por Conceição Lourenço (*)

Lá pelo início dos anos 1990, eu morava com mamãe. Só as duas, numa casa térrea, e deu um problema no encanamento do quintal, na ligação que leva tudo pra caixa de esgoto na calçada.  Indicaram-me um encanador, com garantias de ser um excelente profissional, além de ter um bom preço.

Lá veio ele, Isaías, combinamos tudo, era serviço para uns três dias,  rasgar todo quintal, trocar a tubulação, mas… vamos lá. No segundo dia  (tudo ainda por terminar), voltei do trabalho, no começo da noite, e fiquei folheando uma revista no sofá da sala, mamãe estava na cozinha preparando nosso jantar, quando alguém bate à porta.

Pelo vidro vi que era o encanador. Abri, ele entrou. Ele era um homem de pele clara e pequeno porte, mas com um vozeirão e forte sotaque da Paraíba, foi logo dizendo (gritando): “Dona Conceição, amanhã eu não venho. Preciso ir ao Fórum, tenho uma audiência”.

Eu tranquila, apesar da cara fechada dele, perguntei audiência de quê. E ele me respondeu rápido sem nenhum constrangimento: “Dona Conceição, eu matei um cara”, congelei, não acreditei, tinha muita simpatia por ele, que continuou: “Poxa, dona Conceição, eu estava no bar, jogando minha sinuca e o cara… encostou em mim por trás. Ah, não pensei duas vezes, tinha uma faca no balcão, peguei e enfiei nele.”, eu me encolhendo no meu sofá, tipo ‘ele vai me matar também’.

Mas ele estava tranqüilo, desenvolto: “Eu fui errado, dona Conceição? Ele encostou  em  mim. Fui errado?”, me olhando nos olhos… Eu, em choque, fiz com a cabeça que não. Ele estava certo. Mas ele não parava de falar, e aí veio com a pérola da noite: “Dona Conceição, vou falar uma coisa pra senhora, nunca mate ninguém, porque de noite, quando fica tudo escuro, na hora de dormir, o cara fica aparecendo na frente da gente.

“Não mata, dona Conceição, porque de noite a gente fica vendo o cara e não consegue dormir”. Meu Deus… Há tempos sei que não se deve julgar ninguém ( até para não ser julgada), mas que juiz condenaria um homem desses, que entendia que defendeu a própria honra e que tinha um coração puro a ponto de me aconselhar?

Sou cristã, sei do  quinto mandamento: Não matarás. Minha maior surpresa era nunca ter antes visto um assassino de perto, olhando nos meus olhos. Mas Isaías não parava de falar. Parecia que estava “meio” orgulhoso: “Se a senhora quiser, eu tenho a fita (fita cassete) onde o Gil Gomes (*) conta minha história”. Eu quis.

Daí  dois dias ele me trouxe a fita. Mamãe bravíssima comigo. Ouvi, ouvi e levei na redação, no dia seguinte. Contei a história pro Edu, que contou pra todo mundo. A fita rodou umas 15 vezes kkkkkkk. Ouvindo o relato do Gil vi que era um trabalhador que veio pra São Paulo pra melhorar de vida, seis filhos.

Acho que Isaías não foi condenado, não. Terminou direitinho meu serviço. Sempre o via pelo bairro, nos cumprimentávamos, sempre … Eu me mudei de lá. Pobre Isaías, mas uma pessoa verdadeira, de alma pura!

(*) Gil Gomes é um jornalista (radialista) pioneiro em narrar crimes e tragédias na mídia. Gil tinha, penso eu, 90% da audiência, na periferia. Muito competente!

(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras/final de semana >>


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