por Conceição Lourenço (*)

Estamos na semana de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.  Este dia provoca polêmicas, eu até já ouvi dizer: “por que não tem dia da consciência branca?”, indagação que não merece resposta.

Mas, por conta de um probleminha recorrente, no último feriado, dia 15, fui ao Pronto Socorro me consultar. Por ainda faltar um poquitinho pra eu ser idosa, por eu não estar febril e porque minha pressão arterial  estava em dia (eles fazem triagem, logo que a gente chega)   tive de esperar minha vez por quase duas horas.

São Paulo inteira ficou doente naquela quarta-feira, dia do jogo do Corinthians. Eu estava sentada na sala de espera e observei a moça da limpeza, que limpava os banheiros toda concentrada. Pelo jeito dela percebi que era imigrante (refugiada), deduzi Haiti.

Em toda aquela pequena multidão, nós éramos as únicas negras. Quando ela terminou os três banheiros. Tirou um papel do bolso, titubeou um pouco, e veio em minha direção: “Você tem uma caneta?, eu tinha, emprestei e fiquei vigiando minha caneta, sou ciumenta.

Ela precisava marcar algo tipo o horário que fizera aquela limpeza. Pois em um hospital banheiros devem ser limpos de hora em hora. Me devolveu a caneta com um sorrisão e um obrigada com forte sotaque francês. No meio de tanta gente, ela confiou em mim. Viu em mim uma irmã, companheirismo.

Hoje fui novamente ao mesmo hospital fazer dois exames de rotina (aqueles chatos de uma vez por ano). Perto do estacionamento,  estavam alguns trabalhadores sentados no chão, fazendo a sesta, ouvi: “Ei, amiga”, olhei era ela, com mesmo sorrisão, acenando. Acenei também, feliz por vê-la.

Está acontecendo um fenômeno na cidade que são as mulheres negras assumirem os crespos, muito crespo, super crespos. Andando a pé por São Paulo, a gente nota muitas cabeludas. Orgulhosas do Black. De várias cores, várias texturas…É lindo. Mas quando a gente se cruza (também uso black), sem se cumprimentar, só com um olhar, acontece uma cumplicidade…

Só quem é crespa é que sabe. A gente se olha dentro dos olhos, é fantástico. Deveríamos nos unir e criar um partido, o verdadeiro PC, Partido das Crespas, talvez seja utopia.

Se bem que aparência é uma grande identidade. Aparência reflete o que vai por dentro. Enfim… a cumplicidade da haitiana comigo, e das crespas em geral é um belo exemplo de Consciência Negra e significa UNIÃO.

Sim, sem esquecer que “sem Educação não há liberdade”, vamos estudar. Vamos esquecer de vez a tribo inimiga*, vamos dar um sorrisão para todo o mundo e celebrar o Dia da Consciência Negra.

*Quando as pessoas negras eram sequestradas na África e colocadas em um navio pra vir para o Brasil, para serem escravizadas, eles sempre misturavam tribos inimigas na navegação. Para que houvesse discórdia. Para que não houvesse cumplicidade.

Este fato dificultou a união para se rebelarem. Cada um falava um dialeto. Demorou para se falar português. Escravo nascido no Brasil, e que falasse português  valia menos, pois se rebelava, se entendia com os outros.


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


Nota da Redação: As opiniões publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. Os comentários nele emitidos não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

Vestibular2018

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora