por Aguinaldo Gabarrão (*) 

=== No atual ambiente conturbado da nossa história, no qual temos a estranha sensação de que os três poderes da república (Executivo, Legislativo e Judiciário) ora interferem na seara um do outro e, seus principais atores, esquecem-se por conveniência, do princípio da autonomia, independência e harmonia, causa impacto assistir o documentário Imagens do Estado Novo ao vislumbrar aqui e ali, similaridades com o nosso presente.

Este é o 14º longa-metragem do diretor Eduardo Escorel, que também é o montador de “No Intenso Agora” (2017) e “Macunaíma” (1969), entre outros grandes filmes. A produção coube a Cláudio Kahns de “A Marvada Carne” (1984), “Vera” (1986) e “Mamonas Pra Sempre” (2011).

Para produzir o documentário Escorel e Antonio Venâncio realizaram uma pesquisa robusta a partir de diversificados materiais de arquivo, vários deles verdadeiras jóias históricas, que constituem sua tese fílmica do legado ditatorial de Getúlio Vargas e, simultaneamente, a engenharia de controle da sociedade por meio de órgãos de repressão e de propaganda.

O diário de Vargas ===  O vasto material composto por cine-jornais, fotografias, cartas, filmes de ficção e canções constroem o panorama de como Getúlio, tendo chegado ao poder com o golpe de 1930, consegue manter-se, inicialmente como comandante em chefe da junta provisória, tornar-se presidente em 1934, por via indireta, e rasgar a constituição pela segunda vez, ao impedir as eleições livres para o pleito seguinte à presidência da república, impondo o que seria conhecido como Estado Novo.

Toda essa riqueza de informações é alinhavada por trechos do diário pessoal de Vargas, que compreendem o período de 1930 a 1942 (publicado pela Siciliano / FGV 1995). A montagem de Escorel e Pedro Bronz faz esse exercício de interpretação e, ao utilizar filmes da vida cotidiana e familiar dos anos 30 e 40, potencializa o olhar do público no entendimento dessas engrenagens do poder.

A propaganda é a alma do negócio === Criado em 1939, o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) tem especial destaque no documentário. Inspirado ou copiado do modelo nazista, impressiona os muitos tentáculos que esse órgão exerceu na vida brasileira, seja na produção de cines-jornais, controle e censura da imprensa, rádio e da produção artística.

Exemplo dessa manipulação é a música “Brasil Brasileiro”, que pontua trechos do documentário ao mencionar um país “… Gigante que desperta, de um sono secular…” e desemboca, pouco depois, num constrangedor “… Espelhas o mundo com o Estado Novo”.

Revisitar os fatos ===  O trabalho de fôlego de Eduardo Escorel, focado no período de oito anos do Estado Novo, é revelador por apresentar ao espectador, os mecanismos do autoritarismo em suas raízes que lhe deram sustentação e legitimidade: o fisiologismo político; o populismo; a atitude polarizada de ódio, focada no enfraquecimento das liberdades individuais e dos direitos civis.

A incineração das obras de Jorge Amado e José Lins do Rego e, principalmente, o massacre do grupo messiânico do Calderão por forças federais, são alguns desses fatos históricos que o documentário recupera para a memória nacional.

Um quebra-cabeça que não se completa === Mas, Escorel, não cai na armadilha fácil de apresentar apenas a faceta autoritária de Getúlio e seu grupo. O ditador também é mostrado como um grande articulador nacional, que soube usar de suas ambiguidades entre apoiar a Alemanha de Hitler ou os Estados Unidos de Roosevelt, para obter deste último, empréstimos e a construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) que viria a impulsionar a indústria no Brasil.

É o homem das Leis Trabalhistas, da CLT, mas também o líder de um governo que deportou para a Alemanha Olga Benário, grávida de Luis Carlos Prestes, que acabaria morta no campo de extermínio de Bernburg.

A sensação ao revisitar a figura de Vargas nos filmes e fotografias do documentário Imagens do Estado Novo, é semelhante ao observar seu busto reproduzido pelas mãos hábeis do escultor americano Jo Davidson: vê-se um semblante de pedra e nele o sentimento que se quiser projetar.

FICHA TÉCNICA

IMAGENS DO ESTADO NOVO – 1937 a 1945 / Distribuição: Tatu Filmes

Direção: Eduardo Escorel / Roteiro: Eduardo Escorel e Flávia Castro / Produção: Cláudio Kahns / Pesquisa de Imagem: Antonio Venâncio / Montagem: Pedro Bronz e Eduardo Escorel / Editor de Som: João Jabace / Música: Hermelino Neder e Newton Carneiro Gênero: Documentário / Duração: 3 horas e 45 minutos (em duas partes com intervalo de 10 minutos)

Classificação indicativa: 10 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2016

Lançamento: 15 de março de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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