenção == A segunda e última parte desta matéria será publicada na edição de 29.12, 6ª feira)


 

No Brasil, a Versátil Home Vídeo oferece em 20 DVDs o box especial “CHAPLIN – A OBRA COMPLETA” – mais encarte especial de 16 páginas – que reúne, pela primeira vez no mercado, as versões restauradas de todos os filmes do maior gênio da comédia (13 longas-metragens e 65 curtas – quase 50 horas de conteúdo!), além de muitos extras especiais, como documentários em que Bertolucci, Chabrol e outros cineastas renomados falam de Chaplin. Edição Limitada, obrigatória para os fãs de Chaplin, em um preço extremamente compensador pelo que apresenta. Mais detalhes:  https://www.dvdversatil.com.br/chaplin/ . No YouTube houve também a apresentação e demonstração com detalhes do box:  https://www.youtube.com/watch?v=g9pWal5S2kE

 


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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