por Aguinaldo Gabarrão (*) ===

Um casal estranho, com filhos estranhos e gente estranha por todos os lados. Isso, por si só, não revela se o filme será bom ou ruim. Mas, somado ao roteiro e direção, certamente dá o tom do que se pretende fazer com a narrativa e o público. E o resultado decepciona em vários aspectos, embora a história seja bastante interessante.

O cirurgião cardiovascular Steven Murphy tem uma inquietante amizade com o adolescente Martin, cujo pai morreu na mesa de cirurgia, operado por Steven. O médico secretamente cuida do rapaz, porém, quando o jovem resolve invadir a privacidade da família e o médico afasta-se dele, Martin resolve vingar-se do médico, perseguindo seus dois filhos e esposa.

O mito de Ifigênia === O roteirista Efthymis Filippou e o diretor Yorgos Lanthimos desenvolveram o roteiro a partir do mito grego de Ifigênia, oferecida em sacrifício por seu pai, Agamemnon, para que seus exércitos pudessem ter sucesso contra Tróia. Porém, no último momento, os deuses a salvam e colocam em seu lugar um cervo. Curiosamente, esse mito está presente, sob outra roupagem, no sacrifício de Isaac, oferecido por Abraão a Deus, como forma de provar a sua fé no Altíssimo. Também aqui, por intervenção Divina, a criança é salva.

Mas, o roteiro premiado em Cannes, não explora essas ricas possibilidades. Concentra-se no ato premeditado de vingança do jovem adolescente Martin contra a família do médico. Sem que se saiba como, o jovem exerce um domínio psicológico sobre os filhos do casal, e estes, perdem os movimentos das pernas e a vontade de se alimentar. Numa escala progressiva poderão morrer em pouco tempo.

A mãe psicóloga, interpretada por Nicole Kidman, inicialmente fria e racional, é envolvida numa espiral de situações que a desequilibram e expõem a fragilidade e superficialidade do seu relacionamento com Steven. A partir daí, perde-se a mão da história e uma sucessão de fatos incongruentes e sem sentido, só lançam a trama num emaranhado ainda mais confuso.

O terror psicológico === Embora na ficha técnica a distribuidora mencione o gênero do filme como “suspense”, o filme está muito mais identificado como terror psicológico. E, esse clima fica mais evidente na direção dos atores e na tratativa dada pelo diretor de fotografia Thimios Bakatakis: planos abertos ou ângulos em câmera alta revelam ambientes enormes e reduzem os personagens a pequenos insetos, frágeis. Em diversos momentos a câmera acompanha os atores, como se fosse uma estranha entidade vigiando os passos e suas ações mais íntimas.

A trilha sonora dissonante ressalta o clima de desestabilização do casal Murphy e, o conjunto lembra, em alguns momentos o filme “O Iluminado”. Mas é uma sombra fraca e pretensiosa se compararmos com o clássico de Stanley Kubrick.

O diretor grego Yorgos Lanthimos, surgiu para o mundo cinematográfico com seu filme Kynodontas (no Brasil Dente Canino) e chegou a ser um dos indicados do Oscar 2011. Porém, neste filme, ele não consegue dar consistência e unidade aos diversos elementos do filme. É uma pena ver-se Colin Farrell e Nicole Kidman realizarem um esforço sobre humano para compor dignamente personagens muito mal resolvidos no roteiro. Não há ator que dê jeito.

Assim, “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, cria uma imensa expectativa pela forma como a trama é apresentada, mas se perde nas péssimas escolhas do roteiro e direção.

Assista ao trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=LAjbBOYGokY


 FICHA TÉCNICA

O Sacrifício do Cervo Sagrado (Título original – The Killing of a Sacred Deer)

Direção: Yorgos Lanthimos / Roteiro: Efthymis Filippou, Yorgos Lanthimos / Fotografia: Thimios Bakatakis

Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Alicia Silverstone, Barry G. Bernson, Barry Keoghan, Bill Camp, De Ming Wang, Denise Dal Vera, Drew Logan, Herb Caillouet, Michael Trester, Raffey Cassidy, Sunny Suljic.

Gênero: suspense / Duração: 121 minutos

Classificação indicativa: 16 anos / País: EUA – Reino Unido e Irlanda do Norte / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 08 de Fevereiro de 2018 (Brasil)


SERVIÇO

  • Bourbon – Espaço Itaú Pompéia – Sala 10 (60 lug.): 21h00
  • Frei Caneca – Espaço Itaú Sala 8 (98 lug.): 16h30 / 21h40
  • Caixa Belas Artes – Sala 5 (96 lug.): 21h10
  • Cinearte – Sala 1 (300 lug.): 16h30
  • Jardim Sul – UCI Sala 7 (177 lug.): 22h05

(Verifique as sessões e se o filme é legendado ou dublado)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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