por Aguinaldo Gabarrão (*)

Unir, num espetáculo teatral, a obra As Mil e Uma Noites e os conflitos entre Israel e a Palestina parece, a princípio, inusitado. Mas, apesar da aparente discrepância entre a ficção das narrativas milenares e os acontecimentos atuais e explosivos na faixa de Gaza, Noites Árabes, o primeiro espetáculo do grupo Vila 8, é uma boa surpresa.

A sabedoria da jovem rainha ==  Sobre um tapete, cinco atores recontam relatos decorrentes do conflito Israel – Palestina de forma poética e, muitas vezes, contundente. A ligação entre esses fatos é sempre feita por Sahrazad, jovem que assumiu para si a incumbência de mudar as atitudes do rei Shahriyar, que, após a traição de sua rainha, desposa toda noite uma virgem, mandando matá-la na manhã seguinte para não ter a chance de ser traído novamente.

A corajosa Sahrazad casa-se com o rei e, após a noite de núpcias, antes do amanhecer conta uma história que não se completa, pois precisará de outra noite para continuar. Dessa forma, ao provocar a curiosidade do monarca, sua sentença de morte não é aplicada durante As Mil e Uma Noites seguintes.

“Essa é uma história de amor” == A dramaturgia de Isa Kopelman constrói a teatralidade a partir das referências na corte do rei onde está Sahrazad e converte em texto poético os depoimentos de dor e subjugação de palestinos. Os relatos ficcionais e verdadeiros relacionam-se e dão ensejo a outras narrativas que se sobrepõem. É uma das virtudes dramatúrgicas da peça, mas também esse recurso causa, em outros momentos, dificuldades no entendimento do que se quer contar pelo excesso de situações e imagens alegóricas.

Não obstante esse aspecto, o texto nos permite a reflexão da importância de contar histórias como elemento de identidade e sobrevivência, hoje tão pouco valorizada no mundo ocidental hi-tech em que vivemos.

O tapete é a fronteira == A cenografia resume-se a um praticável sobre o qual repousa um tapete de 3m X 2m. Nesse espaço, simbolicamente de confinamento do povo palestino, os cinco atores-narradores revezam-se no trabalho corporal e na narração, o que impõe à direção de Eduardo Okamoto o desafio de representar muitos ambientes e situações em apenas seis metros quadrados. O diretor extrai dos atores partituras corporais de belo efeito plástico e, em outros momentos, desequilíbrios e quedas, que rompem o sentido realista da cena e proporcionam um estranhamento oportuno. Porém, o excesso de quedas esvazia o sentido de outras cenas de potencial teor dramático e narrativo.

O elenco, uniforme e com boas atuações, é conduzido adequadamente pela direção e assume por vezes, o papel de um coro, o que reforça aspectos da dramaturgia e, metaforicamente, representa a coletividade desse povo que precisa fazer-se ouvir.

A trilha sonora original foi composta por Marcelo Onofri, que pontua com a sonoridade do derbake o clima do oriente, e, por vezes, promove a prontidão corporal para os atores.

“Assim como a felicidade, as tristezas não perduram” == Com o espetáculo Noites Árabes, o grupo Vila 8 não pretende discutir as questões que motivam os conflitos entre Israel e Palestina, muito menos assumir um lado, mas usa esse conflito contemporâneo como pano de fundo e prioriza em sua pesquisa a necessidade milenar do homem falar de si mesmo como forma de sobrevivência, importante elemento de ligação com As Mil e Uma Noites de Sahrazad, que também precisava contar histórias e encantar o rei para continuar viva e superar a sua própria dor.

NOTA: o grupo Vila 8 foi selecionado para participar do Festival Internacional de Teatro de Tânger, no Marrocos, onde se apresenta em outubro. O grupo está com uma campanha no site CATARSE com o objetivo de arrecadar recursos para a viagem. https://www.catarse.me/noites_arabes_no_marrocos_036b

Assista ao teaser do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=J52xuTkFMNw

Acesse a fanpage do grupo: https://www.facebook.com/vilaoito/


FICHA TÉCNICA 

Direção: Eduardo Okamoto / Dramaturgia: Isa Kopelman

Atuação: Cadu Ramos, Lucas Marcondes, Tess Amorim, Vanessa Petroncari e Virgílio Guasco

Composição musical: Marcelo Onofri / Execução musical: Edu Guimarães, Marcelo Onofri e Gabriel Peregrino

Iluminação: Silvio Fávaro e Eduardo Okamoto / Estruturas de iluminação: Cadu Ramos, Silvio Fávaro e Virgílio Guasco / Coordenação técnica: Silvio Fávaro

Cenografia: Eduardo Okamoto / Cenotecnia: Erich Baptista e Lucas Marcondes

Figurino: Vanessa Petroncari / Maquiagem: Tess Amorim / Arte gráfica: Cadu Ramos / Operação de luz: Ewerton Ribeiro / Operação de som: Bruno Rods, Victor Rosa e Carolina Banin

Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro — Fotografia: Thaiane Athanásio

Produção: Vila 8 —  Consultoria em Produção: Daniele Sampaio | SIM! Cultura


SERVIÇO:

Noites Árabes

Onde: Oficina Cultural Oswald de Andrade

            Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo – Telefone: (11) 3222-2662

Quando: de 28 de agosto a 18 de outubro de 2017 – segunda à quarta às 20h (sessão extra dia 28 de setembro – quinta-feira – 20h)

Horários: 20h00         –     Duração: 75 minutos

Ingressos: Entrada franca. Retirada de ingresso com 1h de antecedência.

Classificação: 14 anos  –   Lotação: 30 lugares


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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