Negros na Universidade

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por Conceição Lourenço (*)

Quando eu tinha 17 anos, finalmente mamãe me levou para conhecer Ribeirão Preto, a terra dela. Havia 33 anos que ela não ia lá, mas sabia que tinha muitos parentes, muitos primos. Ela não sabia nada do endereço dos primos, mas fomos mesmo assim.

Chegamos e nos hospedamos num hotelzinho lá embaixo, perto da rodoviária (antiga rodoviária). Que saudades, férias inesquecíveis. E inventamos um monte de passeios. Me levou à Praça XV de Novembro, me contou mil histórias. Me mostrou o teatro Pedro II.

Ela tinha uma amiga, que morou aqui em São Paulo, e havia se mudado para lá, dona Florípedes. Fomos na Florípedes mais de uma vez almoçar. Fomos na casa de outra amiga, Filhinha (o nome era Conceição). E sempre perguntando do primo Luís.

Ribeirão Preto, em 1977, já era bem grande, não dá pra achar alguém assim: “Um negrão bem alto, bem alto, sargento da PM. Mora em Campos Elíseos…”. Todos davam dicas, mas nossa semana passou e não achamos ninguém.

No último dia, um domingo, fomos à chácara da Florípedes e finalmente alguém nos deu um endereço. Na segunda, depois do almoço, já no fim da tarde fomos procurar. Achamos a casa quem nos atendeu foi um gigante chamado Nazaré (filho caçula). Mamãe se identificou ele chamou o pai (outro gigante) que nos mandou entrar.

Sentamos… Todos meio confusos, mas quando o primo Luís se lembrou da mamãe… foi a festa. Tirou o carro e foi com a gente no Hotel, para buscar nossas malas. Queria, porque queria que ficássemos na casa dele. E ficamos mais 10 dias. Ele, a mulher (Maria) e os 2 filhos eram muitos afetuosos, muito. Todos enormes.

Nesses 10 dias, almoços e mais almoços nas casas dos irmãos dele. Viagem inesquecível. O que mais me marcou foi a filha do meio, um pouquinho mais velha que eu, que havia acabado de passar no vestibular e ia cursar Serviço Social. Fiquei MUITO impressionada.

Não sabia que negros iam pra universidade. E não era só isso, ela era descolada, agitada. Fazia flores de pano para ter renda… Pirei com ela, e decidi que eu também ia pra faculdade. Ela se chama  Neuza Gonçalves, fez uma brilhante carreira como assistente social (ainda trabalha). Minha musa inspiradora!!


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá. < “Crônicas da Conceição” é publicada às 6ªs. feiras >

Nota da Redação: As opiniões publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. Os comentários neles emitidos não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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