por Aguinaldo Gabarrão (*) 

=== A impossibilidade de um animal ser “cordial” ofereceu possibilidades interessantes a diretora e roteirista Gabriela Amaral Almeida. Ela criou um universo particular, onde explora a oposição de ideias sobre brutalidade x afabilidade com tintas fortes no seu filme mais recente: O Animal Cordial.

Um restaurante de classe média em São Paulo é invadido, no fim do expediente, por dois ladrões armados. O dono do estabelecimento, o cozinheiro, uma garçonete e três clientes são rendidos. Inácio (Murilo Benício), o chefe amistoso e cordial – precisa agir para defender seu restaurante e seus clientes dos assaltantes.

Tensão mal disfarçada ===  O clima logo de início revela claramente a tensão em alto grau na relação de Inácio com a solícita garçonete Sara (Luciana Paes), passando pelos funcionários da cozinha, em especial por Djair (Irandhir Santos), o líder naquele ambiente.

Os diálogos curtos, bem construídos, além da cenografia, iluminação e fotografia que dão um tom de certa decadência, trazem em seu subtexto, os componentes dessas emoções prestes a explodirem: a divisão de classes, estabelecida na distinção dos ambientes e funções; a vigilância ferina de Inácio no controle de seus subordinados, obrigando-os a permanecerem além do horário para atender outros clientes.

“Não fala assim comigo, eu sou o chefe!” ===  Porém, com a entrada da dupla de ladrões Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), é que a trama ganha o impulso necessário para disparar as reações mais instintivas e cruéis no dono do restaurante.

Assim, o ambiente de terror surge nesse estado de ser em que as personagens começam a demonstrar atitudes em oposição à sua máscara social. O roteiro se aproxima de questões que tocam temas da nossa sociedade: preconceito de gênero; a psicopatia nas relações do trabalho entre classe dominante e trabalhadores; a total ausência de empatia com a dor do outro.

“Basta um tiro porque o bichinho tem pouca carne” === E, na medida em que o instinto assume o protagonismo nas terríveis ações das personagens, insere-se por completo o sentimento de proposital banalidade. É o ponto chave, encontrado pela diretora Gabriela Amaral para provocar o público à reflexão sobre os caminhos para o quais a nossa sociedade está se inclinando: a banalização da violência nas suas mais diversas e abomináveis formas.

Assim, o sangue, elemento presente em abundância em cada centímetro quadrado desta produção, torna-se mais um efeito para pontuar essa marca estética do filme, embora possa causar no público o efeito de distanciamento, talvez contrário ao que se deseja: revelar que a perda deste fluído vital, a tudo desestabiliza e não permite mais o viver, o sentir, o existir.

Slasher – subgênero do terror ===  Se a maneira de construir a história tem alguns excessos na violência visual, característica do subgênero Slasher, há também no uso da trilha sonora essa mesma escolha, o que a torna em algumas sequencias um elemento redundante e dispensável.

Em outros momentos há cenas inconclusivas: Sara está na cozinha, alimentando-se como um animal, o que sugere seu lado instintivo, mas a informação não se liga na continuidade da história.  E Inácio, num determinado momento desaparece, reaparecendo posteriormente sem que isso, faça sentido na trama.

Ambiguidades das personagens === A sequencia na qual Inácio (Murilo Benício) ensaia uma futura entrevista diante de um espelho e, logo em seguida ao destruí-lo, fragmenta a sua imagem, sugere as várias facetas que oculta e a ambiguidade que norteará as principais personagens. Benício teve o cuidado de mimetizar ao máximo suas ações internas e traz maior impacto em seu desempenho. A atriz Luciana Paes (Sinfonia da Necrópole) é o ponto de equilíbrio no elenco. Há em sua interpretação a comicidade trágica, indispensável a sua personagem Sara.

O cozinheiro Djair, ambíguo em sua sexualidade, traz consigo o peso de quem luta para firmar-se diante da onipotência do chefe homofóbico. A composição de Irandhir Santos eleva a sua personagem a sentimentos contraditórios: ora subsiste o protetor dos companheiros ou aquele que, ao precisar resistir à opressão, tornar-se também o opressor. E Ernani Moraes – que interpreta o ex-policial Amadeu – confere o necessário peso dramático.

Intensidade === O Animal Cordial é um filme que foge ao modelo realista e pasteurizado de se fazer cinema e contar uma história. É resultado da parceria bem sucedida entre a diretora e roteirista Gabriela Amaral Almeida e do produtor Rodrigo Teixeira (A Bruxa).

A dupla imprime sua digital, construída na estética performática da violência, que pode ou não agradar, mas não se pode ficar indiferente a ela.

Assista ao trailer do filme: 

FICHA TÉCNICA

O Animal Cordial – Distribuição: California Filmes

Direção e Roteiro: Gabriela Amaral Almeida / Argumento: Gabriela Amaral Almeida e Luana Demange / Direção de Fotografia: Barbara Alvarez / Direção de Arte: Denis Netto / Figurino: Diogo Costa / Maquiagem: André Anastácio ; Som Direto: Gabriela Cunha / Diretora de Produção: Thais Morresi / Desenho de som: Daniel Turini e Fernando Henna / Trilha Sonora: Rafael Cavalcanti / Montagem: Idê Lacreta / Produção: Rodrigo Teixeira / Co-produtor: Canal Brasil / Produção Executiva: Ana Kormanski, Daniel Pech e Raphael Mesquita /

Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Camila Morgado, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Ariclenes Barroso, Thais Aguiar, Eduardo Gomes e Diego Avelino

Gênero: Thriller, Slasher, Terror / Duração: 1 hora e 36 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 18 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 9 de agosto de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


 

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

CN Institucional

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora