Um tipo de apito mais agudo e intenso soa no meio da rua. É mesmo para chamar a atenção e avisar que o “amolador de facas” está chegando às ruas da Zona Norte. É o Sr. Arlindo Pires Barbosa. “É o pessoal brinca comigo, na gozação, lá vem aquele ‘amolador’…”, comenta o Sr. Arlindo. Mas ele tem orgulho da profissão, que praticamente está extinta.

Não é como antigamente, que era comum as pessoas terem principalmente facas de boa qualidade – na maioria, importadas da Alemanha ou da Suiça – e que duravam uma eternidade. E, segundo o Sr. Arlindo, hoje nem quase existe mais concorrência. É também um trabalho cansativo e com pouco retorno.

Com os seus 60 anos de idade, o Sr. Arlindo anda por mais de 50 ruas diariamente, que nem imagina o que significa isto em quilometragem. E até brinca, “nem preciso me preocupar em fazer ginástica em academia, pois já tenho as minhas caminhadas”.

DE JALES PARA SÃO PAULO == Ele nasceu no interior paulista, em Jales, a quase 600 quilômetros da capital. E aos 9 anos já tinha a profissão de “amolador” . E depois a família teve que mudar-se para Jundiaí. Neste período, ele estudava e fez cursos técnicos, sendo mais tarde admitido na profissão de eletricista na Companhia Paulista de Força e Luz – CPFL, em Campinas.

E lá ficou por 20 anos e teve que sair da empresa por causa da saúde de uma das filhas, que precisava de tratamento médico com urgência e ele usou todo o seu dinheiro da indenização trabalhista. “Não tinha jeito, eu precisa do dinheiro e a saúde da minha filha era mais importante”, acrescenta ele.

O Sr. Arlindo não demonstra cansaço e está sempre atento à sua freguesia fixa pelas ruas. Sabe onde está a sua cliente, fala o nome e reconhece a casa. Conversa sempre ali no portão da casa, na calçada, montado em cima de uma máquina de amolar.

FERRAMENTA DE TRABALHO === Na verdade, ele montou tudo em cima de uma bicicleta desmontada e que transformou algumas partes para o giro do eixo no “rebolho” (onde fica a pedra de amolar). Ele continua morando em Jundiaí e de lá vem todos os dias para São Paulo, no trem com viagem de duas horas e meia. Sai de lá às 6 horas da manhã e chega em São Paulo por volta das 08h30.

No Tucuruvi, por volta das 9 horas, retira a “máquina de amolar”, que fica guardada na casa de um amigo. E o seu apito começa a soar pelos bairros do Tucuruvi, Parada Inglesa, Jardim Brasil, Jaçanã e muitos outros. Ele chega até a percorrer as ruas de sua freguesia no Horto Florestal, onde escolhe uma dia da semana exclusivamente para ficar o dia inteiro naquela região. Normalmente o seu trabalho termina por volta das 16 horas, retornando à sua casa por volta das 19 horas.

Mas com o seu jeitinho de caipira, ele tem muita honra de nascido no interior de São Paulo e é fã de música sertaneja, quando consegue um tempinho para ouvir nos finais de semana. E de preferência as antigas duplas como Pena Branca&Xavantinho, Tonico&Tinoco, Vieira&Vierinha e tantos outros.

O JEITINHO DO INTERIOR == E lá em Jundiaí tem a sua casa com as suas “hortinhas”, que ele mesmo planta e sabe que é tudo natural e saudável. Tem alegria de ver – “e brincar nos finais de semanas – com os seus quatro netos e ter uma das suas filhas como cabeleireira em um shopping de Campinas, “onde tira bem para o sustento da família”.

O tempo vai passando, o Sr. Arlindo não quer ficar parado. Quer andar, tocar o apito e levar a vida nesta profissão, onde ainda tira um pouco pela sobrevivência, já que não tem aposentadoria. Uma tesoura, uma faca, um alicate… e por aí vai indo com as suas clientes, de rua em rua. Ele cobra 5 reais por peça amolada. “É… preciso andar muito, muito mesmo, para tirar alguma coisinha até o final do dia”, esclarece o Sr. Arlindo.

ÀS ORDENS == E quem precisar de um serviço bem feito e de responsabilidade é só vê-lo pelas ruas da Zona Norte. E ele se preocupou em não ficar fora da “modernidade” e no bolso de sua jaqueta verde, um celular de número 9-9594.0704 pronto para ser atendido. E aqui termina o perfil de um importante personagem da Zona Norte, que “ama essa região”

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