por Aguinaldo Gabarrão (*)

Um profissional faz a afinação (ajustes) de iluminação. Ao fundo vozes incompreensíveis preenchem o espaço da SP Escola de Teatro. Em primeiro plano está uma mulher na cadeira de rodas, observando impassível aquela movimentação. É a atriz Maria Alice Vergueiro.

O documentário Górgona focaliza a personalidade singular dessa atriz e, sem ser biográfico, apresenta um interessante painel de imagens que revelam a sua determinação, apesar de sofrer do Mal de Parkinson, em produzir, dirigir e atuar no espetáculo “As três Velhas”, do chileno Alejandro Jodorowsky.

“O que restou da vida em mim” ===  Para o público que conhece Maria Alice Vergueiro no teatro ou a partir do famoso curta “Tapa na Pantera” (disponível no Youtube), vê-la aparentemente frágil, parece destoar da figura telúrica que deu a ela os títulos de velha dama indigna do teatro e dama do underground, além de ser reconhecida como uma das maiores atrizes de sua geração.

Porém, os diretores estreantes Fábio Furtado e Pedro Jezler optaram, a partir do amplo material produzido ao longo de cinco anos, apresentar uma artista que luta para manter-se produtiva e viva artisticamente, diante das dificuldades de saúde, dos embates para produzir e manter em temporada o espetáculo “As Três Velhas”.

O olhar atento ===  A fotografia crua utiliza a iluminação de maneira a manter a ambientação característica do teatro. A câmera invade camarins, capta as conversas e, principalmente, observa a partir da coxia, trechos do espetáculo.

Outro aspecto bem trabalhado pela dupla de cineastas foi editar o espetáculo “As três velhas” e apresentá-lo de forma não seqüencial, entre os depoimentos. Os fragmentos escolhidos ganham maior intensidade por revelarem que o teatro, é uma obra maravilhosamente inacabada, precisa na técnica e sempre passível de ser reconstruída e novamente ensaiada e modificada.

Conversa íntima ===  Há um sabor especial no registro das conversas entre Maria Alice e os atores do Grupo Pândega: Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição, Danilo Grangheia, Carolina Splendore e Marco Luz. Desde as questões burocráticas com o resultado do borderô, que não permitirá saldar todos os compromissos, até o ritual de preparação dos atores no camarim, percebe-se que o que está em camadas sutis é a própria luta existencial do artista e sua obra.

Em contrapartida, há sequencias poéticas que revelam a complexa e necessária luta quixotesca, que converte os sonhos em realidade, apesar de lançar a atriz no endividamento para produzir seu espetáculo. Porém, mesmo assim, Maria Alice, diz em tom sereno: “Estou pagando a minha alegria”.

“De uma hora pra outra as rugas começaram a aparecer…” ===  Na mitologia grega a Górgona é um monstro com presas de bronze, asas de ouro, cabelos de serpentes. Uma delas, em especial, de nome Meduza, tinha também o poder de petrificar a todos com seu olhar. As górgonas eram mulheres ferozes.

O documentário Górgona atesta que para fazer teatro é preciso ter esse instinto de fera, que Maria Alice Vergueiro e seu parceiro Luciano Chirolli conseguem movimentar para promover o bom combate, no melhor lugar do mundo para o ator: o palco.

 

FICHA TÉCNICA
Górgona (Distribuição Espaço Filmes)

Direção e Roteiro: Fábio Furtado e Pedro Jezler / Fotografia: Pedro Jezler

Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição, Danilo Grangheia, Carolina Splendore e Marco Luz

Gênero: documentário / Duração: 1 hora e 17 minutos

Classificação indicativa: 14 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2016

Lançamento: 29 de março de 2018 (previsão)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

Organicos

2 COMENTÁRIOS

    • Olá Vander! Agradeço o seu retorno. E se puder, assista ao documentário. Realmente, é instigante.

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