por Carlos Giannazi (*)

Recentemente, a burocracia da Secretaria Estadual de Educação (SEE) veio a público, provocada pela mídia, para dizer que dobraria o número de  professores mediadores de  conflitos nas escolas, hoje estimado em 1,2 mil. Essa declaração merece alguns comentários para colocar a realidade dos fatos no seu devido lugar e mostrar a tática da administração de fazer mudanças quase sempre para piorar o que já não está bom.

A violência que assola a sociedade tem lugar cativo na escola. Dentre outras causas, pelo descaso com que as últimas administrações têm tratado a instituição, quase a matando pelos minguados investimentos. Para tentar responder a isso, a burocracia criou o sistema de proteção, o registro de ocorrência escolar, a aferição da vulnerabilidade social da comunidade e, há poucos anos, a função de professor mediador de conflitos para atuar dentro da escola.

Não se sabe do resultado dessas medidas. Ou, se a burocracia sabe, guardou-o para si. Apesar da crescente demanda pelo combate da violência dentro da escola, cuja face mais presente é a agressão física entre alunos e a professores, não se titubeou em reduzir o módulo do professor mediador na escola, com medidas estranguladoras expostas em resoluções publicadas entre o final do ano passado e o início deste. Cortou pela metade o módulo e ainda atribuiu parte das ações ao vice-diretor da escola que tenha o programa Escola da Família – um profissional já sobrecarregado com tantas outras atribuições. Além de tudo, adotou a postura de permitir a ocupação da função apenas por servidores que estão sem aulas, encolhendo o universo dos possíveis candidatos e afunilando o perfil do mediador. Em razão disso, mas não apenas por isso, a violência cresceu na escola, a ponto de ser manchete continuamente na imprensa e exigir uma explicação da SEE.

E a resposta veio, bem ao gosto da publicidade inútil, do marketing, fogos de artifício no vazio. Uma nova resolução, 41/2017, secundada por outra, 42/2017, prometendo, nas palavras do secretário, “dobrar o número de professores mediadores”. Dobrar um número tão baixo, para um universo muito maior de escolas, não anima as expectativas. Mas a resposta pode ser muito pior do que se imagina, e podemos ver repetir a política de “mudar para nada mudar”.

Mantém-se a restrição do universo de possíveis candidatos, limitando-o aos que não estão em regência – o que comprova que a burocracia quer, mas não quer. A função ainda ficou nas mãos do vice-diretor da Escola da Família. Ninguém sabe, pois os documentos da burocracia são mal redigidos e deixam vazios de explicações, se os professores da categoria F atuais ocupantes da função, mesmo com bom desempenho, serão mantidos.

Ainda de acordo com a resolução 41/2017, o módulo de professor mediador de cada escola fica condicionado ao cruzamento do “índice de vulnerabilidade social”, apenas do considerados pela burocracia, com o registro de ocorrências escolares, que ninguém sabe direito a que veio e para que serve, já que as escolas nunca têm respostas dos registros feitos.

Ou seja: corre-se o risco de tudo ficar como antes ou piorar. A violência continuará crescendo e o número de mediadores de conflitos continuará diminuindo. O próximo ano está chegando e poderemos constatar se a burocracia da SEE mudou para melhor ou para pior. Os números poderão responder.

Com a palavra, o secretário estadual de Educação.


(*) Carlos Giannazi é deputado estadual (PSOL), professor universitário, diretor de escola pública, mestre em Educação e doutor em História (USP). Foi vereador da capital de 2001 a 2007, candidato a prefeito de São Paulo em 2012.  Como deputado apoia melhorias efetivamente a Educação, não deixando a saúde, segurança, meio ambiente, transportes, cultura e lazer.


Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço “Opinião” são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

Natal 2017 CN

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here