da Redação DiárioZonaNorte

<< Em primeira mão >> === No papel,  tudo  é mais convincente.  E  se torna um documento. Palavras são mais diretas, quando se tem argumentos. Mas, por outro lado,  o silêncio é um instrumento que pode levar às consequências desagradáveis para o emissor e o receptor – talvez em escala maior àqueles que são dependentes de serviços educacionais.

É justamente isto que vem acontecendo nas relações com a  UniSant´Anna,  pioneira instituição  de ensino particular da Zona Norte,  que atravessa uma séria crise administrativa e financeira.  Em  seus 85 anos de existência, sendo 47 anos no ensino superior, é  a  segunda má fase na sua história atual – algo um pouco mais suave  com solução rápida aconteceu em 2011/2012.

Os salários de professores e de funcionários estão em atraso há sete meses, criando uma situação caótica e preocupante para os aproximadamente 1.500 alunos da Unidade Santana que ficam sem aulas de várias disciplinas.  Segundo cálculos, a instituição chegou a ter no último ano  mais de 3 mil alunos, com o agravamento da crise vários se transferiram para outras instituições e outros desistiram dos cursos. A faculdade também enfrentou os  cancelamentos de convênios com empresas  e programas governamentais no meio do ano, dificultando o encerramento de cursos em 2017 ou a continuidade dos mesmos em 2018.

O PROTESTO  === O endereço oficial da UniSant´Anna é na chamada “baixa Santana”, ali no decadente e perdido trecho da rua Voluntários da Pátria, na ponta da Marginal Tietê. Em uma área de 70 mil metros quadrados, dois prédios interligados em quatro andares concentram muitas salas de aulas;  à sua frente, do outro lado da rua, mais um prédio com quatro andares faz o complemento das salas de aulas; e, mais adiante, um outro enorme prédio de seis andares (no último há um grande auditório com mais de 200 lugares) deveria abrir mais espaço para alunos, mas está ocioso, fechado com as luzes apagadas. Neste último prédio, houve até propostas de compra (ou mesmo aluguel) de uma grande empresa na área de saúde, que não foi adiante.

E entre esses três prédios da instituição, cerca de 80 pessoas – entre muitos alunos, alguns poucos professores mais corajosos e nenhum funcionário pelo medo do desemprego (mesmo não recebendo salários ou a 1ª parcela do  13º salário) – estiveram reunidos nesta 4ª feira (22/11/2017),  por duas horas, em flagrante protesto nas razões da situação atual.  Um pequeno carro de som transformado em cima de uma Fiorino, cedido pela União Geral dos Trabalhadores (UGT), deu  voz ao  protesto.

Guilherme Bianco, representante da União Nacional dos Estudantes (UNE), com o microfone sem fio em punho deu  o pontapé para os protestos.  “Estudantes na rua, reitoria a culpa é sua!” e “a gente quer ter aula”, eram os refrões entoados.  O trânsito na rua  foi fechado, congestionando o trecho da Marginal Tietê.  Os manifestantes, sem faixas e sem cartazes, sentaram-se no asfalto, enquanto outros revezavam no microfone com diversos recados da insatisfação de todos. Em outros momentos, gritava-se repetidamente “Fora Betânia, Fora Betânia!” em referência à Pró-Reitora Administrativa Maria Betânia Placcuci Bari.  O protesto seguiu pela Marginal do Tietê e terminou por volta das 21h45, no outro extremo do campus, passando pela Ponte das Bandeiras, sempre com palavras de ordem contra a atual administração.

OS PROFESSORES NO APERTO === O protesto foi antecedido por  um abaixo assinado e uma convocação geral e tentativas de diálogo, sempre esbarrando na equidistância da direção da UniSant´Anna. Fato que o  gabaritado corpo docente com anos de trabalho e  de reconhecimento dos alunos, teve que ficar calado diante de uma situação de crise visível para todos.  “Eles engoliram o choro”, definiu um aluno ao ver a situação.

SINDICATO == O Sindicato dos Professores de São Paulo – Sinpro-SP (ligado à faculdades e universidades) em uma das últimas intervenções em 13 de setembro divulgou o comunicado: “Professores da UniSant’Anna mantêm greve ==  Reunidos em assembleia em 13 de novembro, os professores da UniSant’Anna decidiram por manter a greve até o dia subsequente à universidade quitar a 2ª parcela da dívida trabalhista (saldo do salário de março, junho e férias de julho).  Na reunião, os mantenedores apresentaram uma proposta e prometeram efetuar o pagamento do saldo devedor até 21/11. Originalmente, a mantenedora deveria pagar a 2ª parcela da dívida em 12/10, como foi acordado no Tribunal Regional do Trabalho. Mesmo este prazo tendo sido estendido por duas vezes, a pedido dos patrões, a UniSant’Anna não cumpriu o que prometeu.  Já a respeito do salário de outubro, que permanece em aberto, a universidade garantiu que irá a depositá-lo até 24/11. O não pagamento implica em retorno imediato à greve. Também na assembleia, os professores decidiram que não realizarão novas assembleias até o final do ano letivo. Logo, caso os prazos apresentados não sejam cumpridos, bem como as datas previstas para os demais pagamentos, a paralisação será retomada automaticamente. A decisão é definitiva”. A propósito, a última promessa da instituição vence neste 24 de novembro, o que não é esperado que seja cumprido.

AS JUSTIFICATIVAS  === O clima  é péssimo  e não se tem retorno da Diretoria da Uni Sant´Anna para o impasse.  “Todo mundo está ciente das dificuldades, não custa nada criar um diálogo com os alunos, professores e funcionários. E, a partir daí, uma solução que ajude a todos.”, comenta Jorge De Brito, que está no 6º semestre de História, na expectativa que encerraria o  curso neste ano.  Mas, segundo ele, surgem justificativas que até agora não foram  cumpridas. Uma delas: “temos um terreno que está sendo negociado para conseguirmos os acertos”,  segundo comenta João Paulo de Assunção, que tenta dar sequência ao 4º ano de Geografia. Quem está na reta final dos cursos tem outro problema sério: como concluir se as aulas não foram dadas  e nem tiveram grupos para abrir o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), nem mesmo sabem de reposição de aulas – pelas faltas e greve dos professores. “O ano está terminando e o nosso tempo já se foi, como faremos? E quais são as nossas perspectivas para o ano que vem”, comenta João Paulo.

AS VÁRIAS RECLAMAÇÕES === Quando se puxa uma pena, atrás vem uma galinha. É o que se pode concluir da situação atual da UniSant´Anna. A tal ponto crítico, que surgem outros problemas. Nesta sequência, o site de reclamações de consumidores  Reclame Aqui  apresenta vários depoimentos e reclamações de alunos contra a UniSant´Anna, sendo a principal contra a  empresa terceirizada responsável pelo recebimento das mensalidades e que sistematicamente faz cobranças de débitos já pagos, por não ter controle nos recebimentos, mesmo após o envio de comprovantes de quitação.   Outras reclamações são sobre cursos que ainda não obtiveram o  reconhecimento do MEC, como o de Gestão de Tecnologia da Informação (T.I.).

REGISTROS NO MEC  === A UniSant´Anna registrou no MEC um enorme leque de opções em dois campi (Santana e Aricanduva) com mais de 50 cursos (manhã e noite) entre tecnólogos (2/3 anos) e bacharelados (4/5 anos) em várias áreas.  No meio destes, cursos tradicionais como História, Geografia, Matemática, Engenharia Civil, Jornalismo, Educação Física, Enfermagem, Turismo, Ciências Sociais.  Curiosamente não houve o clássico Curso de Direito na grade da instituição. O MEC também autorizou  a UniSant´Anna a realizar  cursos na modalidade EaD- Ensino à Distância. < Mais detalhes dos cursos– clique no link: http://bit.ly/2ztaO4l >

AUDIÊNCIA PÚBLICA === O assunto foi encaminhado ao deputado estadual Prof. Carlos Giannazi (PSOL), que oficiou  à Defensoria Pública para que acompanhe a  Audiência Pública marcada para o dia 30 de novembro (5ª feira), às 19 horas, no Auditório José Bonifácio da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) – com transmissão direta pela Tv Alesp. Neste encontro, serão discutidas providencias junto ao Ministério Público Estadual, Secretaria Estadual da Educação e o Ministério da Educação, que será debatido com os alunos, professores, funcionários e representantes de sindicatos.

O OUTRO LADO ===  O DiárioZonaNorte, segue rigorosamente a  ética jornalística e tentou vários contatos com a  Reitoria da UniSant´Anna na  noite de 4ª feira (22/11/2017), não obtendo sucesso. Na manhã de 5ª feira (23/11/2017), depois de várias tentativas por caminhos  não oficiais,  recebeu o retorno de Maria Betânia Placcuci Beri que fez contato direto no trânsito e pediu dez minutos para retornar a ligação, quando chegasse à instituição, onde daria as explicações necessárias.

Neste interim, houve uma mensagem de uma das  secretarias (identificando-se como Assessoria de Imprensa) informando que seria encaminhado um comunicado oficial da UniSant´Anna, via e-mail,  que reproduzimos na íntegra: “ A UniSant’Anna, em seus mais de 85 anos dedicados à educação, vêm por essa informar que, em meio à instabilidade econômica que atinge todos os seguimentos do mercado nacional, tem adotado um conjunto de medidas visando seu equilíbrio financeiro, para se adequar ao atual e desafiante cenário econômico brasileiro. Esclarece ainda que está se mobilizando diariamente para reunir todas as condições para a eliminação dos problemas vividos e que em breve tudo voltará a sua normalidade. Aproveitamos para nos colocar à disposição de todos para outros esclarecimentos que se fizerem necessários. (a) Instituto Santanense de Ensino Superior”.

A PRÓ-REITORA SE MANIFESTA  ==  Seguindo a mesma linha do comunicado oficial, a Pró-Reitora Administrativa, Maria Betânia Placcuci Beri,  ligou para a redação do DiárioZonaNorte   e confirmou  que “há sim um problema de fluxo de caixa e que está sendo resolvido” e que os mantenedores estão  buscando recursos através de seus patrimônios – como um terreno que está em fase final de  negociações. Ela lembrou da situação econômica que passa  o país e uma sentença favorável dada pela justiça, que reconhece os 20 anos de atuação filantrópica da instituição – o que reflete diretamente na redução do passivo fiscal da instituição.

Também lembrou  a entrada de grupos internacionais, no mercado de educação superior, que operam com métodos que priorizam a quantidade e não a qualidade do ensino,  “com métodos diferentes”,  desequilibrando a  concorrência de  mercado e que acabaram afetando a saúde operacional da UniSant´Anna.   Com a desativação do Pronatec, a instituição teve uma queda muito grande com mais de oito mil alunos. Maria Betânia garantiu que “vamos equilibrar a situação financeira e o problema será resolvido nos próximos dias”.  E bastante enfática: “Vamos resolver tudo o quanto antes for possível e nenhum aluno terá prejuízos!”. E alimentou esperanças que a instituição sairá desta situação e há projetos para o futuro, no aproveitamento do local.

 

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