(*) por Aguinaldo Gabarrão

A Cia Lúdicos de Teatro Popular é conhecida na zona norte de São Paulo desde 2005 quando apresentou “Histórias que o vento conta”, “Sonho de uma noite de verão”, “A Ciranda do Villa” e, mais recentemente o espetáculo “Mário e as Marias”, focados para o exigente público infantil e seus acompanhantes, os adultos.

A trupe, literalmente na estrada, nas praças e ruas, chega aos 17 anos de existência com prêmios e indicações importantes. O mais recente foi o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de 2013 na categoria “Melhor Espetáculo de Rua para Crianças” com “Mário e as Marias”. Neste ano de 2017, o coletivo foi contemplado com o Prêmio Zé Renato da Secretaria Municipal de Cultura para a pesquisa da vida de Abelardo Pinto, o palhaço Piolin.

No início de sua trajetória os Lúdicos realizaram montagens de textos clássicos, a chamada dramaturgia de gabinete (concebida solitariamente por um autor) e, posteriormente, passaram para uma linha de pesquisa diferente, na qual os próprios integrantes do coletivo desenvolvem o tema, discutem, constroem a história. Nesse árduo trabalho, a trupe escolheu como suporte dramatúrgico o teatro épico, forma de expressão da linguagem teatral na qual o discurso tem, entre outros elementos, a presença de um coro, que faz a intermediação com o espectador e provoca um efeito no qual o público tem atitude ativa, não se deixando anestesiar pela história.

Outro aspecto que identifica essa opção pelo épico é o uso da música, que serve para narrar a história. O discurso da palavra não tem muitas vezes o tratamento de um diálogo realista, porque a poética está na percepção e nas sensações que esse formato provoca. Além disso, há uma intencional ruptura com a linearidade da ação dramática. Essas características já se apresentavam bem delineadas no espetáculo “A Ciranda do Villa” de 2009, produção da Cia Lúdicos, que deu início ao projeto de pesquisa sobre a vida e obra de artistas brasileiros, denominado “Esse homem é brasileiro como eu…”.

O espetáculo “Mário e as Marias”, dirigido e produzido por Gira de Oliveira, faz parte da segunda fase desse projeto e aprofunda o estudo da linguagem voltada para o público infantil, que é capturado pela beleza e discurso poéticos muito bem conduzidos pelo coro de vozes e interpretação das atrizes Alba Brito, Gizele Panza, Jéssica Nascimento, Juliane Pimenta, Vera Carnevali, Aila Rodrigues e Luana Curti sob a competente direção musical de Pedro Paulo Bogossian.

Na releitura do grupo, o menino Mário recebe de presente de seus pais, um par de óculos muito especiais, que permitem que ele enxergue o mundo de uma forma surpreendente. É o nascimento de um novo olhar. Ele parte em busca daquilo que seus olhos passam a ver: Maria, a menina-mulher que representa nossa gente, nossa terra, nossa cultura, e se torna a grande aventura de sua vida.

Do nascimento até sua morte, a vida da personagem é pontuada por quatro quadros que demarcam os ritos de passagem. E, nesse momento, percebe-se que as escolhas do coletivo e da direção de Gira de Oliveira, acertam na forma de apresentar o escritor para o público infantil. Não se perde tempo em contar uma história cronológica, embora importante. O que atrai o olhar do público para o espetáculo é justamente apresentar Mário impregnado de brasilidade, multifacetado no folclore, nas músicas, na poesia e danças populares que ele tão bem soube transportar para a literatura e nas pesquisas que produziu ao organizar e dirigir o departamento de cultura na cidade de São Paulo em 1935.

A delicadeza e respeito com que a Cia Lúdicos tem na carpintaria teatral vêem-se igualmente na cenografia simples e de belíssimo impacto visual, produzida pelas “As Mariposas” e elenco, sob coordenação de Maria Zuquim e Juliana Napolitano. São utilizados materiais como bambus e cabaças, que pendem pelas laterais do espaço onde o jogo teatral é estabelecido e formam ao mesmo tempo um portal estilizado. Essa ressignificação de materiais completa-se com outros signos da nossa cultura, como o boi bumba. Além disso, livros enormes, dispostos na cena mediante o desenrolar da história, ganham outras tantas funções e compõem plasticamente os diversos quadros.

Os figurinos, também assinados pela dupla, foram pacientemente combinados em tecidos, cores e texturas muito visuais que trazem signos da nossa cultura popular, porém, sem prender-se a indumentária dos folguedos conhecidos. O que se vê é a síntese dessas manifestações. O conjunto trás organicidade às diversas danças, coreografadas pelo pesquisador Aurélio Prates e pontuadas pelo som do djembê (tambor de origem africana), cuja sonoridade embala a aventura de Mário em seus caminhos e descobertas no contato com a cultura popular.

Outro aspecto importante na direção de Oliveira é ter optado pelo “sistema coringa”, técnica desenvolvida por Augusto Boal (1931-2009) a partir do teatro épico de Brecht, no qual não há no espetáculo a figura de uma atriz principal, pois os papéis são trocados entre elas. Assim, um Mário “novo” é apresentado pela leitura particular de cada atriz, enquanto as demais formam o coro grego das Marias, bela metáfora da riqueza cultural de nossa civilização.

Com o espetáculo “Mário e as Marias” a Cia Lúdicos de teatro popular dá passos certos na construção de sua identidade artística para o teatro de rua em São Paulo.

SERVIÇO:

Mário e as Marias

Classificação indicativa: livre / Duração: 60 minutos

Quando: domingo, dia 21 de maio.

Locais:

SESC TAUBATÉ (11h00) – Entrada franca

SESC IPIRANGA (16h00) – Entrada franca

Teaser do espetáculo: www.youtube.com/watch?v=Ikjxpd7xtvE

(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

aniversario bergamini

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here