A dimensão da vida e obra de um artista da envergadura de Vincent Van Gogh (1853-1890) possui elementos que inspiraram boas produções cinematográficas. Um desses filmes é “Sede de Viver” (Lust for Life) de 1956. Coube a Kirk Douglas interpretar o pintor holandês e a Anthony Quinn o papel do pintor Paul Gauguin com direção do lendário Vincente Minnelli.

Nesse filme, o roteirista Norman Corwin apresenta ao público os embates do pintor pós-impressionista com Gauguin, sua relação com o irmão Theodorus (Theo) e as diversas fases às quais o artista experenciou técnicas que o levaram a atingir a maturidade estética e o alçaram à condição de gênio, na mesma medida em que sua vida caminhava para a destruição.

A releitura de uma vida por meio de quadros

Pouco mais de 50 anos após essa produção, estreou no circuito nacional “Com amor, Van Gogh”, filme de características bastante peculiares por usar técnicas de animação com tinta a óleo e amparar a narrativa ficcional a partir de 120 das principais obras do pintor, reconstituindo em diálogos de suporte documental, os últimos dias de sua vida.

A história se passa em 1891, um ano depois da morte de Van Gogh. O jovem Armand é estimulado por seu pai, o carteiro Roulin, a entregar a última correspondência de Van Gogh a um parente, uma vez que seu irmão Theo também já havia falecido. Essa empreitada fará com que o jovem comece a investigar se o pintor realmente se suicidou, além de conhecer detalhes dessa intrigante personalidade.

Outras maneiras de olhar o mundo

O mérito maior dessa belíssima produção é apresentar às novas gerações, um conjunto de obras que marcaram em definitivo o estilo próprio do pintor que flertou inicialmente, na escola impressionista, movimento que capturava a impressão que a natureza provoca por efeito da luz, a partir do olhar particular do artista sobre o objeto retratado.

O pintor holandês, segundo o historiador de arte Ernest Hans Gombrich (1909 – 2001), autor de A História da Arte, afirma que Van Gogh foi precursor da arte moderna e do expressionismo, movimento que viria a ganhar seus principais interlocutores na Alemanha e que se caracteriza por expressar o drama interior; a visão e expressão intuitiva do mundo.

Assim, as obras escolhidas pela produção do filme e reproduzidas em 65000 telas, todas pintadas a óleo por um batalhão de 150 pintores, e mescladas com atores reais, conseguem no filme transmitir a percepção interior de Van Gogh, o pulsar, a vibração dos assuntos por ele retratados e revelar a exaltação mental do holandês.

Depoimentos reveladores

A narrativa é entrecortada com depoimentos em flash back colhidos por Armand e auxiliam a percepção do público para o conjunto de situações que culminariam com o fim trágico do pintor.

Dessa forma, o passado é sempre apresentado em tons acinzentados, não só para diferenciar a ação do tempo presente, mas também para reforçar o estado de coisas e confusão mental que o artista sofria.

Alma sensível, voluntariosa e atormentada

Ao optar por situar o filme nos últimos momentos de vida do “ruivo louco”, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman não deixaram de apresentar ao público um Van Gogh sensível, incompreendido e ridicularizado por uma boa parte daqueles que compartilharam da sua existência.

Esse recorte específico da vida do pintor permite compará-lo à vida de outros tantos artistas, incompreendidos em seu meio social por serem um “ponto fora da curva” e, portanto, vítimas quase certas do status quo e dos mecanismos mercantilistas da arte, por não se conectarem aos estilos consagrados ou formas prontas para o lucro fácil. Algo que dialoga perfeitamente com o nosso século XXI, de mediocridades artísticas abomináveis, consumidas como arte em todos os segmentos da cultura.

“Grandes artistas não têm almas em paz”

Empregado por um tio numa galeria, Van Gogh diria aos seus patrões, pouco antes de ser demitido, que “… o comércio de quadros é um roubo organizado”. Algumas fontes informam que teria vendido em vida uma única obra. E hoje, diversos quadros do pintor são disputados e vendidos por milhões de dólares.

Paradoxalmente a esse mercado sustentado por abastados, a produção do artista revela a preocupação com as pessoas mais simples ou temas pouco comuns aos interesses de outros pintores, como reproduzir um par de sapatos velhos, belo em sua estranheza e que representava a própria condição de Vincent perante o mundo.

Aliado a essa delicadeza, seu fervor religioso, que o tornou pregador do evangelho por um período de sua existência, ajudou a transmutar essa experiência mística em desejo de amor ao próximo, traduzida na tela e em tintas.

Numa de suas 600 cartas enviadas a Theo, o irmão que lhe deu em vida suporte material e, principalmente emocional, Van Gogh diria: “… Theo, seria infeliz se não pudesse pregar o Evangelho, se o meu fim não fosse louvar, se não tivesse posto toda a minha esperança e a minha confiança em Cristo”.

Esses detalhes das correspondências ou mesmo da estreita relação dos irmãos, embora não sejam abordados no filme, não diminuem o brilho e o impacto da história e da profusão de cores na sala escura.

Com Amor, Van Gogh é um mergulho sensorial e muito particular na compreensão da alma de um artista único, possuidor de uma paixão infindável pela vida.

 

Assista ao trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=0IvlYHSXg24

Assista ao Making Off: https://www.youtube.com/watch?v=QE9Q_7bfHsM


FICHA TÉCNICA

Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent)

Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman / Roteiro: Jacek Dehnel, Dorota Kobiela e Hugh Welchman

Elenco: Douglas Booth, Chris O´Dowd, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan, Jerome Flynn, EleanorTomlinson, John Sessions, Helen McCrory, Aindan Turner.

Trilha sonora: Clint Mansell / Produção: Hugh Welchman, Sean M. Bobbitt

Gênero: animação, drama / Duração: 94 minutos

Classificação indicativa: 12 anos / País: Reino Unido e Polônia / Ano de Produção: 2017 / Lançamento: 30 de novembro de 2017


SERVIÇO * (Legendado em todas as salas – Confirme os horários)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA

Rua Frei Caneca, 569 – Consolação, São Paulo – Sessões: 18h / 22h

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA

Rua Augusta, 1470/1475 – Consolação – Sessões: 14h / 16h / 19h50 e 21h50

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – POMPÉIA

Rua Turiassu, 2100 – Barra Funda, São Paulo – Sessões: 13h30 / 17h30

CINE CAIXA BELAS ARTES

Rua da Consolação, 2423, São Paulo – Sessões: 14h20 / 16h20 / 20h40

RESERVA CULTURAL SÃO PAULO

Avenida Paulista, 900 – Térreo Baixo – Bela Vista, São Paulo – Sessões: 15h30 / 19h40

CINESALA

Rua Fradique Coutinho, 361 – Pinheiros, São Paulo – Sessões: 17h / 21h40



(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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