da Redação DiárioZonaNorte

=== <<Em primeira mão>> ===  A correspondência não chegou à sua porta e nem vai chegar durante os próximos dias. Pelo menos, essa é a pretensão  inicial  do Sindicato dos Trabalhadores da Empresa de Correios – SINTECT-SP , que colocou os carteiros na greve nacional, por tempo indeterminado, a partir desta 2ª feira (12/03/2018).

A principal reivindicação dos trabalhadores recai sobre os planos de saúde, que devem deixar de fora os pais como dependentes, além do pagamento adicional de mensalidades – segundo alegam “o salário médio é de R$ 1.700  e a empresa quer descontar R$ 1 mil”. Essa questão está em trânsito no  Tribunal Superior do Trabalho (TST) a cerca de um ano, em Brasília, e será julgada à tarde nesta 2ª feira mesma data da assembleia dos trabalhadores,   marcada para o começo da noite.  Já por seu lado, a direção dos Correios informa que “ após diversas tentativas sem sucesso”, aguarda uma decisão conclusiva do TST para tomar as medidas necessárias, mas ressalta “que já não consegue sustentar as condições do plano, concedidas no auge do monopólio, quando os Correios tinham capacidade financeira para arcar com esses custos”.

Reivindicações  === Mas o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios  bate em outras teclas de reivindicações para os benefícios aos trabalhadores e na melhoria dos serviços. Querem manter o cargo dos Operadores de Triagem e Transbordo (OTTs), já que a intenção da empresa é pela sua terceirização.  Mas, por outro lado, leva também as questões da  luta  pela não privatização da empresa estatal – que está subordinada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na atual gestão de Gilberto Kassab – com o alerta do Sindicato dos Carteiros: “ Não à privatização – os Correios tem dono! Pertence ao povo brasileiro. Não pode ser privatizado, pois é fundamental para soberania nacional”.   Tudo isto faz parte de uma Carta Aberta à População —  veja aqui 

Nestes comunicados e mensagens aos filiados e à população, o Sindicato dos Carteiros esclarece que a greve “é para defender a empresa pública, o patrimônio e o serviço de qualidade prestado à população pelos Correios, pela realização do Concurso Público e a contratação de funcionários, para que as agências continuem abertas e a visita do carteiro nos domicílios seja diária”. Em contrapartida, a empresa informa através de sua Assessoria de Comunicação, em São Paulo,  que “a greve é um direito do trabalhador, mas um movimento dessa natureza, neste momento, serve apenas para agravar ainda mais a situação delicada pela qual passam os Correios e afeta não apenas a empresa, mas também os próprios empregados”.

As glórias do tempo === Um serviço de 355 anos, que passou por várias fases da história, do Império dos carros de burro, pelas batidas do Código Morse no telégrafo até aos smartphones da modernização tecnológica nos dias de hoje. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), no passado com mais de 126 mil empregados – sem contar os terceirizados — chegou a ser o maior empregador brasileiro. É a única empresa no país que atua em todos os  5.570 municípios brasileiros. E cresceu muito com mais de 100 produtos – entre eles, o Sedex — e ganhando confiança e respeito como  grande  empresa de reconhecimento nacional. Tudo era gigantesco no dia a dia de 50 milhões de domicílios atendidos, com os 36 milhões de objetos entregues e os 20 mil veículos rodando por todos os lados.

O Mensalão no caminho === Isto  foi o passado. Depois da boa colheita, veio a tempestade com escândalo do “Mensalão” (maio de 2005)  deixando claro que a empresa e seus trabalhadores estavam a mercê de pessoas colocadas, por critérios meramente políticos, nos principais cargos de decisão e  interessadas única e exclusivamente  em saquear o patrimônio público  Com isso foram surgindo problemas operacionais e sai governo e entra governo, as nomeações políticas equivocadas continuaram. A empresa  segue para um colapso.

A caminho do colapso operacional  ====  A crise nos Correios emperrou o processo de crescimento e eficiência da empresa, que fechou agências e serviços, dispensando funcionários. Tudo que foi construído em pelo menos nos 49 anos — desde a transformação da empresa em Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), com processos de modernização e novos produtos – chegou aos dias atuais, acumulando problemas e prejuízos.  Isto fez surgir   a ideia de privatização dos serviços e da empresa no todo. Os reflexos de tudo estão nos números: em 2015, a empresa fechou com déficit de R$ 2,5 bilhões e no ano seguinte ficou negativo em R$1,6 bilhão. E veio 2017 com  novo déficit de R$1 bilhão.

Sem eficiência e sem elogios === Os reflexos disto estão nas ruas e no conceito junto aos usuários. Os Correios já não recebem os elogios por sua eficiência junto aos usuários e nem aparece em pesquisas de melhor empresa. É transparente pelas ruas das cidades, como na Zona Norte de São Paulo, onde os   moradores não tem mais certeza se vão receber sua correspondência. O carteiro já não é o mesmo “velho amigo conhecido” em várias ruas da região, substituídos por novatos e esporádicos, que acabam ocasionando equívocos nas entregas de correspondências.  Mesmo assim, de repente, não fazem mais entregas diárias – e sim uma ou, no máximo, duas vezes por semana. Segundo informações dos próprios carteiros, houve redução de funcionários (demissões ou mesmo aposentadoria – na maioria, dentro do Plano de Demissão Incentivada, o PDI)  e agora aguarda-se acumular correspondência nos Centros de Distribuição da Zona Norte para as entregas – nota-se pelas fotos o acúmulo e a desorganização em várias Centrais de Triagens.

