por Aguinaldo Gabarrão (*)

Nos anos 70 o cinema nacional foi dominado pela produção de filmes de cunho erótico com fortes pitadas de humor, conhecidos como “pornochanchadas” e que fizeram a fortuna de alguns diretores e produtores, formaram grandes profissionais para o mercado áudio-visual e tornaram conhecidas atrizes como Matilde Mastrangi, Helena Ramos, Aldine Muller e Vera Fischer.

Relegado à segundo plano por críticos e parte da moral vigente à época, esse gênero cinematográfico, foi revisitado em formato de documentário pela cineasta e artista visual Fernanda Pessoa, e traz um olhar inusitado e, por vezes, surpreendente do período que correspondeu à ditadura militar.

Erotismo e política === Pessoa pesquisou mais de 150 filmes e compõe o documentário com 27 produções. Não há entrevistas ou off, todo o material foi editado inteiramente com imagens e sons originais das pornochanchadas.

E esse é o primeiro aspecto interessante, porque a dinâmica desta produção é toda construída a partir da boa sacada da diretora: dividir os filmes em grandes blocos temáticos: a violência da repressão política, a luta de classes, o milagre brasileiro e consequente ascensão da classe média, a luta armada e a modernização do país.

O protagonismo da montagem === Não bastasse essa maneira de ordenar os filmes em temas, o trabalho de montagem de Luiz Cruz é decisivo para alinhavar esses assuntos, dar sentido ao encadeamento do material selecionado, pinçados na pesquisa de fôlego da diretora e relacioná-los de maneira a promover uma interação entre as cenas.

Assim, o público é surpreendido com sequencias que revelam diálogos absolutamente inteligentes e críticos, disfarçados no conteúdo erótico. Exemplo disso é a cena em que um delegado diz a um homem, preso erroneamente por considerarem seus livros subversivos: “… o mais sensato é não ler livro nenhum”.

 “Se eu tivesse esse corpo, em três anos comprava a ponte Rio – Niterói”

Igualmente feliz foi a escolha da diretora Fernanda Pessoa em não transformar seu documentário numa tese blasé, tentando ocultar a natureza e objetivo da “pornochanchada”.

Se a diretora demonstra com clareza que o gênero ofereceu a crítica explosiva, por vezes disfarçada no erotismo das histórias, não deixa também de trazer em doses adequadas, o humor picante, igualmente inteligente que marcou esse período do cinema nacional.

Assista ao trailer do filme:

 

FICHA TÉCNICA

HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA =  Distribuição: Boulevard Filmes

Direção e Concepção: Fernanda Pessoa / Produção: Julia Borges Araña, Alice Riff e Fernanda Pessoa / Som: Érico Theobaldo e Ignácio Sodré (Coletiva Produtora) / Montagem: Luiz Cruz / Sound Design e Mixagem: Érico Theobaldo (Coletiva Produtora) / Finalização: Quanta Post / Produtora: Pessoa Produções / Coprodutora: Studio Riff

Gênero: Documentário / Duração: 1 hora e 20 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 16 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 23 de agosto de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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