por Aguinaldo Gabarrão (*)

O mito em sua gênese tem a semente de muitas verdades. Mas também tem a força de se sobrepor à própria realidade. Busca explicar o mundo, seus fenômenos e suas relações com a humanidade. Vincula-se também ao rito – conjunto padronizado de ações – e dele extrai os elementos do imaginário humano. Mas também essa palavra pode ser usada para nomear e tentar entender figuras públicas que causaram grande impacto junto às massas. E uma dessas personalidades sem dúvida foi Eva Peron (1919 – 1952), a carismática mulher do então presidente argentino Juan Domingo Peron (1895 – 1973), morta a mais de seis décadas.

“Nossa Senhora da Esperança”

Conhecida pelo povo como “Evita”, a “mãe dos pobres” teve uma trajetória meteórica. Adorada e cultuada em vida por sua política assistencialista, foi o “demônio” para uma parte das oligarquias argentinas e também da esquerda, que não a perdoava por mandar reprimir greves contra o governo de seu marido. Após a morte da esposa, aos 33 anos, Peron ordena que seu corpo seja “… embalsamado para a eternidade” e colocado na sede da CGT para homenagens e culto à personalidade da “Santa Evita”, como muitos a tratavam sob a aprovação e estímulo do governo peronista.

“… 25 anos para apanhar uma mulher” 

Esse campo movediço do mito associado ao culto à personalidade foi trilhado pelo diretor argentino Pablo Agüero (sim, é a crítica de mais um filme dos hermanos) para contar sem as amarras da história, a assombrosa destinação do cadáver embalsamado de “Evita”, roubado três anos após a sua morte pelos militares que depuseram Peron. O corpo foi ocultado, posteriormente levado em segredo para a Europa, sob apoio do Vaticano e enterrado num cemitério de Milão. Foi repatriado em 1974 no governo de Isabelita, que ocupou a presidência da Argentina após a morte de Peron.

“… esse corpo de mulher linda como a morte”

O diretor assina também o roteiro e estabelece em sua narrativa três episódios cruciais da vida política argentina, recriados de maneira alegórica e mítica, mas com um pé na realidade ao acrescentar trechos de documentários da época, que retratam as convulsões sociais e políticas, além do fascínio das massas exercido pelo discurso sedutor de Eva Peron.

O primeiro episódio é “O Embalsamador” (Imanol Arias) e apresenta a relação de adoração do criador com sua criatura: o médico que durante um ano cuidou do processo de embalsamamento do corpo de “Evita”. Como se fosse um escultor, ele lapida cada detalhe de sua obra maior na vã intenção de driblar a morte.

O segundo e mais interessante episódio, é o “O transportador” (Denis Lavant), e conta a história de um militar responsável por conduzir e ocultar o corpo sem despertar suspeitas. Durante a operação ele recebe a ajuda de um jovem recruta e se estabelece um diálogo inteligente que reflete a luta política e de poder entre gerações diferentes de militares.

O terceiro e último episódio “O Ditador” recria o seqüestro em 1970 do ex-presidente Argentino, o general Aramburu, responsável pela derrubada de Peron e por ordenar o seqüestro do corpo de Evita.

“O mundo todo chorou por ela”

O ator Gael García Bernal é o almirante Massera, militar que passou parte de sua vida promovendo golpes, conspirações e torturas. É um homem obstinado em conduzir o corpo da ex-líder dos pobres para a sua morada definitiva no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires e, dessa forma, tentar definitivamente apagar da memória dos argentinos, a perigosa “Evita”.

A cadência do filme, arrastada em alguns momentos, não perde tempo com cronologias. Recria a realidade numa atmosfera soturna, em ambientes fechados, claustrofóbicos e subterrâneos, numa clara alusão ao inconsciente do povo argentino, mergulhado nessa atmosfera de tensão política e social que assola há tantos anos o continente portenho. Marca definitivamente esse clima sombrio a fotografia esmerada de Iván Gierasinchuk. Ele utiliza uma palheta de cores frias, tão frias quanto o corpo inerte de Eva Peron.

O que se vê nesse filme é uma forte alegoria do poder do mito e da manipulação para a manutenção do status quo. E a preservação do corpo da “santinha pagã” reafirma o que disse o falecido escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez a esse respeito: “… a necromania é coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”.

Assista o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=Qr1dr39lj7k

FICHA TÉCNICA

Eva Não Dorme – Direção e Roteiro: Pablo Agüero

Elenco: Daniel Fanego, Denis Lavant, Gael García Bernal, Imanol Arias

Fotografia: Iván Gierasinchuk

Gênero: drama – Duração: 85 minutos

Classificação indicativa: 12 anos – País: Argentina – Ano de Produção: 2015

 

SERVIÇO

Onde:   Caixa Belas Artes – Sala Oscar Niemeyer –  Rua da Consolação, 2423 – Consolação              Telefone: (11) 2894-5781

Sessões: 16h20 / 20h30 – Lotação: 132 lugares – Horários: 19h440

Clientes CAIXA têm 50% de desconto no seu ingresso. Apresente seu cartão do banco.

Itaú Cinemas – Shopping Frei Caneca (Sala 05) – Rua Frei Caneca, 569 – Consolação

Capacidade: 98 lugares (3 cadeirantes + 1 obeso)

Clientes Itaú com cartão Itaucard (50% de desconto no seu ingresso). Clientes Itaú Personnalité (50% de desconto no seu ingresso e acompanhante).

Em todas as salas o filme é legendado. Confirme o horário.


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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