Em nota da Assessoria de Comunicação de São Paulo, a empresa alega que “ periodicamente os Correios reavaliam por meio de seus sistemas a necessidade de realocação de mão de obra, com o objetivo de atender às demandas operacionais da empresa”. E ainda acrescenta que “os carteiros são treinados de acordo com o tipo de área de atuação”.

Não tem mais entrega === Em outras regiões da cidade, nem mesmo existe o serviço de entrega de correspondência domiciliar. Foram simplesmente extintas e o interessado tem que se dirigir em uma Central de Triagem dos Correios para retirar sua correspondência. Há regiões que foram consideradas “áreas de riscos” por causa da falta de segurança – roubos e sequestros. Em um item de acesso não muito claro, os Correios disponibiliza em sua página da internet ( http://www2.correios.com.br ) , uma enorme relação de 488 páginas com os Códigos de Endereçamento Postal (CEP) de todo o Brasil, que estão fora das entregas domiciliares – igual ao que acontece há muito mais tempo no Rio de Janeiro – e até foi implantada uma taxa extra para casos especiais de entrega. Ali estão separadas as “entregas domiciliares diferenciadas” (com pagamento de taxa especial)  ou “entregas internas” ( o usuário deve retirar na Central de Triagem).  Acesse a página  aqui

Dia sim e dia não, no seu portão == E ainda mais para corroborar com a situação e oficializar o novo método, o governo publicou no Diário Oficial da União, no dia 08/03  (5ª feira), a Portaria 1.203 ( veja aqui a íntegra) estabelecendo novos critérios e metas para implantação do “novo modelo” de distribuição domiciliar – classificado como DDA-Distribuição Domiciliária Alternada. Isto significa que o serviço de entrega externa será feito em duas etapas, “de forma que a distribuição de correspondência ocorra nestas etapas em dias úteis alternados”.  O cronograma  listado no decreto federal, prevê a implantação de 50 unidades por mês (no período de março de 2018 a maio de 2019) totalizando  749  unidades pelas Centrais de Distribuição, espalhadas pelo país.

Mais aposentados === Esse clima de instabilidade e de falta de segurança está forçando o aumento de aposentadorias de carteiros. Mas segundo a empresa, o “PDI não tem relação com problemas de segurança pública”, já que é um programa para que empregados já aposentados optem pelo desligamento da empresa com incentivo financeiro. E ainda acrescenta que “a saída de carteiros no PDI estava prevista e calculada pela empresa que está trabalhando com a revisão de seu modelo operacional e, neste momento, não prevê contratação a  curto prazo de mão de obra própria”.

Falando em aposentadoria ===   Nem o fundo de pensão dos funcionários dos Correios, o Postalis,  escapou da corrupção.   O Ministério Público Federal em São Paulo abriu em janeiro de 2018,  um   processo civil contra unidade brasileira do americano BNY Mellon para ressarcimento de R$ 8,2 bilhões em prejuízos causados ao fundo de pensão dos funcionários dos Correios, o Postalis, e seus  beneficiários.

Como única administradora financeira dos recursos financeiros da entidade, o banco “praticou atos irregulares que dilapidaram o patrimônio do Postalis e obrigaram os participantes (na ativa e os já aposentados)  a arcar com uma contribuição extraordinária de 25,98% (sendo 16,98% para repor o buraco do Postalis e a ordinária de 9%) por 180 meses”.

Com a carta na mão === Enquanto, os serviços ficam parados durante a greve – e mesmo com o atual ritmo na prestação de serviços pela empresa – o que se pode fazer é ouvir “A canção do carteiro”, que ficou no passado na voz de Luiz Gonzaga, que traduz os antigos da profissão: “ Eu sou um pobre carteiro / Mas gosto da profissão / Pois trabalho o dia inteiro / Assobiando esta canção //  O meu trabalho é honesto (…) E agradeço ao bom Deus / Por  haver me amparado/ Protegendo a mim e aos meus (…) .

Aguardar para ver o resultado de mais uma greve dos Correios, que pode afetar a vida de muita gente e empresas. Como a greve pode ser por tempo indeterminado, a recomendação é  para que os moradores revejam as contas a vencer, que estão no aguardo de correspondência, e providencie o pagamento por outro meio – via internet ou direto no emissor da conta.

Na televisão === Assista a reportagem de Andressa Rogê no SPTV 2ª Edição da Rede Globo (apresentação e comentários de Carlos Tramontina), no dia 09/03/2018 aqui  E, como contraponto, uma situação no Rio de Janeiro – que é ainda mais dramática – na  matéria de Mônica Puga para o Jornal da Band de  02/03/2018  aqui

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