da Redação DiárioZonaNorte

Há 80 anos na Zona Norte,  o Conjunto Hospitalar do Mandaqui passa por mais uma de suas  dezenas de crises operacionais e financeiras. Segundo o Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), o hospital está com sérios problemas na escala de profissionais e no atendimento – o que resulta a urgência na contratação emergencial e chamamento para concursos públicos.

Nesta situação, o Pronto Socorro chegou a ser fechado, atendendo apenas  casos encaminhados por ambulância ou de acidentados.  O Conselho Gestor é uma grande vigilância e controle nas 24 horas de funcionamento do hospital e acrescenta outros problemas operacionais. No final do ato, quem paga a conta com as irregularidades são os usuários, que ficam perdidos em fichas e filas de horas – quando acabam nem sendo atendidos.  Não bastasse todos os problemas, os moradores e usuários enfrentam outra dor de cabeça com a circulação de comentários da intenção do governo estadual em privatização do local.

Protestos e audiências === Dentro da precariedade do atendimento e do sistema, está programado um ato público nesta 4ª feira (28/03/2018)—concentração às 7 horas da manhã na saída da Rua Dona Luiza Tolle com a Rua César Zamma,  seguindo até a entrada do hospital na Rua Voluntários da Pátria,  4.301 –  convocado pelos médicos, funcionários e conselheiros -, com todos os participantes em mãos dadas e um abraço fraternal no local para mostrar a situação do que está acontecendo naquele hospital.

Logo após, às 9 horas, haverá a reunião ordinária do Conselho Gestor, que já estava programada, onde serão novamente debatidos “os velhos e cansativos problemas”. E, por coincidência,  um dia antes (3ª feira, 27/03/2019), a partir das 13 horas, haverá audiência aberta à população no Ministério Público do Estado ( Rua Riachuelo, 115 – Centro ) para debater a intenção do governo municipal no fechamento de Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Assistência Médica Ambulatorial (AMA), o que poderá afetar ainda mais o atendimento do Conjunto Hospitalar do Mandaquiver mais detalhes  aqui.  Ao mesmo tempo, o Conselho Gestor encaminhou requerimento à presidência da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de São Paulo para análise do assunto e a possibilidade de audiência pública.

O passado === Parou no tempo,  rodeado por  suas antigas e vistosas árvores  junto a muito verde! Lá se foram os períodos dos viajantes da época passada e os trilhos do trenzinho da Cantareira, o Tramway. Enquanto o entorno evoluiu, transformando as vilas e pequenas ruas em grandes avenidas, o antigo prédio do outrora Parque Hospitalar do Mandaqui sobrevive ao tempo por 80 anos. Surgiu na época em que Adhemar de Barros aparecia no cenário político como interventor federal nomeado no cargo de governador (27/04/1938 a 04/06/1941). Naquele tempo, foi o primeiro local especializado em tratamento de tuberculose —  que não tinha cura  — e os doentes precisavam de isolamento com o indispensável bom clima e muito Sol – chegando a acomodar 800 pacientes. E hoje carrega o ainda título de maior hospital da Zona Norte, até foi classificado e comparado como o Hospital das Clínicas da Zona Norte.

As poucas mudanças === E assim foi se transformando pelo tempo na região e na cidade. Sem grandes mudanças foi passando por ainda mais três interventores e 14 governadores e foi somente no primeiro governo de Mário Covas (1995/1999) que recebeu uma reformulação, através de um decreto.  Desde então — se passaram  21 anos (10/01/1997)–, mudou sua denominação para Conjunto Hospitalar do Mandaqui-CHM definindo sua estrutura de organização e de atendimentos médicos com várias especialidades. Ficou definido sua “finalidade de prestar à comunidade assistência hospitalar e ambulatorial em nível terciário, visando a promoção da saúde, nas áreas de Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Medicina Perinatal, Ginecologia, Pediatria e suas especialidades, sendo referência de excelência nas áreas determinadas pela Secretaria da Saúde”.

Um respiro e mais problemas === A história é muito boa e fiel, mas a realidade de hoje é triste. Em dois governos recentes do atual governador Geraldo Alckmin (PSDB), o Conjunto Hospitalar do Mandaqui continua no mesmo lugar, mas esquecido no tempo. Somente há seis anos (em 2012) teve um investimento de R$ 65 milhões para reformas e mudanças, até com a implantação de um heliponto, e aumento de 4,8 mil para 7,2 mil cirurgias por ano. O que fez o governador posar para várias fotos, na época, junto a aparelhos modernos. De lá para cá,  nada mais foi realizado. De novo, parou no tempo e os problemas ainda se agravaram mais.

