por Aguinaldo Gabarrão (*)

Na madrugada do dia 12 de junho de 2016, a cidade de Orlando, EUA, registrou o massacre de cinquenta pessoas, ocorrido numa boate gay.  Seu autor, um jovem de 29 anos, portava um fuzil AR-15, uma pequena arma e explosivos. Após ser morto pela polícia, logo vieram as primeiras informações que davam conta de que ele frequentava a boate e havia se relacionado com rapazes.

“… porque ainda tem gente com vergonha de amar” – O Autor ==  A perplexidade dessa chacina motivou o jovem dramaturgo Rafael Hercowitz a escrever e dirigir seu primeiro espetáculo profissional.

É uma noite como tantas outras numa balada. De repente escutam-se tiros, pedidos de socorro. Há uma fuga em massa do local; porém, seis pessoas são feitas reféns por um jovem atirador. Ele faz duas perguntas aos presentes: “Quem são vocês e por que merecem viver?” A partir daí, cada um precisará responder de maneira original para continuar vivo e ser libertado.

“… uma mentira, dita 300 vezes, torna-se uma verdade!” – O Atirador == A dramaturgia propõe a discussão da questão do respeito e aceitação sexual, tema ainda não resolvido em pleno século XXI. O texto é ágil na construção da lógica que justifica as ações canhestras do atirador. Ele representa, até certo ponto, com suas perguntas e jogos sádicos, essa parcela recalcada da sociedade que só consegue conceber como forma de amor o paradigma heterossexual (quem são vocês?). E, inconformada, lança-se a toda sorte de violência física e psicológica contra aqueles que desejam expressar seu amor por alguém do mesmo sexo (porque merecem viver?).

Mas o texto vai além, ao descrever o atirador como vítima de sua própria mentira, aquela que anula seus verdadeiros sentimentos e provoca o desejo de aniquilar fisicamente a vida dos outros.

O jogo na encenação == Por sua vez, a direção de Hercowitz tem irregularidades, o que faz com que cenas densas acabem por se arrastar e diluam a tensão do embate. Diálogos com intensidade linear no tom e silêncios não encontram o tempo certo, o que reforça essa percepção de descompasso.

Não obstante isso, há bons momentos a serem destacados: simples e criativas resoluções cênicas dão força à montagem e à dramaticidade do texto, sem resvalar na pieguice, estabelecendo um código claro de entendimento para o público. Além disso, é perceptível no elenco a entrega, a boa disposição para o jogo proposto pela direção.

O espetáculo Ninguém Merece Viver lança perguntas indigestas e deixa para o público a possibilidade de formular intimamente as suas respostas.

FICHA TÉCNICA

Dramaturgia e Direção: Rafael Hercowitz

Elenco: Augusto Whisper, Carla Llaguno, Dalia Halegua, Giovana Braunstein, João Guimarães, Rafael Hercowitz

Iluminação: Rebeka Teixeira / Operação de Luz: Sofia Tapajós / Figurino: Theo Almeida / Confecção Figurino: Denise Guilherme / Cenografia: EMDOIS Design / Direção de Produção: Rafael Hercowitz / Produção: Theo Almeida, Luísa Tagnin e Lourenço Almeida.


SERVIÇO

Ninguém Merece Viver — Categoria: Drama / Classificação: 14 anos / Duração: 1h20

Teatro Commune —  Rua da Consolação, 1.218 – Telefone: 3476-0792

Temporada: de 7 a 22 de outubro – sábados e domingos — Horário: 16h00

Ingresso: R$ 40,00 a inteira / R$20,00 a meia. O teatro aceita cartão.

Estacionamento ao lado do teatro


*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

aniversario bergamini

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here