por Aguinaldo Gabarrão (*)

“Não estuprei, não roubei, não matei, não incendiei; infringi a sensível “sociedade” humana apenas e tão somente por meio… da minha existência”. Essa frase, extraída do diário “Na prisão”, publicado no Brasil, expõe um misto de indignação e espanto do pintor Egon Schiele (1890 – 1918), preso em 1912 pela justiça austríaca, acusado de expor quadros pornográficos em local acessível às crianças.

Sua vida e obra estão na cinebiografia que leva o nome do artista e de uma de suas principais pinturas. Focado nos acontecimentos dos últimos oito anos de sua brevíssima, mas profícua carreira como pintor, o filme tenta resgatar a importância de um artista inovador e um dos grandes expoentes do expressionismo.

Quebrar modelos ===  No início de século XX, Egon Schiele (Noah Saavedra), é um dos grandes talentos da pintura européia. Provocador e boêmio, sua obsessão é pintar adolescentes e meninas nuas, entre elas, a sua irmã Gerti (Maresi Riegner). Isso causará a indignação da sociedade de sua época, grandes problemas com a justiça e o amor de Wally (Valerie Pachner).

Todos os ingredientes são dignos de uma vida explosiva, vivenciada no limite. E o filme não ameniza esses aspectos, embora não consiga transmitir a alta voltagem da obra de Schiele.

As mulheres retratadas ===  A trajetória do pintor é contata em flashbacks. A roteirista Hilde Berger constrói a história em recortes temporais, e tem por referência o ano de 1918, marcado pelo final da guerra, o avanço da gripe espanhola e os últimos momentos de vida de Schiele.

O roteiro destaca a importante relação de Egon com algumas das principais mulheres que influenciaram suas obras: a sua irmã Gerti, uma das primeiras adolescentes retratadas em seus desenhos e quadros, de quem ele se torna tutor; e a jovem Valerie (Wally) Neuzil, também modelo de várias de suas mais importantes obras.

A prisão e o diário === Porém, as escolhas do roteiro, enfraquecem a história e a compreensão da obra de Egon ao não dar ao episódio da sua prisão o merecido destaque. Há o julgamento e apenas a narração de que ficou preso. Mas, é exatamente esse fato que influenciará profundamente a sua futura produção pictórica.

Tamanho impacto foi seu encarceramento injusto, que ele escreve o diário “Na Prisão”, depois transformado em livro, e nele diz de forma contundente: “… Tenho de viver entre meus próprios excrementos, respirar odores venenosos e sufocantes. Não estou barbeado – não consigo nem sequer me lavar decentemente. Mas sou um ser humano!”

Produção de peso ===  A direção de arte é impecável: reconstrói com grande realismo a Europa dos primeiros anos do século XX. Tudo é meticulosamente ordenado. O casting, por sua vez, tem no ator Noah Saavedra (Egon) um desempenho adequado.  Mas, o diretor Dieter Berner acerta decisivamente na escolha das atrizes Maresi Riegner (Gerti) e de Valerie Pachner (Wally), está última de grande talento e dona de um rosto cinematográfico belíssimo.

Sendo ou não intencional, esse protagonismo das mulheres na cinebiografia de Egon Schiele, nos faz pensar quanto a força feminina, que tão bem norteou a vida do jovem e talentoso pintor, ajudou a produzir obras que até hoje surpreendem e causam furor, menos pelo erotismo e mais por retratarem a obscenidade de se viver num mundo cruel, com fome de amor, tão bem expressa na pintura “A Morte e a Donzela”.

Assista ao trailer do filme:

 FICHA TÉCNICA

EGON SCHIELE: MORTE E DONZELA – (Título original: Egon Schiele: Tod und Mädchen) – Distribuição: Cineart Filmes

Direção: Dieter Berner / Roteiro: Hilde Berger e Diete Berner / Direção de Fotografia: Carsten Thiele / Direção de Arte: Götz Weidner, vsk / Trilha Sonora: André Dziezuk / Figurino: Uli Simon / Montagem: Robert Hentschel / Produção: Alexander Glehr e Franz Novotny

Elenco: Noah Saavedra, Maresi Riegner, Valerie Pachner, Larissa Aimee Breidbach, Marie Jung, Elisabeth Umlauft, Thomas Schubert, Daniel Sträßer, Cornelius Obonya, André Jung, Nina Proll, Wolfram Berger  e Luc Feit

Gênero: Drama / Duração: 1 hora e 40 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 18 anos / País: Áustria / Ano de Produção: 2016

Lançamento: 19 de Julho de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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