por Conceição Lourenço (*)

Por 16 anos fui ritmista de bateria de Escola de Samba. Rosas de Ouro, Colorado do Brás, Gaviões da Fiel e X-9 Paulistana. Era (é ainda, mas uma tendinite me impede) uma paixão. Aos 11 anos, comecei na fanfarra do colégio, Padre Manoel da Nóbrega, na Casa Verde, tocando caixa. O instrutor ensinou um a um (uma a uma).

Já adulta mirei na bateria da escola de samba. Era começo dos anos 80, e não havia mulheres fazendo isso, mas eu queria. Fui logo comunicar à rainha- mãe que fez as regras: “Escola de Samba só no período de Carnaval, nas férias da Faculdade (de Jornalismo)”.

Ok. Falei com um, com outro e optei pela Rosas de Ouro. Eu tinha um primo lá, na Harmonia. O combinado foi ele me apresentar pro mestre de bateria. Fiquei meses só ouvindo discos de samba e batucando em cima da mesa. Eu não tinha referência dentro de casa.  Chegou o domingo de falar com mestre Zuca (ex-repinique, primeiro ano dele de mestre, substituiu mestre Lagrila).

Lá fui eu… Zuca  não olhou na minha cara, fez algumas perguntas. Eu vinha da fanfarra do colégio. Pediu pra eu voltar no domingo seguinte. Voltei, tímida, medrosa, nervosa ele fingiu que não se lembrava de mim. Agitado, ocupado, grosseiro, pediu pra eu voltar na quarta-feira.

Cheguei cedo demais, mas esperei. Nesta quarta ele falou pra eu voltar no domingo. Voltei, vi que ele estava me enrolando e o indaguei. Não sei que cara que eu fiz, mas ele mandou alguém me dar uma caixa, nervoso, incomodado,  mas foram 14 anos kkkkk.

Na hora, todos os 200 batuqueiros da Rosas de Ouro me rejeitaram, com exceção de 4: Dalmo, os irmãos Romildo e Ronaldo, e um  outro não me lembro o nome. Adamastor também era simpático (sim, hoje mestre). Eu sabia que não poderia dar motivo, então era a primeira a chegar e a última a sair.

Não passava o instrumento, tocava 2 horas sem parar. Doía demais o braço, mas tem um momento que a gente entra em êxtase… Não conversava com ninguém. Não saía do lugar. Trazia comigo a rigidez da fanfarra. Sem sorrisos.

O primeiro ano (primeiro desfile) foi bem difícil. Um dos dramas era pegar o instrumento… Os meninos não gostavam que eu entrasse na salinha, aí o Zuca decidiu: “Leva sua caixa pra casa”.

No dia de entregar a fantasia estava meio desorganizado. Todos se amontoavam… uma bagunça. E eu perdida… Foi quando a esposa dele veio e me disse: “Sua fantasia, não está aí. Guardei  na minha casa. Depois a gente vai lá buscar”. Me senti fortalecida, mulheres unidas. Fui à casa deles, perto da quadra. Estava dentro de um plástico em cima do guarda-roupa.

Que lembrança boa, eles tinham uma bebê… Nunca tive problema com assédio, nunca, nada disso. Uma época a caixa se apaixonou por uma barrica (surdo pequeno). Durou bem uns 2 anos… passou. Eu lidava com 200 homens de periferia, batuqueiros e que em pouco tempo estavam me defendendo.

Várias frases me vêm à cabeça: “Quem tem um sonho não dança”, por exemplo. Tenho o maior carinho por todos esses meninos, infelizmente perdemos muitos, muitos. Em maio último perdemos o Nanau, alegre, risonho, caixa também, muito meu amigo. Fiquei muito triste, conversei com Romildo (que depois também foi meu mestre) que fez um grupo no Face: “Batucada anos 80/90”. Semana passada Sueli Reina me ligou, pois fez um grupo no Whats… vamos nos encontrar em 24 de setembro. Estou feito criança, esperando. Nunca vou ter a batida perfeita da caixa do Lúcio Louco (perdemos também), mas não vamos deixar o samba morrer, não vamos…


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>


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