O que está errado === A estrutura do Conjunto Hospitalar do Mandaqui convive com o passado das construções em alvenarias e o presente do que foi erguido nos prédios, mas o conteúdo se deteriorou com o passar dos anos. Elevadores que não funcionam e que mantém “placa de manutenção” por longo período;  escada de ferro que não leva a lugar algum, mas que está interditada para manutenção e mostra visivelmente enormes pontos de podridão pela ferrugem; e assim outros problemas são relatados nos informes do Conselho Gestor. Pelos corredores e portas, não há nem mesmo sinalização aérea ou de identificação dos setores internos, o que cria uma série de problemas de comunicação.

Chegou-se ao caos ===  Ainda há uma esperança que possa acontecer algo até o final deste  governo.  De acordo com o Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp),  chegou-se ao caos com o Pronto-Socorro adulto sem médicos clínicos três vezes por semana. Além disso, acrescenta que mais de 40 pacientes estavam internados, nesta semana, pelos corredores e sala de medicação – deitados em macas ou até mesmo em cadeiras. Em um comunicado, o Simesp acrecenta que “havia ainda pelo menos 18 pacientes em leitos de retaguarda do pronto-socorro, leitos estes, que deveriam atender a pacientes de complexidade intermediária que chegam à emergência do hospital. Entre esses pacientes há pessoas em situação grave e que precisam de cuidados mais intensivos”.

Com os próprios olhos === O cenário relatado é a dura realidade enfrentada por pacientes, médicos e residentes e foi constatado pelo presidente do Simesp, Dr. Eder Gatti, em visita ao Conjunto Hospitalar Mandaqui.  “Além da superlotação, o hospital sofre com a falta de profissionais na equipe de clínica médica, chegando a ficar sem nenhum médico durante os plantões em, pelo menos, três dias na semana. Esse déficit de é muito grave, pois deixa a população desassistida”, ressalta Gatti. O Simesp já formalizou denúncia ao Ministério Público sobre a situação vivenciada no hospital.

Sem soluções imediatas === Segundo o presidente do Simesp, o hospital também sofre com a falta de profissionais de outras áreas da saúde. “A administração do hospital alega que já relatou o problema para a Secretaria Estadual da Saúde diversas vezes, solicitando a contratação de médicos por concurso público. Porém, a secretaria, de forma sistemática, responde que não abrirá concurso”, conta Gatti e completa: “O resultado disso é um hospital com sua capacidade de assistência comprometida pela falta de recursos humanos, o que coloca as pessoas em risco, deixando o pronto-socorro completamente desassistido e sobrecarrega os profissionais que atuam no local”.

Outro problema lembrado é que o hospital também possui um programa de residência médica, “que está prejudicado pela falta de profissionais para atuar como preceptores”. Portanto, há muito prejuízo na formação dos médicos residentes que fazem estágio no pronto-socorro.  Para Gatti, a solução seria a contratação de profissionais por concurso público, o que, segundo ele, o secretário de Saúde David Uip e o governador Geraldo Alckmin estão se negando a fazer – junto aos rumores pelos corredores de fontes políticas e nos meios hospitalares da intenção de privatizar o hospital.

Uma resposta evasiva === O DiárioZonaNorte encaminhou as questões apontadas pelo Simesp para um posicionamento da Secretaria de Estado da Saúde que, através de sua Assessoria de Imprensa, transmitiu a seguinte nota: “A Secretaria de Estado da Saúde esclarece que a atuação do Sindicato do Médicos de São Paulo (Simesp) é de natureza político-partidária, já que a instituição faz oposição sistemática ao governo do Estado.  O Conjunto Hospitalar do Mandaqui é o maior hospital da Zona Norte de São Paulo e realiza mensalmente 13 mil atendimentos no pronto-socorro e cerca de mil internações. Por se tratar de um serviço de “porta aberta”, o fluxo é dinâmico e eventualmente pode haver sobrecarga em razão da demanda espontânea. O hospital dispõe de sistema de classificação de risco, priorizando casos graves e gravíssimos, como acidentados e politraumatizados, por exemplo. Pacientes com casos mais simples, sem risco à vida, são classificados com a cor “verde”, podendo ter de esperar mais pelo atendimento. Na medida em que os leitos nos quartos são liberados os pacientes em observação no pronto-socorro são encaminhados para internação. No entanto, ninguém fica sem assistência. Atualmente, o Mandaqui conta com cerca de 2 mil funcionários, sendo aproximadamente 500 médicos”.

