por Aguinaldo Gabarrão (*)

Nesses últimos anos diversos filmes, peças de teatro e a literatura infanto-juvenil têm apresentado com maior frequência enfoques e interpretações diferentes para os antigos contos de fadas. Parte dessas produções artísticas tem cumprido importante papel na medida em que humanizam as personagens dessas histórias, ao desconstruir modelos padronizados de beleza e comportamento. As princesas não são fragilizadas e os príncipes encantados têm defeitos, além das qualidades.

Essa mesma quebra de paradigmas encontra-se no musical infantil “O Príncipe Desencantado”, que estreou a pouco mais de um mês no charmoso VIGA Espaço Cênico.

“Entre tantas estrelas, por uma se apaixonou.”

O título da peça não poderia ser mais adequado: conta a história do jovem príncipe Vick (Davi Novaes), que perde muito cedo seu pai, e por essa razão, cresce triste e desinteressado pelos assuntos do reino. Sua mãe, a Rainha (Manu Litiéry), quer obrigá-lo a se casar com uma das pretendentes da Escola de Princesas. Porém, entediado, resolve fugir do castelo e conhece, num karaokê, o também príncipe Teco (Cícero de Andrade), irmão de uma das possíveis aspirantes (Marcela Piccin), ao posto de esposa do príncipe Vick. Os dois futuros monarcas se sentem atraídos um pelo outro e, a partir daí, várias peripécias conduzem a história.

O tema central dessa encenação para crianças e jovens é o respeito ao direito de cada um expressar o seu amor e afeto a quem se deseja. Portanto, assunto atual e necessário para ser conversado entre pais e filhos, principalmente quando se vê a intolerância e a violência, em pleno século XXI, ocuparem o espaço que deve ser do entendimento e aceitação da diversidade em sua acepção mais ampla.

Com esse desafio em mãos a direção de Rodrigo Alfer consegue imprimir a necessária delicadeza durante todo o espetáculo para demonstrar a crescente afeição entre Vick e Teco. Mérito também na dinâmica que ele imprime no desenrolar da encenação, onde músicas e coreografias estão integradas a serviço da trama.

 “É uma ventania de verão intenso, chuva forte e trovão”

Coube também a Alfer a tarefa de adaptar livremente a história do romance holandês Koning en Koning (Rei & Rei), das escritoras e ilustradoras Linda De Haan e Stern Nijland. A dramaturgia está ambientada no tempo e espaço comuns aos contos de fadas, mas muito bem relacionada ao universo geek (fãs de tecnologia, jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos). Outro trunfo dramatúrgico é a boa amarração das cenas com as músicas. As belas composições de Maíra Pagliuso são diálogos musicados e fluem em perfeito equilíbrio com a direção musical e arranjos de Ettore Veríssimo.

Outro assunto bem resolvido na dramaturgia é a identidade de gênero que surge na trama sem causar estranhamento nas crianças, e sim, curiosidade para entender essa questão.

Os intérpretes, por sua vez, dão conta do recado e, afinados, cantam, dançam e encantam apoiados pelos ótimos músicos Diana Bueno (bateria), Diego Albuquerque (piano) e Clara Dum (flauta transversal). O elenco conta ainda com Vanessa Rodrigues, uma das damas de companhia da Rainha, Silvano Vieira (o coelho) e Maite Schneider, que interpreta uma misteriosa figura que surge em momentos importantes da trama.

Os cenários, com pouquíssimos elementos, resumem-se a um tecido utilizado inventivamente na construção e passagens entre cenas. Lâmpadas fluorescentes fixadas em praticáveis e movimentadas durante o espetáculo reforçam o contexto contemporâneo da montagem e circunscrevem os diversos ambientes que lembram as instalações do diretor americano Bob Wilson, mestre no uso desse recurso em suas produções.

Os figurinos são eficientes, porém, a indumentária de ambos os príncipes carece de ajustes de customização para integrar-se ao conjunto despojado e bem elaborado pela figurinista Luma Yoshioka.

“O reino só pode prosperar se houver um rei e uma rainha” – Será?

O Príncipe Desencantado é uma dessas boas contribuições para o teatro infantil por inovar a maneira de apresentar temas ainda considerados tabu, com ótimos momentos de humor, além de possuir linguagem adequada para a criançada, sem em momento algum esbarrar na necessidade de levantar bandeiras.

E parafraseando a fala da Rainha, pode-se afirmar que “O reino só pode prosperar se houver respeito entre todos”. Assim é o espetáculo O Príncipe Desencantado.

Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=I5sgNDr3U7A 

http://bacanaideias.wixsite.com/principedesencantado

www.facebook.com/oprincipedesencantadoomusical/

 

SERVIÇO:

O príncipe Desencantado

Onde: Viga Espaço Cênico – R. Capote Valente, 1323 – Pinheiros, São Paulo/SP (próximo ao Metrô Sumaré – Linha Verde) – Telefone: (11) 3801-1843

Sessões: sábados e domingos às 16h

Temporada: de 3 de junho a 30 de julho de 2017

Ingresso: R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 50 (inteira)

Classificação indicativa: Livre

Capacidade da sala: 70 lugares

Assessoria: Bacana Produções Artísticas


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

Ferias2018

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora