por Aguinaldo Gabarrão (*)

Ligar a TV e acompanhar periodicamente os confusos boletins médicos de um paciente ao longo de mais de 30 dias, não é, definitivamente, o melhor programa do mundo. Mas, era exatamente esse tema que dominou os noticiários e alavancou a audiência dos telejornais em 1985: a Via Crucis da doença e morte de Tancredo Neves, presidente do Brasil, eleito pelo Congresso Nacional e que não tomou posse.

Qual importância esse fato teve no passado e quanto ele dialoga no cenário atual da sociedade brasileira, mergulhada em outra campanha presidencial, é uma das possibilidades de leitura para o filme O Paciente – O Caso Tancredo Neves.

Ditadura x Democracia ===  O filme situa os últimos dias de vida do habilidoso político Tancredo Neves, sua angústia pessoal em querer tomar posse mesmo doente e, os equívocos e vaidades dos médicos que o trataram, ocultando do povo a real dimensão dos problemas de saúde do paciente que catalisou as esperanças de uma nação.

Se a ditadura naqueles tempos desmoronava, não é menos verdade que ainda tinha fôlego para causar estragos na frágil democracia brasileira. Ao focar os bastidores das salas de cirurgias e das juntas médicas em torno do paciente, Sérgio Rezende, constrói a mensagem metafórica de outra forma de ditadura: aquela em que Tancredo e toda uma nação, estavam nas mãos de alguns médicos, estes sim, os donos do poder.

O olhar documental === O bom roteiro de Gustavo Liptzein foi escrito a partir do livro O Paciente – O Caso Tancredo Neves, do médico e pesquisador Luiz Mir, que estudou os prontuários médicos produzidos no Hospital de Base de Brasília e no Instituto do Coração em São Paulo, ambos, locais onde o político esteve internado em seus últimos dias de vida.

A direção de fotografia de Nonato Estrela traz a novidade de evitar os enquadramentos clássicos. A câmera, por vezes, parece estar ali para registrar o momento presente, como um documento que se torna história. Ela acompanha os acontecimentos desastrosos na sala de cirurgia e as sequencias ganham em dramaticidade.

Recriar personagens === O elenco afinado tem destaque merecido nas interpretações de Leonardo Medeiros (Dr. Pinheiro Rocha) e Eucir de Souza (Dr. Freire), dois atores que trabalham com rara competência o que está nas entrelinhas de um texto. Por sua vez, Paulo Betti (Dr. Pinotti) presente em mais um filme de Rezende, consegue ser dúbio, deixando o público incomodado com as “verdades” do médico.

A atriz Esther Góes (Risoleta Neves), empresta dignidade e altivez à aparente fragilidade da primeira dama e Othon Bastos (Tancredo Neves), econômico e sutil, tem em sua composição as potências do estadista, e foge da armadilha de tentar reproduzir os gestos e olhares que notabilizaram o político.

Contador da nossa história === O diretor Sérgio Rezende escolhe os temas e personagens que capitaneiam seus filmes na medida exata que permitam um diálogo provocativo com a contemporaneidade. Ele chega à marca de 13 filmes, vários deles produzidos pela sempre competente Mariza Leão, e que constroem uma importante galeria de personagens emblemáticas da política nacional: “O Homem da Capa Preta” (1986), “Lamarca” (1994), “Guerra de Canudos” (1997), “Mauá – O imperador e o Rei” (1999).

Curiosamente, Rezende soma a essa galeria de notáveis, movidos por paixões incendiárias, a figura discreta do político mineiro, de atitudes comedidas, que com grande astúcia e habilidade, uniu o povo em torno do ideal da redemocratização. Esse mesmo povo que hoje está dividido e polarizado nessa democracia que consumiu os melhores anos de Tancredo Neves.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

O PACIENTE – O CASO TANCREDO NEVES  –  Distribuição: Paris Filmes

Direção: Sergio Rezende / Produção: Mariza Leão / Roteiro: Gustavo Liptzein / Direção de Fotografia: Nonato Estrela / Direção de Arte: Marcos Flaksman / Figurino: Kika Lopes / Trilha Sonora: David Tygel / Montagem: Maria Rezende / Coprodução: Globo Filmes e Telecine / Produção Executiva: Tathiana Mourāo / Produtores Associados: Tiago Rezende e José Alvarenga Jr. / Direção de Produçāo: Barbara Isabella / Produção de Elenco: Marcela Altberg / Finalizaçāo: Thiago Pimentel

Elenco:  Othon Bastos, Esther Goes, Paulo Betti, Otavio Muller, Leonardo Medeiros, Eucir de Souza, Emiliano Queiroz, Emilio Dantas, Luciana Braga, Mario Hermeto, Leonardo Franco, Pedro Brício, Lucas Drummond, Priscila Steinman

Gênero: drama e thriller médico / Duração: 1 hora e 20 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 10 anos / País: / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 13 de setembro de 2018


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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