por Conceição Lourenço(*)

=== Neste sábado eu tinha uma pauta, logo cedo. Tudo bem, estou acostumada a trabalhar de fim de semana. Acho estranho quando fico em casa. O motorista chegou, pra me pegar, 6:30h, tudo bem. Não o conhecia, mas era risonho, simpático, sotaque nordestino, foi logo me cumprimentando de Ano Novo, cheio de assuntos, um “fofo”.

Partimos para pegar o fotógrafo para depois irmos para o trabalho, propriamente dito. Eu, como de costume, entrei no carro e comecei a ler o jornal, e ele: “Dona Conceição, a senhora tem o endereço do local aí, eu marquei, mas perdi o papel. Também um lugar de nome estranho, esquisito, vixe…”.

E procurava, procurava… saquei o endereço da bolsa, li e disse, tranquila: “Não tem nome estranho, não, é Rua Feitiço da Vila. A referência é Rua Luar do Sertão. É fácil lembrar esses dois nomes”. Mas ele ficou emburrado, do nada. Murmurava: “Feitiço, feitiço, onde já se viu?”.

Chegamos à casa do fotógrafo que logo veio. O motorista era tinhoso, paraibano, deve ser machista, reclamou pro fotógrafo, quis desabafar com um homem: “Vamos numa rua de nome esquisito…”. O fotógrafo totalmente zen e apaixonado estava mais preocupado de ter saído de casa sem aliança. A namorada iria acordar e achar aliança dele no banheiro. “Não, não vamos voltar por isso”, fui logo dizendo.

Liguei o Waze e lá fomos nós pro Capão. De repente me caiu a ficha, a palavra “feitiço” incomodava o motorista evangélico. Ri por dentro e expliquei pra ele: “Este título é de uma música linda do compositor Noel Rosa. Nada a ver com macumba ‘- quis falar assim-’, fica sossegado. A letra fala que ele gosta tanta desta Vila, Vila Isabel, a mesma de Martinho da Vila, que ele se sente hipnotizado, apaixonado.

Tem até uma parte da letra que diz assim ‘a Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem. Tendo o nome de princesa transformou o samba num feitiço descente que prende a gente’ é linda essa letra.” E desandei a cantar, o fotógrafo batucando, meio fora de compasso, nervoso por conta da aliança.

O motorista nervoso com a música, com o nome da rua, começou a errar o Waze. “Vire à direita”, ele entrava à esquerda. Adoro cantar e me empolguei, até porque a viagem era longa kkkkkk. Enfim, gracinhas à parte, me dei conta que ele era um fanático religioso que não conseguia reconhecer uma paixão do genial Noel Rosa.

Precisamos ter cuidado com preconceito. Precisamos ter medidas. Precisamos conhecer a história. Minha história é assim: papai evangélico de nascença, conheceu minha mãe, católica, Filha de Maria. Ele jurava que estava trabalhando como policial e a conheceu num baile, em Ribeirão Preto.

Passado o tempo necessário, nas proximidades do casamento, ela queria se casar na igreja católica. Só se casaria na igreja católica. Ele, que não ia perder uma preta daquela, concordou em se batizar. O batismo dele foi 15 minutos antes do casamento, na Igreja de Santo Expedito, no bairro da Luz.

Tanto que o padrinho de batismo dele, é o mesmo de casamento deles. E mamãe foi a madrinha. Compadre Aloísio. Cresci assim, entre as tias evangélicas fanáticas e a família católica da mamãe. Pra mim é tudo natural. Gosto de gente. E mamãe, como boa brasileira, adorava o kardecismo também.

Então. Voltando ao trabalho, nossa rua de referência era Luar do Sertão. Não cantarolei (“não há o gente o não luar como este no sertão”), mas também gosto muito. O mais curioso é que o fotógrafo mora na Rua Cancioneiro Popular, no Morumbi/Brooklin, este nome o motorista não estranhou.

Só sei que, quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila em abraçar o samba, que faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo… Tive vontade de dizer a ele para que, quando fosse ao Rio de Janeiro, visitasse a Vila Isabel, Rua Vinte Oito de Setembro e visse que nesta rua a calçada é toda bordada com as partituras das músicas de Noel, o poeta da Vila. Olha, já corri mundo e essa calçada é uma das coisas que mais me emocionaram na vida.


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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