por Aguinaldo Gabarrão (*)

“Teatro não é herança, é missão”. A frase dita pela atriz Angela Leal e replicada por sua filha, Leandra Leal, atriz e diretora, ilustra bem a disposição para levar adiante projetos artísticos. E a missão da diretora estreante é justamente um documentário, obra de não ficção que tem como matéria prima o fato real.

Em “Divinas Divas”, o longa que estreou nesta 5ª feira, a realidade de oito artistas pioneiras do travestismo nos anos 60, é habilmente contada desde a criativa abertura com efeitos gráficos, sobrepondo imagens que revelam o glamour de suas divas.

O filme não levanta bandeiras sobre a identidade de gênero ou mesmo questões do universo LGBT. Apresenta por meio de entrevistas, fotos e outros registros muito bem amarrados na montagem de Natara Ney, um recorte da trajetória das artistas Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios que se tornaram conhecidas no Brasil, EUA e na Europa.

Os depoimentos honestos, divertidos e, por vezes, contundentes, sem revelar qualquer sentimento de autocomiseração, esclarecem aspectos de uma luta feroz dessas artistas contra o preconceito e a hipocrisia em plena ditadura militar.

A atriz Leandra Leal, estreia na direção com segurança e brilho. Ao optar por fazer uma homenagem às artistas que conheceu quando criança no Teatro Rival, pertencente ao seu avô, Américo Leal, a diretora pôde explorar no roteiro um importante registro interior de imagens familiares, percepções e encantamento. Esse fato é percebido na fotografia de David Pacheco. Ele dá um tratamento por vezes sutil, nos momentos delicados da construção do espetáculo que comemorará os 50 anos de carreira das artistas e, particularmente, nos ensaios gerais e estreia no teatro, onde a câmera, como se fosse o olhar da menina Leandra, percorre as coxias, observa, entre tapumes, luzes e cortinas, aquele fascinante momento que antecede a entrada das artistas.

A diretora reforça esse vínculo afetivo e respeito artístico às divas, nos primeiros minutos do documentário, ao gravar um depoimento em off, acrescentado ao filme numa decisão de último momento, mas que revelou-se certeira e coerente com o resgate da memória estruturado no roteiro assinado por Carol Benjamin, Lucas Paraizo e Natara Ney e a própria diretora.

O filme já conquistou importantes prêmios: Prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular e foi eleito Melhor Documentário pelo Prêmio Felix (voltado para produções com temáticas relativas à diversidade de gênero) no Festival do Rio 2016, o Prêmio do Público da Mostra Global do Festival South bySouthwest, em Austin, no Texas e Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Direção no 11º FestAruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa.

O longa-metragem “Divinas Divas” é um tributo sensível e verdadeiro de Leandra Leal às artistas talentosas que brilham com sua arte acima de tudo.

SERVIÇO:

Divinas Divas – Duração: 01h50 min.

Assista o trailer do filme: http://bit.ly/2rKu0mo

Onde: Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca

Shopping Frei Caneca – R. Frei Caneca, 569 – Consolação, São Paulo

Sessões: 17h20 / 21h40

Espaço Itaú de Cinema – Augusta

Rua Augusta, 1475 – Cerqueira César

Sessões: 15h00 / 19h30

Caixa Belas Artes

Rua da Consolação, 2423 – Consolação

Sessões: 15h00 / 21h30

Cinearte São Paulo

Av. Paulista, 2073 – Cerqueira César

Sessões: 15h40 / 21h50


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte e nem de sua direção.

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