por Aguinaldo Gabarrão (*)

 

Quem acompanha no cinema a trajetória do diretor e roteirista M. Night Shyamalan sabe que a matéria prima de suas histórias tem quase sempre aspectos metafísicos, ingredientes do inconsciente e doses de terror psicológico que podem se transformar num estrondoso sucesso (O Sexto Sentido – 1999) ou numa retumbante decepção (Fim dos Tempos – 2008) ou até obter um bom resultado (A visita – 2015).

Porém, independente da bilheteria e crítica é inequívoco que sua filmografia tem uma impressão digital, única e peculiar na maneira de filmar e no desenvolvimento de seus roteiros com tipos humanos que representam um “ponto fora da curva”, seja porque demonstram possuir talentos especiais que fogem ao senso comum das pessoas ou indivíduos arredios e com dificuldades de convívio social, ao deixar de se enquadrar em determinadas tribos urbanas.

Com o filme “Fragmentado” Shyamalan acrescenta a essa galeria de protagonistas nada convencionais Kevin Wendell Crumb, possuidor de 23 personalidades diferentes que se alternam e o conduzem na tomada de decisões como o seqüestro de três jovens adolescentes, que se vêem num cativeiro e passam a conviver com algumas dessas personalidades, enquanto tentam encontrar uma forma de fugir.

Kevin recebe apoio terapêutico da Doutora Karen Fletcher, interpretada por Betty Buckley, (do filme “Carrie, a estranha” – 1976), que empresta verosimilhança à solitária terapeuta. No decorrer das sessões a pesquisadora identifica em seu paciente a existência dessas outras identidades, relacionadas ao Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) mais conhecido popularmente como dupla personalidade.

O diretor que também assina o roteiro, sabiamente optou por centrar o desenvolvimento da trama em cinco tipos distintos que afloram de maneira competente na interpretação do ator James McAvoy (o Fauno no filme Crônicas de Nárnia – 2005 e Professor X em X-Men: Primeira Classe – 2011).

MacAvoy foge dos estereótipos e constrói corporalmente com pequenos e expressivos gestos, o traço marcante de cada um desses seres que habitam o inconsciente de Kevin. Isso faz com que a tensão aumente na mesma velocidade com que suas múltiplas personalidades se sucedem e interagem com o meio.

O elenco ainda conta com a talentosa Anya Taylor-Joy (a Thomasin do filme A bruxa – 2015), que interpreta Casey Cook, uma das adolescentes seqüestradas. A jovem atriz consegue imprimir na sua performance, o crescente horror às descobertas de sua personagem no decorrer da história.

A produção de baixo orçamento, cerca de U$ 9 milhões, permitiu maior liberdade artística ao diretor, sem a forte pressão dos grandes estúdios. Nas bilheterias o filme atingiu cifras superiores a U$ 250 milhões de dólares e, além disso, pesadas críticas de diversos especialistas em saúde mental, que apesar de elogiarem a história, ressaltaram erros no filme, entre outros aspectos, ao mostrar o portador de TDI (transtorno Dissociativo de Identidade) com um grau de violência e periculosidade que não correspondem à realidade dessa doença.

À parte os comentários e críticas elucidativas da classe médica, Fragmentado é uma obra de ficção que recoloca o diretor M. Night Shyamalan no merecido patamar de grande diretor, por saber como poucos, a maneira de construir um roteiro com suspense na medida certa, associada a sua direção particular de atores e ao uso acertado da câmera, uma aliada do diretor que coloca o público no olho do furacão.

Assista, porque o diretor já prepara o roteiro para a sequencia de Fragmentado II, trazendo de volta as personagens interpretadas por Bruce Willis e Samuel L. Jackson no filme “Corpo Fechado”.

SERVIÇO

FRAGMENTADO –  Direção: M. Night Shyamalan

Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley lu Richardson, Betty Buckley

Duração: 117 minutos – Classificação: 14 anos

Gênero: suspense

Cinemas: UCI Anália Franco, Cinépolis Parque Shopping Maia, PlayArte Multiplex Bristol (Av. Paulista, 2064) 

Assista o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=7l4SzfMstLE

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

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