por Conceição Lourenço (*)

Numa manhã dessas, manhã chuvosa, precisei ir ao centro da cidade resolver umas coisas. Em de vez  ir de metrô resolvi ir de carro. Era meio da manhã, o trânsito já havia se acalmado, arrisquei.Fui a uns três lugares, resolver problemas burocráticos e tomei o rumo de volta pra casa.

O semáforo da Avenida do Estado fechou, e eu fiquei aguardando o verde. Minha faixa era a da extrema esquerda, próximo à calçada. Naquele cruzamento, com a Av. Tiradentes, ficam ambulantes e uns moradores de rua também. Não sei como aguentam o cheiro do Rio Tamanduateí.

Logo que meu carro parou, um dos sem-teto começou a me chamar, gesticular pra mim. Olhei com o canto do olhos e não dei atenção. Pensei comigo: “Vai me pedir dinheiro”.

Mas ele insistia em falar comigo, em me chamar. Até que, com dificuldade, se levantou do chão e veio em minha direção. Claro que senti medo. Às vezes são violentos, outras vezes se disfarçam de mendigo para nos assaltar. Meu coração disparou.

Fiquei olhando de canto de olho, era um homão, negro, imundo, rosto inchado, olhar triste, como continuava a falar deu para ver falhas de dentes também. Encostou no meu carro. Não teve jeito. Tive de encará-lo.

Como eu estava com o vidro mais que fechado, li nos lábios ressecados dele: “A senhora fechou a porta do carro com a saia pra fora. Vai sujar…”. Não acreditei. Olhei e era mesmo. Saia muito longa, rodada, me distraí e a prendi fora da porta. Puxei-a  para dentro.

Ele falou e voltou a se sentar no chão. Na hora,  sentimentos múltiplos brotaram , mas o primeiro foi vergonha. Vergonha de mim, por achar que uma pessoa no “fundo do poço” não poderia me ajudar.

Agradeci com sorriso tímido, ele nem ligou.

O farol abriu, e no próximo quarteirão encostei o carro para refletir naquilo tudo. Fui pra casa e perdi o dia por este fato, envergonhada. Como EU  grito aos quatro cantos que não tenho preconceito? Ele só queria me ajudar, me alertar.

É incrível, pode se perder tudo, tudo, mas não a educação, a solidariedade, o cavalheirismo, a moral, o caráter e tantas outras coisas. Quantas e quantas pessoas em situação de rua ainda preservam sua essência? Com certeza muitas e muitas.

São Paulo me endureceu, e gosto tanto desta cidade. Ao meu mendigo, com carinho, perdão…


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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