por Aguinaldo Gabarrão (*)

Recentemente, um caso de estupro em transportes coletivos na cidade de São Paulo chamou a atenção menos pela brutalidade da ação vergonhosa de um homem e mais pela resposta da justiça de São Paulo, em não considerar abuso sexual uma ejaculada no pescoço de uma mulher. No dia seguinte, o mesmo cidadão (com histórico de estupros) fez nova investida contra outra mulher também num ônibus, e foi preso porque houve a caracterização da violência ao ter “segurado” e forçado a vítima.

“… eles (homens) duvidam de você, de nós, o tempo todo”

A partir dessa situação, não se pode deixar de fazer algumas perguntas: o que é um abuso sexual no entendimento de homens que escrevem leis, as interpretam e executam? Qual é o entendimento do homem comum? E, por fim, qual a opinião da mulher, em última análise a vítima maior e voz relegada a segundo plano nessa terrível situação que assola nosso país e o mundo?

Outras questões podem ser formuladas, mas o sentido dessa violência muda, que possui rosto e digital, é respondido no espetáculo “Enquanto Ela Dormia”, peça que lança luzes renovadas na tratativa do abuso sexual feminino.

“Ele invadiu o corpo dela”

A peça conta a história de Dora, uma professora de literatura, que, após presenciar uma cena de estupro num ônibus, passa a trazer à tona seus próprios traumas, recalcados por conta de uma sociedade eminentemente patriarcal.

O texto escrito por Carol Pitzer surgiu a partir dos relatos de uma amiga, o que a motivou a escrever esse texto no período em que foi aluna do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council, coordenado por Marici Salomão e César Baptista.

A obra não é linear: pensamentos, situações, vivências da personagem Dora são resgatadas paulatinamente e organizadas de forma coerente e precisa. Sua voz interior, sufocada pela necessidade mesma de sobrevivência num mundo masculino, eclode e revela na palavra escrita, nas fotografias e na memória do seu corpo, toda a sorte de angústias e sentimentos repisados. O efeito poético é brutal, pois ressalta essas várias formas de dominação que a mulher sofre, entre outros, ao elencar os signos dos contos de fada e cantigas populares, delicados na forma, mas repletos de mensagens subliminares de subjugação e violência contra o gênero feminino.

“A princesinha tá dormindo?” – “Eu nunca mais fechei a porta para dormir”

Não bastasse a maturidade da carpintaria do texto, a cenografia, figurino, iluminação, vídeo e trilha sonora chegam a uma interação perfeita. Não há excessos. O uso do elemento água na cenografia tem por vezes o papel do inconsciente e, em outros momentos, ressignificado como a geratriz da vida, o reencontro de Dora consigo mesma.

A atriz Lucienne Guedes transfere a força do discurso para o corpo, memória dos registros sensoriais de Dora. Assim, em diversos momentos, contempla-se a atriz em posturas antinaturais que desafiam o sentido de equilíbrio, metáfora da personagem na luta para encontrar o seu próprio eixo. Sua voz, em tom sereno no início, quase confessional, assume gradativamente as potências necessárias para o que ainda precisará enfrentar e que culminará num momento ímpar, de ruptura, onde cada espectador é convidado a participar como testemunha dos sentimentos de Dora, revelados em camadas, das mais profundas e dolorosas.

A concepção e direção são de Eliana Monteiro. Em sua linha de trabalho propôs o estudo de três eixos temáticos que norteiam sua encenação: os contos de fadas, as histórias de amputações, às quais as mulheres foram submetidas para conviverem numa sociedade de obediência ao homem, e as memórias de uma história de amor.

Graças a essas escolhas, sua encenação torna-se afinada, com resoluções cênicas criativas e que tocam a sensibilidade do público, além de estar em pleno equilíbrio com o impulso criador da dramaturgia de Carol Pitzer.

“… o senhor conhece a história do meu sobrenome?”

O corpo de Dora é sua própria história e ele se relaciona ao passado e reverbera suas memórias no presente, assim como de tantas outras mulheres que, em algum momento, sentiram o peso da ingerência masculina em suas vidas.

O espetáculo “Enquanto Ela Dormia”, como disse a própria autora no programa da peça, “… é para homens e mulheres.” E completa: “… Penso que já passou da hora de tomarmos nossas narrativas em nossas mãos e contá-las a partir do nosso ponto de vista, apontando novas perspectivas para velhas histórias”.

E, também nesse aspecto, o espetáculo “Enquanto Ela Dormia” cumpre esse papel brilhantemente.

NOTA: ao terminar o texto desta crítica, estava sendo noticiado na TV mais um caso de estupro, dessa vez num ônibus em São Bernardo do Campo.

Assista ao teaser do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=tdaTHqX8BD4

Fanpage do espetáculo: www.facebook.com/Enquanto-Ela-Dormia-472675723094987/

Ficha Técnica

Concepção e Direção: Eliana Monteiro / Atriz: Lucienne Guedes

Texto: Carol Pitzer / Dramaturgismo: Antonio Duran / Assistente de Dramaturgismo: Bruna Menezes / Desenho de Luz: Guilherme Bonfanti / Assistente de Iluminação: Aldrey Hibbeln e Danielle Meireles / Operação de Luz: Aldrey Hibbeln / Cenografia: Marisa Bentivegna / Assistente de Cenografia: Amanda Vieira / Cenotécnicos: Cesar Rezende Santana (Basquiat), Fernando Lemos Silva, Ricardo Oliveira e Zito Lemos / Figurino: Marichilene Artisevskis / Trilha sonora: Erico Theobaldo / Vídeo: Bruna Lessa / Voz off: Antônio Duran e Cibele Bissoli / Costureira: Judite Gerônimo de Lima / Operação de Som: Tomé de Souza / Video Mapping: Michelle Bezerra

Produção Executiva: Andrea Pedro / Assistente de Produção: Leonardo Monteiro

Assessoria de Imprensa: Márcia Marques – Canal Aberto

Designer Gráfico: Luciana Facchini / Fotos: Mayra Azzi / Supervisão Geral: Eliana Monteiro / Realização: SESI-SP 

SERVIÇO: 

Enquanto Ela Dormia

Onde: Mezanino do Centro Cultural Fiesp (Avenida Paulista, 1313 – em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)

Quando: de 2 de agosto a 22 de outubro de 2017

Horários: 4ª feira a sábado, às 20h30, e domingo, às 19h30

Duração: 70 minutos –Classificação: 16 anos – Lotação: 50 lugares

Ingressos: GRÁTIS. Reservas antecipadas de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br. (Ingressos remanescentes serão distribuídos no dia do espetáculo, de acordo com o horário de funcionamento da bilheteria (4ª feira a sábado, das 13h às 20h; domingo, das 11h às 19h30).


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

Natal Center Norte 2018

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora