por Aguinaldo Gabarrão (*)

Na segunda década do século XIX, o Império Russo passava por importantes mudanças econômicas e sociais. Os primeiros sinais do capitalismo nascente, representado pelo desenvolvimento progressivo da indústria, exigiam uma mão de obra assalariada e mais especializada para manusear as máquinas que, gradativamente, substituíam as pequenas manufaturas. Porém, os camponeses ligados à terra, em sua maioria analfabetos, eram considerados propriedades dos senhores e nobres que impediam a formação de uma classe operária, essencial para essa indústria.

Essa situação começaria a mudar com as sucessivas revoltas dos servos e de dissidentes do antigo regime, culminando em 1861 com a aprovação da lei que abolia a servidão; embora essa medida não tenha melhorado estruturalmente a vida da classe servil, que com o tempo e a ascensão da burguesia e do capitalismo seriam absorvidas pela indústria, se tornando a classe proletária.

É nesse cenário de convulsão social que Fiódor Dostoiévski (1821-1881), escritor, filósofo e jornalista russo, escreveu “Crime e Castigo”, obra que representa um divisor de águas em sua produção literária e se tornou um dos grandes romances da literatura universal. Instigante, a história ganhou o mundo e versões para séries de TV, diversos filmes e adaptações para teatro, da qual se destaca a do diretor Kama Ginkas, que estreou em Moscou no ano de 1994 e fez curta temporada no SESC Ipiranga em 2006. Nos palcos brasileiros também foram realizadas versões muito pessoais da obra maior de Dostoiévski.

Em 2016, para comemorar 150 anos da primeira edição do livro, estreou em São Paulo a montagem teatral “Crime e Castigo – Uma vida para Ródion Raskólnikov”, uma leitura bastante particular, atualmente em cartaz no Teatro do Ator.

A difícil tarefa de adaptar uma obra literária dessa envergadura para a realidade do palco coube ao jornalista e dramaturgo Luciano Martins. No romance original de 550 páginas, escrito na terceira pessoa, Ródion é um jovem ex-estudante de direito que provoca duas mortes e, após a descoberta, é preso, cumpre um ano da pena, sendo depois posto em liberdade. Na releitura do dramaturgo, a personagem está com 64 anos e dialoga com o público ao fazer um retrospecto de sua vida e dos assassinatos cometidos por ele no passado, contra uma velha agiota e sua irmã, e as razões que o moveram para essa atitude extremada. A lembrança dos crimes, inicialmente perfeitos, transforma-se numa crescente tortura à medida que seus pensamentos de culpa o consomem até o arrependimento.

Martins consegue na transposição para o texto dramatúrgico manter a essência dos monólogos interiores da complexa psicologia de Ródion, criados magistralmente por Dostoiévski com o objetivo de explicar as razões e justificativas para que a personagem pudesse tirar a vida de duas pessoas. A opção pelo monólogo impôs a necessidade de cortar importantes personagens que ajudam a tecer o fio condutor no entendimento completo da história; porém, como toda adaptação, é preciso fazer escolhas que não agradarão a todos.

O desafio dramatúrgico impôs à direção de Carla Leoni o exercício para encontrar na encenação a adequada atmosfera angustiante que permeia o depoimento de Ródion, além de seu mal estar com o mundo em que vive. Leoni distancia-se de uma leitura absolutamente realista ao utilizar alguns signos interessantes na cenografia e adereços: duas mesas em primeiro plano estão em posições opostas e guardam livros, que se transformam em outros objetos no decorrer da ação e conferem momentos de tensão e dramaticidade no encadeamento da história. Ao fundo uma linha com presilhas atravessa o palco e, em momentos de decisão ou ruptura, o ator fixa nessa linha um quadro onde está escrita uma palavra que melhor expressa a encruzilhada mental da personagem, compondo de certa maneira, as diversas estações da via-crúcis percorrida em vida até a sua redenção.

Além dessas boas surpresas, temos a forte presença cênica do ator Marcio De Luca. Dono de uma voz potente, o intérprete de Ródion Raskólnikov tem igualmente a difícil tarefa de construir uma personagem que amadureceu com o passar do tempo, o que não há no romance original. E De Luca é convincente, empático e conduz o público nos labirintos interiores da personagem. Não bastasse isso, modula voz e corpo, dando vida a outros personagens de forma igualmente crível. Preciso no gesto e com domínio do espaço cênico, marca sua trajetória com um belo desempenho.

O mesmo não se pode dizer da iluminação. Embora cumpra o seu papel razoavelmente, ressaltando climas e enfatizando o aspecto interior da personagem, em determinados pontos do palco torna-se irregular e descontínua, deixando em alguns momentos sombras indesejáveis no ator, prejudicando um pouco o todo da encenação.

É importante ressaltar a trilha sonora que permeia o espetáculo com a “Abertura 1812” de Tchaikovsky, escrita pelo compositor para comemorar a vitória da Rússia contra o exército de Napoleão. A escolha da música dialoga com o argumento usado por Ródion para justificar seus assassinatos, ao defender sua tese de que existem homens ordinários e extraordinários, e cita como exemplo Napoleão, responsável por milhares de mortes, mas que é absolvido pela história como grande herói e conquistador. Porque ele, Ródion, também não seria absolvido pelos homens, ao matar uma agiota e livrar as pessoas do seu jugo?

“Crime e Castigo – Uma vida para Ródion Raskólnikov” é um trabalho de fôlego que resulta numa encenação concisa e de efeito cênico bastante adequado e, em vários momentos, impactante. Assista ao espetáculo, leia o romance de Dostoiévski e tente responder a si mesmo, no tribunal da consciência, a intrincada pergunta de Ródion: “O que determina os acontecimentos? Nossas escolhas ou o destino?”.

SERVIÇO:

“Crime e Castigo – Uma vida para Ródion Raskólnikov”

Classificação indicativa: 14 anos  –  Duração: 80 minutos

5ªs. feiras: 21 horas (até 18 de maio de 2017)

Teatro do Ator – Praça Franklin Roosevelt, 172 – Centro, SP (próximo ao Metrô República)

Lotação: 112 lugares  — Telefone/Informações:  3257-3207

Valor na bilheteria: R$ 50,00 (inteira) – R$ 25,00 (meia) – Sampa ingressos: R$ 21,90

Estacionamento ao lado do teatro

Teaser do espetáculo:      http://bit.ly/2qGSPlM

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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