Um vigilância constante === O Conselho Gestor do Conjunto Hospitalar Mandaqui – que mostra-se sem partidarismo e foco político —  mantém  uma vigilância muito grande no local, fora da reunião mensal, com “visitas surpresas” efetuadas por  todos os seus conselheiros,  nos vários períodos das 24 horas, finais de semana e feriados. Só para se ter uma ideia, o primeiro ofício encaminhado em 22 de fevereiro carregava uma série de 18 problemas  que se repetem, entre eles: (*) falta de médicos na especialidade clínico geral e pediatria; (*) falta de enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares; (*) muro caído há mais de um ano sem solução com aspecto de abandono; (*) até agora não há o laudo do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros; (*) estacionamento em estado precário sem condições de utilização; (*) retiradas dos monitores de tv das áreas comuns do hospital; (*) troca de colchões em má conservação; (*) falta de material como termômetros, monitores de frequência cardíaca, equipamentos para exames especiais como angioplastia — e outros.

Mais problemas === Segundo relato do mesmo Conselho Gestor, há até denúncias de sabotagem de funcionários no setor de esterilização; sem sala de arquivo de prontuários sem manutenção e definição; o sumiço de fichas de prontuários no Pronto Socorro Adulto e a falta de comunicação entre as áreas. E a diretora técnica do hospital, Dra. Magali V. Proença, pacientemente recebe as denúncias e reclamações, responde o que pode à sua competência, mas a maioria dos assuntos são  transferidos à Secretaria de Estado da Saúde, que em todo esse tempo nada retorna ou soluciona com rapidez – “entra na burocracia e no tempo das licitações, que nunca terminam – até parece de propósito”, diz um conselheiro.

Aguardar os acontecimentos === E assim caminha a humanidade. O presidente executivo do Conselho Gestor do Conjunto Hospitalar do Mandaqui, Marco Antonio Nunes Cabral, já conhece os problemas há mais de 15 anos, sempre preocupado em ajudar o hospital e a população.  Segundo ele, já houve um tempo melhor, mas “agora está cada vez ficando pior!”. Ele é da opinião que não adianta trazer modernidade se o problema crônico é a falta de pessoal para trabalhar com afinco e dedicação – “tem gente que trabalha para o bem, mas outros para o caos!”.

Cabral lembra que em 2004 o hospital atendia 30 mil pacientes por mês, hoje caiu para 11 mil, o que demonstra a falta de estrutura interna de pessoal. E, por outro lado, ele acha que deve haver uma reorganização nos serviços. “O hospital é terciário e não deveria atender tudo que vem bater à sua porta como dor de cabeça, gripe e casos menores. Deveria ser um hospital de ‘porta fechada’ só para casos maiores, de internação, e encaminhados pelas UBS e AMAs”, complementa. Segundo ele, hoje os poucos médicos estão atendendo média de 30 a 40 pacientes diariamente. Tudo pode ser simplificado por reorganização e atenção aos problemas pela Secretaria de Estado da Saúde e o próprio governo estadual. É esperar para ver o que ocorre nos próximos dias e o que poderá ser mudado para o bem da população, nos próximos meses.

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Estive lá recentemente e digo que vergonha para a administração do hospital que não tem um lugar para estacionar. Fui levar minha mãe e tive que deixar uma pessoa idosa assim como muitas outras pessoas idosas que chegavam lá e ir buscar um estacionamento pago do lado de fora. Porque o estacionamento privado do hospital são para os funcionários que contam também com uma quadra poliesportiva e um quiosque para churrasco em frente ao setor de exames. Por isso o país está como está as pessoas só olham para o seu umbigo. Querem reforma, melhores salários, mais funcionários. Enquanto a população paga estacionamento, os idosos não tem prioridade e etc!! Vergonha nacional.

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