por Aguinaldo Gabarrão (*)

Duas cadeiras ao fundo, estruturas e molduras retangulares pendem do urdimento (parte acima do palco) em planos e disposições diferentes. A ambientação convida o público ao exercício da imaginação. Podem ser janelas estilizadas? Espaços para serem ocupados? Quadros numa galeria de arte? Álbuns de fotografias que marcam a trajetória de duas vidas? Outras leituras são possíveis para a cenografia de Lorena Lima, mas todas elas se conectam com a história de vida de um casal no espetáculo LÍVIA que estreou em São Paulo, após temporada de sucesso na cidade do Rio de Janeiro.

O texto escrito pelo angolano Licínio Januário, que também atua no espetáculo, apresenta a história de Lívia e Felipe, do frescor da juventude à velhice, em recortes temporais ágeis, com foco nos aspectos marcantes que determinam desde o início romântico aos embates do dia a dia; de sonhos interrompidos e desejos comuns; de cumplicidades e incompreensões na vida do casal.

O autor propõe implicitamente a discussão do desejo versus possibilidade. Há circunstâncias que podem determinar mudanças em que o sonho mais ardente tornar-se irrealizável? Isto não representa no texto um determinismo, mas conseqüências que advêm das relações estabelecidas entre os dois jovens e compartilhada entre rotinas, filhos e vida social.

Outro aspecto interessante do texto, que contou com a colaboração da atriz Sol Menezzes, é apresentar as fragilidades sob a aparente força inabalável de Lívia. Mas, essas mesmas surpresas não aparecem no personagem Felipe, eclipsado em boa parte da trama. Ele permeia a vida de Lívia e ganha o merecido destaque somente no terço final do espetáculo.

A direção assinada pela dupla Drayson Menezzes e Orlando Caldeira conduz os atores numa tensão e distensão constantes, nas entrelinhas do texto ou nos silêncios, e encontram soluções cênicas criativas para as passagens cirúrgicas de tempo da narrativa. Soma-se ainda o trabalho corporal desenvolvido nos atores ao substituir em algumas cenas o gesto cotidiano por movimentos de dança. São explorados equilíbrios e desequilíbrios, em alusão ao relacionamento de Lívia e Felipe.

Exemplo desse cuidado está na cena da primeira relação amorosa do casal, tão poeticamente elaborada, que em mãos inábeis recairia na banalidade.

Os atores Sol Menezzes e Licínio Januário são convincentes e têm boa química como parceiros de ofício. É evidente o cuidado de ambos em buscar na voz e no gesto sutil o avanço do tempo no corpo, evitando clichês.  Porém, na fase em que as personagens estão envelhecidas, há oportunidades para ambos os intérpretes explorarem outros códigos corporais, o que permitirá um melhor nivelamento com a memória corporal estabelecida em outras fases.

E quando são solicitados pela direção ao exercício de movimentos coreografados, não comprometem e protagonizam momentos de emoção e beleza.

Igualmente os figurinos desenhados por Cristina Cordeiro, numa boa combinação de tons, são eficazes para atender as mudanças de tempo e de envelhecimento das personagens, graças ao recurso simples de atar e desatar partes da indumentária.

O figurino ganha também destaque por conta da luz quase nostálgica de Gabriel Prieto, com variações sutis que dão volume à cenografia, como se tudo estivesse numa moldura de um álbum de fotos. Completa o conjunto a música minimalista (que repete trechos, tem pequenas variações), produzida por Douglas Adelino e Pedro Prata com tom introspectivo e, por vezes, melancólico.

Lívia é uma história simples e aí reside seu mérito: tratar de temas universais e tão caros às pessoas, com leveza e poesia, sem ser superficial.

Ao término do espetáculo fica-se com a percepção de que a protagonista resiste, apesar de tudo, ao guardar da infância a imagem do trem que chega à estação, talvez, porque essa memória traga consigo os desejos mais acalentados por Lívia.

Assista ao teaser do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=o4dX_CkxxG8&feature=youtu.be

 Visite a página do espetáculo no facebook: www.facebook.com/espetaculolivia/

SERVIÇO:

LÍVIA – Gênero: drama familiar

Onde: Teatro Parlapatões

Praça Franklin Roosevelt 158, Consolação, São Paulo – Telefone: 11. 3258-4449

Quando: temporada de 30 de junho a 30 de Julho de 2017 (curta temporada)

Sábados (21h) e Domingos (20h) – Duração: 50 minutos – Classificação indicativa: 14 anos

Ingresso: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia) – Estacionamento próximo ao teatro: R$ 15,00

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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