O ator Renato Borghi entra em cena. Sua personagem é o inescrupuloso Abelardo I. Ao abrir uma janela cenográfica e olhar diretamente para a platéia, recebe uma calorosa ovação e aplausos persistentes. Essa reação do público é um respeitoso tributo ao artista e ao grupo que, desde os anos 60, são responsáveis por montagens antológicas do teatro brasileiro.

Ele, Helio Eichbauer e o diretor Zé Celso revivem em 2017 a histórica encenação produzida cinquenta anos atrás pelo Teat(r)o Oficina, marcada por um período traumático da vida brasileira: o endurecimento da ditadura que culminaria em 68 com o AI-5, o fechamento do Congresso e o cala-boca generalizado imposto à sociedade brasileira.

“Sou um feitor do capital estrangeiro!”

O protagonista, Abelardo I – banqueiro, agiota, o Rei da Vela -, subjuga clientes devedores em seu escritório de usura. Ele negocia casar-se com a falida Heloísa de Lesbos, e, assim, conquistar prestígio social. Porém, Abelardo I, submisso ao capital estrangeiro, sofrerá as consequências de suas ações corruptas.

Embora O Rei da Vela tenha sido escrito no início dos anos 30, impressiona o frescor perturbador dessa peça de Oswald de Andrade (1890 – 1954). Basta suprir alguns termos comuns à época e tudo o mais é moderno em sua linguagem e conteúdo.

Foi de grande importância a montagem em 1967 e, infelizmente, o mesmo texto ainda ecoa neste nosso Brasil em 2017. Coube ao “… ermitão que não prega no deserto…”, como disse Fernanda Montenegro, referindo-se ao diretor, a tarefa de trazer de volta o ferino texto de Oswald, revelador dos mecanismos terríveis em que se baseiam o esquema sócio-econômico de nosso país, dominado por maus empresários, agiotas e políticos locupletados com o capital à custa da miséria brasileira.

O deus Dionísio pede passagem

A direção de Zé Celso coloca no liquidificador o distanciamento preconizado por Brecht, uma pitada dos orixás, a antropofagia Oswaldiana e o deus Dionísio, no gozo pleno dos seus prazeres carnavalescos mais inconfessáveis, para sorver com o público o “Abre-Alas” das possibilidades para este país que não se cansa de errar com suas gerações, com suas crianças, com sua educação e cultura.

A tropicália baixou no palco e não cheirava a mofo: sua irreverência e choque estético deram às personagens e cena a dimensão da nossa brasilidade reprimida e sacana, cuja malemolência vai da “cervejinha” para quebrar um galho às malas com cinquenta milhões.

Grandiloquência estética da sacanagem

Tudo no espetáculo vai às raias da loucura, porém, com a precisão cirúrgica do diretor, que soube fazer uso equilibrado da trilha sonora, figurinos ambíguos e cenografia, elementos estéticos revisitados em relação à primeira montagem.

A parceria com Helio Eichbauer, diretor de arte, recupera na arquitetura cênica a ambientação do realismo crítico brechtiano, do teatro de revista, da ópera e desemboca num imenso palco giratório, metáfora desse mundo de oportunidades perdidas, nessa roda da vida que precisa ressignificar o enigma Brasil.

O elenco é preciso, de uma devoção à liberdade cênica, reflexiva, distanciada, de acordo com a proposta da direção para provocar no público um mal estar, um incômodo necessário ao ver em cena a farsa trágica dos poderosos.

O espetáculo “O Rei da Vela” está terminando a sua temporada, mas irá reverberar enquanto os variados segmentos da nossa doente sociedade continuarem a agir e aceitar o papel de capitão do mato, subjugando uns aos outros, sob interesses mesquinhos.

Mas, até para isso, Oswald propõe uma alternativa: “… ide chamar os bombeiros ou se preferirem a polícia!…”

Acesse a fanpage do grupo oficina: https://www.facebook.com/uzynauzona/


FICHA TÉCNICA

Texto: Oswald de Andrade / Diretor: Zé Celso / Conselheira poeta: Catherine Hirsh

Assistente do diretor: Cyro Moraes

Elenco: Renato Borghi, Marcelo Drummond, Sylvia Prado, Camila Mota, Tulio Starling, Ricardo Bittencourt, Regina França, Roderick Himeros, Elcio Nogueira Seixas, Joana Medeiros, Daniele Rosa, Tony Reis e Zé Celso.

Ponto: Nash Laila / Canção de Jujuba: letra de Oswald de Andrade e música de Caetano Veloso / Diretor de arte: Hélio Eichbauer / Assistente do diretor de arte: Luiz Henrique Sá / Arquitetura cênica: Carila Matzenbacher e Marilia Gallmeister / Diretor de cena: Otto Barros / Contrarregra: Vinicius Alves / Cenotécnico e Contrarregra: Alicio Silva / Costura cenogáfica: Oneide Cauduro / Aderecistas: Igor Alexandre Martins e Andrea Guzman / Criador do bonecão Abelardo I: Ricardo Costa / Criadora da cobra de Abelardo I: Lala Martinez Corrêa / Pintura artística: Vicent Guilnoto / Figurinista: Gabriela Campos / Assistente de figurino: Marcela Lupiano / Estagiário de figurino: Lucas Andrade / Alfaiate: Lello / Costureiras: Judite Lima, Cris Mike, Joana e Salete / Sapateiro: Davi e Pedro (Free Sapataria) / Camareira: Cida Melo / Maquiadora: Beatriz Sergio de Barros / Assistente de Maquiagem: Camila Barros / Iluminador: Beto Bruel /Operador de luz: Ricardo Morañez / Operadores do canhão de luz: Luana Della Crist e Pedro Felizes / Montagem da luz: Pedro Felizes e Renato Banti / Sonoplasta: Andréia Regeni / Operador de som e microfone: Rodolfo Yadoya / Diretor de vídeo/Câmera: Igor Marotti / Câmera: Cafira Zoé / Diretora de produção: Ana Rubia Melo / Produtor executivo e administrador: Anderson Puchetti / Assistente de produção: Ederson Barroso / Comunicação, editoração do programa e textos: Brenda Amaral, Cafira Zoé e Camila Mota / Ilustrações de cenários e figurinos: Hélio Eichbauer / Design gráfico, ilustrações e diagramação do programa: Igor Marotti / Fotografias do elenco 2017: Jennifer Glass – Foto do Ofício / Programação web: Brenda Amaral / Pesquisa de imaginário / Makumbas gráphicas | Cafira Zoé e Camila Mota / Arquivista: Thais Sandri


SERVIÇO

O REI DA VELA

Classificação: 16 anos / Duração: 3h30 (com dois intervalos de 20 minutos cada)

Onde: SESC Pinheiros–Teatro Paulo Autran

Rua Paes Leme, 195, (Metrô Estação Faria Lima)- Telefone: (11)3095-9400

Temporada/Horários: 21 de outubro a 19 de novembro de 2017 – Sábados às 19h e domingos às 18h.   Obs.: Haverá sessão extra na 6ª feira (24/11/2017), às 19hs.

Ingresso: Comerciário com Credencial Plena: R$15,00 / Estudantes, Professores, Aposentados, Deficientes: R$25,00 / Demais: Inteira – R$ 50,00

Lotação: 1010 lugares    —  Estacionamento no SESC Pinheiros.


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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