por Aguinaldo Gabarrão (*)

O ator e diretor Hugo Possolo e os Parlapatões, tomaram para si a tarefa de realizar a montagem do O Rei da Vela, texto que representou um divisor de águas na encenação brasileira em 1967, dirigida por José Celso Martinez Corrêa.

Para comemorar os 50 anos da histórica peça, o Grupo Oficina remontou o espetáculo em 2017, novamente sob o comando de Martinez e com Renato Borghi, único ator a estar presente nas duas montagens. Encenar uma nova versão em 2018 suscita a possibilidade de comparações quase inevitáveis.

A tropicália ===  Também comemorando sua trajetória, neste caso, 27 anos e 64 peças de teatro, o grupo, dirigido por Hugo Possolo, bebeu na mesma fonte inspiradora de Zé Celso: a tropicália. E isso não é um problema, antes, é o reconhecimento da força desse movimento que nos anos 60, uniu o pop ao erudito com doses cavalares de experimentalismo estético que modernizou a cultura nacional. E a obra de Oswald requer esse tônus.

Coube a Possolo a árdua tarefa de adaptar, dirigir e atuar nesse emblemático texto. Sua versão fez cortes cirúrgicos, contudo, sem prejudicar o entendimento e alcance da obra.

Que história é essa? ===  O espetáculo narra a saga de Abelardo I, um agiota inescrupuloso que empresta dinheiro a juros extorsivos e, tornou-se rico com o comércio de velas, uma vez que o povo não pode pagar pela energia elétrica. Desejoso de ascender na escala social, ele casa-se com Heloísa de Lesbos, de família tradicional e falida. Sua ganância o faz aliar-se ao capital estrangeiro, que logo precisará de outra marionete que o represente.

A fúria com a qual o modernista Oswald de Andrade escreveu em 1933 essa obra, só encontra terreno fértil a partir da convergência das demandas sociais, políticas e culturais de um Brasil que precisava olhar pra si mesmo e reinventar-se. É difícil, mesmo num exercício de imaginação, conceber a montagem desse texto entre os anos 30 e 50, e salvaguardar o impulso criador do dramaturgo.

“É preciso acabar com as ilusões” ===  Na releitura de Possolo, a encenação responde a três perguntas importantes: por que, para que e, para quem. O sentido para realizar essa produção, encontra eco no estado de coisas em que o Brazil – com “z”, intencionalmente – se encontra: os poderes econômicos numa tentativa de reocupar à força o espaço perdido por conta de avanços significativos obtidos pela sociedade brasileira.

A crise anunciada em praça pública é feita pelo próprio Oswald (Nando Bolognesi), inserido como narrador (o que não há no original) e, em diversos momentos, faz um alerta contra o embotamento das ideias, e seu papel na encenação, promove a necessária ruptura com as ilusões do espaço cênico.

O circo, a carnavalização e o pastiche  ===  Possolo aliou à sua ampla experiência do circo e teatro de rua, os elementos que dão a essa releitura uma impressão digital. O jogo permanente do faz de conta brechtiano é usado e abusado até as raias da loucura. Os figurinos de Telumi Helen ressaltam a percepção desse estado de dualidade: temos a convicção de vermos atores, cujas personagens representam as máscaras de si mesmas.

Ao assumir esse registro, a carnavalização no desenho cênico surge como resultado, representada na cenografia de Marcio Medina, nos belos telões de Fernando Monteiro de Barros e pela direção musical de Fernanda Maia. As coreografias, performances, músicas do pop brasileiro e gags dão um sentido de rompimento com o ordenamento estabelecido. Essa sensação de “carnaval errado” que invade a cena escorre para além do palco, metáfora nada sutil do momento em que vivemos.

Abelardo I, o agiota e usurário por excelência, interpretado por Possolo, é um modelo patético. Inspirado no personagem do “amigo da onça” (desenho criado pelo cartunista Péricles Maranhão nos anos 40), ele circunda o poder com sua amoralidade. É fácil enxergá-lo naquele político que correu com a mala de dinheiro e outros tantos.

O riso na obra de Oswald é muito sério   ===  O espetáculo O Rei da Vela, estreou no dia 13 de abril, e, evidentemente, terá a temporada para aparar arestas e tornar-se maior. É um bom espetáculo que conta com uma trupe empenhada e que abraçou generosamente a proposta do diretor. O humor, matéria prima dos Parlapatões desde 1991, encontra na obra de Oswald, o campo fértil de experimentação para um riso nervoso, quase trágico.

O público da Zona Norte de São Paulo tem a oportunidade de assistir a essa versão de Hugo Possolo e dos Parlapatões e, compreender entre risos e espanto, o quanto nossa desdita de ser brasileiro pode ser ainda mais dolorosa, quanto menos olharmos para a nossa cara no espelho.

E, O Rei da Vela é o espelho voltado para o rosto de cada um de nós, macunaímas com a preguiça de pensar, mas com a capacidade de rir das nossas pequenas patifarias, assim como os Abelardos riem das suas grandes patifarias.


FICHA TÉCNICA

Texto: Oswald de Andrade / Adaptação e Direção: Hugo Possolo / Assistente de direção: Ernani Sanchez

Elenco: Hugo Possolo, Camila Turim, Alexandre Bamba, Nando Bolognesi, Fernanda Maia, Tadeu Pinheiro, Fernando Fecchio, Conrado Sardinha, Fernanda Zaborowsky, Renato Versolato, Daniel Lotoy  ==  Músicos: Abner Paul, Léo Versolato, Daniel Warschauer e Evandro Ferreira Figurino: Telumi Helen / Direção musical e trilha Sonora: Fernanda Maia / Cenário: Marcio Medina / Pintura artística de telões: Fernando Monteiro de Barros / Desenho de luz: Guilherme Bonfanti / Produção: Erika Horn / Comunicação e Redes Sociais: Janayna Oliveira / Programação visual: Werner Schulz / Coordenação de produção: Parlapatões/Nada de Novo Produções Artísticas / Realização: Prefeitura Municipal de São Paulo – 30º Fomento ao Teatro /Serviço Social do Comércio: Sesc Santana


Serviço == REI DA VELA

13/04 a 06/05, 6ªs. feiras e sábados, às 21h, e domingos, às 18h.

25/04, quarta, às 15h.

*No dia 21/4 (feriado), a sessão será às 18h.

**Para idosos acima de 60 anos a apresentação do dia 25/04 será gratuita.

Sesc Santana – Avenida Luiz Dumont Villares, 579 – Santana – Informações: 2971.8700 Ingressos: R$9 a R$30. =  Recomendação etária: 14 anos. Duração: 60 minutos. Teatro. Capacidade: 330 lugares.


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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