por Aguinaldo Gabarrão (*)

(…) “Quem não tem o seu iate / Sobe o rio de jangada / Balança povo… / Quem tem fome come muito / Mas há quem não come nada”.

(…) “Todo dia tudo aumenta / Ninguém pode viver de ilusão / Assim eu não posso ficar, meu compadre / Esperando meu patrão / E a família lá em casa, sem arroz e sem feijão”.

Esses trechos são das músicas “Balança Povo” (1972), do sambista Martinho da Vila, e “Que trabalho é esse?” (1982), dos compositores Zorba Devagar e Micau, esta última interpretada magistralmente por Paulinho da Viola. Ambas são composições contagiantes, que divertem gerações há muitos anos; paradoxalmente, são registros da crueldade que demarcam a opressão e o que dela deriva: as várias formas desagregadoras da fome.

Além dessas músicas, citações de autores acadêmicos e da literatura ficcional, trechos de reportagens, mapas, poesias, documentários, provérbios e discursos são pinçados oportunamente para compor a dramaturgia documental do espetáculo Fome.doc – Ensaio sobre a necessidade e a liberdade, o projeto mais recente da Kiwi Companhia de Teatro. Fundada em 1996, tem em seu currículo quinze montagens e alguns prêmios, além de ter sido agraciada cinco vezes com o Fomento ao Teatro na cidade de São Paulo.

“O primeiro capital do homem foi o próprio homem” –  Coerente com seu objetivo de propor a construção do pensamento crítico do espectador e, portanto, da sociedade, o processo criativo do grupo é direcionado à exaustão para firmar posição clara e combativa quanto às formas de distorção social que provoquem a desumanização. Sob esse aspecto, vê-se que a dramaturgia, assim como a montagem (sob a responsabilidade de Fernando Kinas), caminha o tempo todo para demonstrar de forma didática e, por vezes, repetitiva, os mecanismos neoliberais da barbárie mercantilista em sua infraestrutura material, no controle dos meios de produção, distribuição e consumo de alimentos.

A fome no sentido material ou metafórico é multifacetada em quatro recortes históricos importantes para defesa da tese do grupo: a tragédia indígena, a herança maldita da escravidão, o holocausto judeu e a política neocolonial.

“Casa é onde não tem fome. Se tem fome, é só teto” –  O grupo não faz concessões, neste espetáculo, para a dramaturgia ficcional. É teatro documentário, erguido por meio de registros e fontes históricas do passado e do presente para construir e afirmar sua linha de raciocínio. O tom é jornalístico, pautado no uso de tecnologias (projeções de filmes, por exemplo), mas não deixa de lado a condição de ser um espetáculo teatral com os diversos signos próprios da encenação. Um exemplo dessa teatralidade são as marionetes com semblantes expressionistas. Elas representam uma família aviltada em seus direitos elementares, por conta de políticas governamentais desastrosas para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no estado do Pará.

Estão tingidas da cor do barro, metáfora da terra que os verdadeiros donos perderam ao serem desapropriados, e potencializam o depoimento racional dos atores, que descrevem as causas e efeitos dessa ação desumana. O conjunto de fatos documentais narrados, associado ao elemento cênico, permite a fruição do público em nível mais elevado e impregnado de absoluta consternação.

“Em uma mesa, banquetes são oferecidos” – A cenografia descreve com fidelidade o centro nervoso de muitas decisões: uma enorme mesa atravessa o espaço da cena e é manipulada em diversos momentos pelos atores, contribuindo para o entendimento de que nesse mobiliário há banquetes que celebram a fartura, e igualmente é onde a fome pode ser decidida por homens e mulheres, muitas vezes de posse de uma caneta, com poder mais destrutivo do que um singelo fuzil AR15.

Integram ainda a cenografia dois púlpitos, usados para leitura e exposição de textos, e que mantêm a atmosfera aguerrida de confronto de ideias. A mobilidade do conjunto cenográfico está a serviço da dinâmica do jogo proposto.

“… e num pau de arara toquei para cá” – O trabalho dos atores não pode ser compreendido nos moldes de um espetáculo ficcional, uma vez que eles não interpretam personagens. Distanciados da persona, apresentam-se em seu ofício de intérpretes-mediadores e têm a difícil tarefa de tornar a farta documentação e recursos técnicos atraentes para o público.

Apesar de as extensas leituras diluírem a intensidade do próprio discurso e do objeto a que o coletivo se propõe, a atriz Fernanda Azevedo e o ator Renan Rovida são duas forças anímicas contrárias que se equilibram em suas performances. Ela, apolínea (racional), e ele, dionisiático (emocional), estão confortáveis nessa forma de interpretação objetiva, distanciada, que auxilia o rompimento de qualquer “parede” entre atores e público, como propunha o diretor e dramaturgo Erwin Piscator (1893-1966) para o gênero documental.

A direção e execução musical são de Eduardo Contrera. Ele utiliza ao vivo instrumentos de percussão, cordas e modelos experimentais de efeito agradavelmente perturbador. Suas intervenções e pesquisas sonoras inserem-se na narrativa organicamente, como uma espécie de pulsação.

“Há erva sobre uma pedra. Há coisas nessa terra que merecem viver!” – O projeto artístico e teatral Fome.doc  é uma pesquisa de fôlego, importante por apresentar, a partir do espectro escolhido, os mecanismos da fome e seus diversos matizes, todos destruidores e criados pela ação deliberada ou indiferente do próprio ser humano. Não há em cena ilusões, mas a realidade transformada em poesia no espaço incerto do teatro.

Fanpage da Kiwi Companhia de Teatro: www.facebook.com/KiwiCompanhiaDeTeatro/

Site: http://www.kiwiciadeteatro.com.br

Ficha Técnica

Roteiro e direção geral: Fernando Kinas

Elenco: Fernanda Azevedo e Renan Rovida

Direção e execução musical: Eduardo Contrera

Iluminação: Aline Santini / Cenário: Márcia Moon / Figurino: Madalena Machado

Assistência e operação de luz e som: Clébio Souza (Dedê)

Edição de imagens: Luiz Gustavo Cruz / Confecção de marionetes: Celso Ohi

Preparação vocal: Roberto Moura / Vozes gravadas: Marilza Batista e Félix Sánchez

Programação visual: Camila Lisboa (Casa 36) / Fotografia: Filipe Vianna

Cenotécnico: Lázaro Batista Ferreira / Produção: Luiz Nunes e Daniela Embón

Divulgação: Canal Aberto Assessoria de Imprensa / Realização: Kiwi Companhia de Teatro

 SERVIÇO

Fome.doc – Ensaio sobre a necessidade e a liberdade

Onde: CCSP (Centro Cultural São Paulo) – Espaço Missão Vergueiro, 1000 – (Metrô Paraíso) – Telefone: (11) 3397-4002

Quando: de 14 de julho a 20 de agosto de 2017

Horários: sextas e sábados 21h e domingos 20h

Duração: 130 min –   Classificação: 14 anos – Lotação: 90 lugares

Ingressos: 10,00 (inteira) e 5,00 (meia) – aceitam cartões de débito e crédito


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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