por Conceição Lourenço (*)

Doença mental é coisa MUITO séria. Existe até o dia da desmanicomização, 18 de maio. Dia de esclarecimento, que nem sempre a internação é necessária, mas não vou falar disso agora. Uma vez, (começo dos anos 90) um parente distante que sofria de demência saiu de casa e não voltou. A Polícia não liga muito, né? Fizemos cartazes e por nossa conta fomos procurar em hospitais, IML e manicômios. Me ofereci pra ir no Hospital Dr. Pinel, em Pirituba.

Esse lugar é tão grande, tão conhecido que virou verbete. Quanto alguém não é “certo” da ideia é chamado de pinel. Cheguei lá, num lindo sábado de sol, estacionei meu Chevette dourado e fui até o guarda e contei minha história: “Um senhor, de uns 70 anos, negro de cabelos brancos e blá blá blá”. Ele me mandou entrar que “ele” iria verificar. Abriu uma porteira, eu entrei e ele fechou. Abriu outro enorme portão, eu entrei e ele fechou e me chamou pra guarita dele.

O interfone dele não estava funcionando, ele pediu pra que eu ficasse à vontade ali que ele iria lá dentro ver se havia alguém com as características que descrevi. Já havia um outro rapaz na micro guarita. Me olhou meio que com desdém e colocou o rádio no último volume. Tocava Só Pra Contrariar, pedi ao moço pra abaixar um pouco  o som e ele: “Por quê? Não gosta do Alexandre Pires?”, nem respondi, estava meio tensa, apreensiva, e fiquei olhando ao longe os doentes tomando banho de sol, alguns com atitudes débeis, coceiras exageradas.

Em seguida,  fiz um comentário com o fã de pagode: “Doença mental é a doença mais triste que existe, né?”, ele me olhou assustado e respondeu aos gritos, por conta do som alto: “Aqui ninguém tem problema mental, é uma casa de repouso”, olhei melhor pra ele… ele estava com o mesmo uniforme dos outros. Caraca ele era um interno, acho que foi um dos maiores pavores da minha vida… O guarda demorou uma eternidade (5 minutos) pra voltar,  rs. Não havia ninguém com as características de quem eu procurava lá. Fui embora tremendo … (desatenta, rs). Não, ainda não contei esta história pro Alexandre Pires…


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>

Nota da Redação: As opiniões publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. Os comentários neles emitidos não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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