por Aguinaldo Gabarrão (*)

Imagens esparsas. Pessoas à mesa brindam, conversam. Sabem que estão sendo filmadas. Dirigem seu olhar e atenção para quem filma. As cenas fazem parte de uma típica família da Tchecoslováquia (hoje desmembrada em República Checa e Eslováquia). O narrador afirma a respeito desse instante prosaico: “… as pessoas estão felizes”.

Em outro momento, esse mesmo país voltará à narrativa – porém, numa situação adversa. As câmeras agora estão escondidas e registram tanques soviéticos nas ruas; correria, pessoas são dispersadas.

“É mesmo difícil prever o futuro”

Essas circunstâncias de completude e posterior desintegração serão narradas e reinterpretadas pelo documentarista João Moreira Salles, que também assina o roteiro.

O ponto focal é o incendiário ano de 68. Por meio de diversos fragmentos de filmes documentais dessa época, o cineasta consegue relacioná-los com registros amadores realizados por seus familiares e, em especial, por sua mãe, Elisa, à época em que esteve na China de Mao Tsé-Tung. O resultado dá um sabor todo especial ao documentário No Intenso Agora.

“Nem sempre a gente sabe o que está filmando”

O diretor assume, em primeira pessoa, o papel de observador de acontecimentos históricos e decisivos: as reivindicações dos estudantes franceses e operários no maio de 68; a Primavera de Praga, com o avanço das tropas soviéticas e a comoção popular com o suicídio de um jovem estudante checo; o funeral do estudante Edson Luís, assassinado por policiais no período da ditadura militar brasileira.

A entonação de Salles é impessoal, mesmo quando comenta recortes de filmes que apresentam um pouco da intimidade da sua família. Sua análise desconcertante e irônica daquele universo imagético é potencializada pela montagem de Eduardo Escorel e Laís Lifschitz.

 “Na minha memória minha mãe era feliz o dia inteiro”

A trilha sonora original de Rodrigo Leitão, sutil e arrebatadora, é utilizada sob medida como um elemento sensorial nostálgico dos ideais que morreram e das lembranças mais caras a Salles: a felicidade de sua mãe.

Figura recorrente no desenrolar do documentário, Elisa praticamente desaparece nos registros mais recentes, mas é feliz na China dos anos 60, segundo o documentarista. E, nesse momento, ele amarra a felicidade fugidia da mãe àqueles que também viveram a utopia das revoluções, “… quando tudo parecia possível”.

Assistir ao documentário No Intenso Agora é experienciar o sentido da frase dita por um estudante francês na efervescência utópica de 68: “cada segundo tem a espessura da eternidade”.

Assista ao trailer do filme:

                     https://www.youtube.com/watch?v=xLpFd1JjhzE


FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: João Moreira Salles / Montagem: Eduardo Escorel e Laís Lifschitz == Trilha sonora: Rodrigo Leitão / Pesquisa de Imagem: Antonio Venâncio / Produção Executiva: Maria Carlota Bruno / Produção: VideoFilmes

Gênero: Documentário / Duração: 127 minutos

Classificação indicativa: Livre / País: Brasil / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 9 de novembro de 2017


SERVIÇO * (Confirme os horários)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA

Rua Augusta 1470/1475 – Consolação

Sala 2 : 16h30, 19h e 21h30 (Dias 4 e 5.12 não haverá sessões às 19h e 21h30)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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